Em um tempo marcado pela distração digital, superficialidade espiritual e desgaste ministerial, a educação cristã enfrenta desafios profundos dentro das igrejas brasileiras. Na entrevista a seguir, o Rev. Marcos Camilo de Santana reflete sobre a crise contemporânea do discipulado, os impactos culturais sobre as novas gerações e a necessidade urgente de recuperar uma formação cristã mais profunda, intergeracional e centrada em Cristo.
À frente da Secretaria Nacional de Educação Cristã da IPIB, ele apresenta os projetos e estratégias que vêm sendo desenvolvidos para fortalecer o discipulado nas igrejas locais, incluindo os frutos do Projeto Lidere e os planos para um novo movimento nacional de formação. Com linguagem pastoral, teológica e prática, Marcos Santana defende que a Igreja precisa parar de formar “consumidores religiosos” e voltar a formar discípulos capazes de viver a fé de maneira encarnada, comunitária e transformadora.
Entrevistado: Rev. Marcos Camilo de Santana.
Secretaria: Nacional de Educação Cristã.
SOBRE A SECRETARIA
Por favor, explique ao leitor(a) qual os objetivos da sua secretaria nacional?
A Secretaria de Educação Cristã da IPIB existe para cumprir aquilo que Deuteronômio 6 já anunciava como imperativo inegociável: a fé não é apenas ensinada, ela é habitada. Nosso objetivo central é formar pessoas — crianças, jovens, adultos e líderes — que vivam a narrativa bíblica de dentro para fora, não como conteúdo curricular, mas como identidade encarnada.
Trabalhamos sobre quatro eixos fundamentais que chamamos de “formação integral”: Palavra habitando, Oração real, Comunhão encarnada e Disciplina espiritual. Não queremos apenas transmitir doutrina reformada — queremos que a cosmovisão reformada se torne o ar que a comunidade presbiteriana respira. Isso significa articular diagnóstico cultural, espiritualidade reformada viva, comunicação relevante, discipulado modular e missão com caráter. A educação cristã, para nós, é o DNA da IPIB.
Quais os maiores desafios para o alcance desses objetivos?
Os desafios são, ao mesmo tempo, culturais, estruturais e espirituais. Permita-me nomeá-los com honestidade.
O primeiro é o que podemos chamar de desânimo ministerial. Há líderes de educação cristã que carregam anos de serviço fiel, mas se sentem exauridos. O galho cansa, mas não quer largar a videira — e isso é precioso, mas exige cuidado pastoral, não apenas mais programas.
O segundo é o diagnóstico cultural da nova geração. A Geração Z vive o paradoxo de ser altamente conectada digitalmente, mas profundamente solitária. Pesquisas mostram que apenas 7% dessa geração prioriza a construção de comunidade duradoura como objetivo de vida; e 60% acredita que a moralidade é subjetiva e individual. Isso é um desafio enorme para qualquer projeto de educação cristã que pressupõe verdade objetiva, narrativa coletiva e pertencimento eclesial.
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Isso é um desafio enorme para qualquer projeto de educação cristã que pressupõe verdade objetiva, narrativa coletiva e pertencimento eclesial.
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O terceiro é o risco de inovação sem ancoragem. Vemos nas igrejas evangelicais brasileiras uma tendência à gamificação sem teologia, ao emocionalismo sem doutrina, à espiritualidade “instagramável” e ao tratamento da criança como cliente a ser conquistado. João 15 nos proíbe exatamente isto: fruto desconectado, movimento sem vida, novidade sem permanência.
E há ainda o quarto desafio: a queda da participação das gerações mais velhas. O desgaste congregacional estrutural acumulado em 25 anos fragilizou o tecido intergeracional que sempre foi a força da IPIB. Não há transmissão de fé sem encontro entre gerações.
Como você pretende alcançar esses objetivos?
Nossa estratégia parte de uma convicção teológica de um Projeto que articula com clareza alguns pontos: o centro não é um lugar, é Cristo pelo Espírito. Como em Números 2, onde as tribos se organizavam ao redor da presença — não ao redor de Moisés, não ao redor de uma estratégia, mas ao redor do tabernáculo —, nós precisamos reorganizar a educação cristã ao redor de Cristo.
Na prática, isso se traduz em três movimentos integrados.
Primeiro, o movimento de permanecer na História: resgatar a fé como rotina encarnada, como Israel fazia em Deuteronômio 6 — conversar ao sentar-se, caminhar juntos, comer juntos, dormir e acordar sob a mesma narrativa bíblica. Isso é menos palco e mais mesa. Menos pressa e mais processos.
Segundo, o movimento de frutos e desgastes: reconhecer honestamente os sinais de esgotamento ministerial e reconstruir a comunidade ao redor dos pilares de Atos 2.42-47 — Palavra, Comunhão, Partir do Pão e Orações. A conexão que traçamos é direta: Tabernáculo → Cristo; Levitas → Doutrina; Presença → Missão.
Terceiro, o movimento de aplicação contextual: trabalhar com um plano estratégico de 12 meses estruturado em quatro trimestres — diagnóstico e identificação de líderes emergentes; reestruturação do discipulado; construção de cultura de pertencimento; e consolidação com multiplicação.
O que há de planejado para 2026?
2026 será um ano de movimento, alinhamento e construção profunda.
Estamos nos aproximando do lançamento de um grande projeto transversal para toda a IPIB — fruto de oração, escuta, maturação e visão compartilhada. Ainda não podemos revelar seu nome, mas os caminhos que nos trouxeram até aqui já mostram que Deus está formando algo maior.
E essa caminhada começou antes.
O primeiro passo desse movimento foi o projeto Lidere. Mais que um programa de encontros, ele se tornou uma jornada de escuta, formação e conexão entre gerações. Durante os últimos dois anos, caminhamos pelo país levando uma proposta integrativa de formação de líderes jovens, sempre com um olhar intergeracional e com a convicção de que o futuro da Igreja passa pela transferência fiel do bastão.
O Lidere nasceu no Grande São Paulo, avançou para o ABC, percorreu o Sul do país e chegou ao Nordeste, passando por cidades como Salvador e Natal. Em cada lugar, Deus foi confirmando algo em nosso coração: não somos chamados apenas para reunir pessoas, mas para formar uma geração que permaneça.
Ao longo dessa trajetória, o Lidere ajudou a construir pontes entre gerações, fortalecer vínculos, despertar vocações e reafirmar um DNA que tem marcado cada encontro: menos palco, mais mesa; menos imediatismo, mais processos; menos performance, mais discipulado.
A Capacitação para Permanecer – um tópico do Lidere -, realizada ao longo deste ano com os Presbitