121 anos da Educação Teológica da IPI do Brasil e sua “Casa de Profetas”

Além de celebrar, a FATIPI renovou o compromisso de não negociar o que está no coração da IPIB: o estudo da Palavra de Deus com rigor e integridade

Na noite de 23/04, pouco depois das 19h, a capela da Faculdade de Teologia de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (FATIPI), na Rua Genebra, 180, foi se enchendo aos poucos. Chegavam pastores de diferentes regiões do país, professoras e professores, presbíteras e presbíteros, estudantes de teologia e lideranças da denominação. Havia abraços, reencontros, conversas em voz baixa. Não era “mais um culto”. Aquela noite marcava um tempo de memória, de alerta e de esperança: a celebração dos 121 anos da Educação Teológica da IPI do Brasil.

Na sede da Fundação Eduardo Carlos Pereira (FECP), mantenedora da FATIPI, a condução litúrgica ficou a cargo da própria faculdade. Logo no início, a mesa diretora convidou o Conselho de Curadores, o Conselho Fiscal e a diretoria da IPI do Brasil a se colocarem em pé. Um a um, foram apresentados à comunidade. O gesto não soou como mera formalidade. Serviu para deixar visível algo que muitas vezes fica nos bastidores: a rede de pessoas que, ao longo dos anos, sustenta a “Casa de Profetas”, como a IPI gosta de chamar sua instituição de formação.

 

Liderança da FATIPI e da IPIB

 

Em seguida, foram mencionadas as presenças de professoras e professores, estudantes, integrantes da Comissão Executiva da Assembleia Geral e representantes de organismos parceiros, entre eles, a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB).

Ao longo da celebração, a liturgia preparada com cuidado foi entrelaçada pela participação musical do quarteto Huios.

 

A voz que vem da própria casa

Para a pregação daquela noite, a FATIPI chamou alguém que conhece a educação teológica não apenas por relatos ou documentos, mas por vivência. O Rev. Áureo Rodrigues de Oliveira, pastor da 1ª IPI de Limeira (SP), ex-presidente da Assembleia Geral da IPI do Brasil e, por 21 anos, diretor do Seminário Teológico de Fortaleza, subiu ao púlpito com a naturalidade de quem volta a um lugar que fez parte da própria história.

Rev. Áureo Rodrigues de Oliveira: “sou filho desta casa”.

“Sou filho desta casa”, disse logo no início, lembrando da época em que, ainda jovem, veio estudar no seminário da denominação – meio a contragosto -, atendendo à decisão firme de seu presbitério. A formação em São Paulo e, depois, o chamado para atuar na educação teológica no Nordeste moldaram a trajetória de seu ministério. Agora, diante de estudantes e lideranças da igreja, o Rev. Áureo escolheu um texto contundente do Antigo Testamento para colocar a educação teológica da IPI do Brasil diante de um espelho.

Tomando como base um trecho do livro do profeta Jeremias, na fase em que parte do povo vivia no exílio e outra parte buscara refúgio no Egito, o pregador descreveu a resistência daquele grupo em ouvir a voz de Deus. Em vez de arrependimento, havia justificativas. Argumentos que soam assustadoramente familiares: “sempre fizemos assim”, “funcionou até aqui”, “nossos líderes faziam desse jeito”, “todo mundo faz”, “é tradição da família”.

A partir dessa cena bíblica, o Rev. Áureo fez um paralelo com o cenário religioso brasileiro e com desafios internos da própria IPI do Brasil. Segundo ele, a pressão por resultados (contados em números, visibilidade, expansão rápida) tem assumido, em muitas comunidades, o centro das decisões. A busca por relevância, que em si é legítima, corre o risco de deslizar para uma espécie de obediência cega ao que “funciona”, sem confronto honesto com o Evangelho.

 

A busca por relevância, que em si é legítima, corre o risco de deslizar para uma espécie de obediência cega ao que “funciona”, sem confronto honesto com o Evangelho.

 

Práticas e modismos

Nesse ponto, o pregador mencionou práticas e modismos que se espalharam nos últimos anos:

  • A importação acrítica de modelos de igrejas estrangeiras;
  • O uso de estratégias de marketing mais voltadas a agradar ao “mercado religioso” do que a servir com fidelidade à Palavra;
  • O fascínio por discursos teológicos que prometem prosperidade quase automática em troca de fé e contribuições financeiras.

A crítica, porém, não ficou restrita à Teologia da Prosperidade. Ele também alertou para o risco contrário: confundir fidelidade à Escritura com apego rígido a formas litúrgicas ou estruturas institucionais que, em vez de servirem de canal, acabam virando barreiras para o Evangelho alcançar as novas gerações.

“Nem tudo o que cresce vem de Deus”, resumiu em determinado momento. Doenças também crescem depressa, lembrou. Traduzindo esse alerta para a realidade da formação: a educação teológica oferecida pelo seminário não pode se contentar em repetir fórmulas, sejam elas as do mercado religioso, sejam as de um passado idealizado. Ela precisa formar lideranças capazes de discernir o que é fidelidade ao Evangelho e o que é mera repetição.

 

Público presente

 

Entre a história e a areia do pragmatismo

A pregação dialogou com a própria história da educação teológica presbiteriana independente. Ao longo de mais de um século, o seminário esteve várias vezes no centro de debates doutrinários, crises de confiança, mudanças de corpo docente e redefinições pedagógicas. A memória da instituição é também a memória de seus conflitos e recomeços.

 

A memória da instituição é também a memória de seus conflitos e recomeços.

 

Na parte final da mensagem, o Rev. Áureo condensou o desafio em duas perguntas dirigidas, em especial, a quem se prepara para o ministério, mas que ecoaram em todos:

  1. Até que ponto estamos dispostos a ser fiéis ao chamado que recebemos?
  2. E, no fundo, para quem fazemos o que fazemos?

Ao falar de motivação, contou uma parábola presente em um livro de Tim Keller, envolvendo Jesus e os apóstolos. A história ilustra a diferença entre servir esperando recompensas imediatas e obedecer por amor ao Senhor da igreja. Nela, Jesus pede que os discípulos carreguem uma pedra. Pedro, pensando no próprio conforto, escolhe uma pedra pequena. Mais tarde, empolgado com a possibilidade de um milagre que o beneficie, decide levar uma pedra enorme. No final, descobre que o critério de Jesus não é o tamanho da recompensa, mas para quem o serviço foi prestado.

A imagem, simples e direta, ficou como síntese para o auditório: a educação teológica que a FATIPI oferece – e que a IPI do Brasil celebra – não existe para garantir prestígio a instituições ou a nomes, nem para produzir números impressionantes em relatórios. Existe, antes, para formar pessoas dispostas a carregar “pedras”, grandes ou pequenas, com a motivação certa.

 

Palavra de gratidão e responsabilidade

Depois da pregação, o Rev. Sérgio Gini, presidente da Assembleia Geral da IPI do Brasil, trouxe uma saudação marcada pela gratidão e pelo senso de responsabilidade.

Rev. Sergio Gini

Ele expressou a alegria de, naquela noite, encerrar as comemorações dos 120 anos e, ao mesmo tempo, celebrar os 121 anos da “Casa de Profetas” da IPI do Brasil. Saudou o Conselho Curador da Fundação Eduardo Carlos Pereira, na pessoa do presbítero Heitor Pires Barbosa Jr.; a direção da FATIPI, representada pelo Rev. Marcos Nunes; as professoras e os professores; e, com carinho especial, às alunas e os alunos, lembrando que são eles a razão de existir da faculdade, sua verdadeira “menina dos olhos”.

Em seguida, ressaltou que a IPI do Brasil, ao longo desses 121 anos, tem carregado uma responsabilidade essencial na área da educação, enfrentando lutas, tempestades e momentos decisivos na vida da igreja, mas experimentando, em tudo isso, a boa mão do Senhor sobre essa casa de formação. Reafirmou sua convicção de que Deus continuará chamando homens e mulheres para proclamar o Reino e a Palavra em um mundo cada vez mais pragmático e, em suas palavras, até “maluco”. Por isso mesmo, a igreja é convocada a clamar por misericórdia e a manter viva sua voz profética.

 

A igreja é convocada a clamar por misericórdia e a manter viva sua voz profética.

 

Do livro de atas à galeria viva

Embora o foco principal do culto fosse espiritual, houve também espaço para a memória concreta, quase palpável. A Fundação Eduardo Carlos Pereira vem, nos últimos anos, investindo em uma espécie de “arqueologia da memória” da educação teológica independente. Desse movimento nasceu a decisão de batizar espaços do prédio com nomes significativos do arraial presbiteriano independente, não apenas de pessoas já falecidas, mas também de quem continua em plena atividade.

A capela, por exemplo, recebeu o nome do professor Rev. Leontino Farias dos Santos, cuja atuação marcou gerações. Auditórios e salas trazem nomes de pastores e docentes que, em diferentes épocas, assumiram o peso da formação ministerial. Logo na entrada, totens apresentam uma linha do tempo com rostos, datas e momentos decisivos do seminário e de seus braços regionais, como os antigos Seminários de Fortaleza e Londrina.

Nessa noite de celebração, duas homenagens se destacaram. A primeira olhou para o presente: o auditório do segundo andar passou a se chamar “Auditório Presbítero Heitor Pires Barbosa Júnior”, em reconhecimento a anos de serviço discreto e decisivo na gestão da FECP. A decisão, tomada por unanimidade pelo Conselho de Curadores, pegou o homenageado de surpresa, convidado a participar do descerramento da placa.

 

Presb. Heitor, sua esposa Cely (professora) e seu filho Rodrigo (pastor). Ao fundo, a placa que aponta para o auditório que leva o seu nome.

 

A segunda homenagem voltou-se a uma memória já conhecida, mas agora tornada mais visível. Foi descerrada uma placa com a foto do Rev. Abival Pires da Silveira, dando rosto ao nome que já identificava o edifício onde funciona a FATIPI, com a presença da esposa do homenageado, Profa. Marlene Silveira. Ao lado da antiga placa, que apenas registrava a denominação do prédio, a nova peça apresenta às novas gerações quem foi o pastor cuja trajetória ajudou a moldar a identidade da fundação.

 

Rev. Gini com Marlene (esposa do Rev. Abival – ao centro), que estava acompanhada do filho Felipe (à direita), e da nora Juliana (à esquerda). Na ponta direita: Presb. Heitor.

 

“Quem entra aqui está construindo história”, afirmou o diretor executivo da fundação, presbítero Ítalo Curcio, ao lembrar que a galeria de presidentes, diretores acadêmicos e diretores executivos não existe apenas para guardar o passado, mas também para registrar o caminho daqueles que hoje estão à frente da instituição.

 

Presb. Ítalo Curcio, diretor executivo da Fundação Eduardo Carlos Pereira (FECP), mantenedora da FATIPI: “Quem entra aqui está construindo história”.

Compromisso que se renova

Ao final do culto, com todos de pé, o hino oficial da IPI do Brasil ecoou pela capela. Enquanto vozes e memórias se misturavam, ficava a sensação de que o início da celebração dos 121 anos da Educação Teológica não se limitava a recontar uma história bonita. Ela renovou publicamente um compromisso.

O compromisso de não negociar aquilo que está no coração da identidade da IPI do Brasil: fazer de sua “Casa de Profetas” um lugar onde a Palavra de Deus é estudada com rigor, anunciada com coragem e vivida com integridade.

 

Oração final

 

Fotos: Rhaissa Amorim
Foto de Sheila Amorim

Sheila Amorim

Jornalista e gestora da agência Vida&Caminho. Membro da IPI de Cidade Patriarca, São Paulo, SP

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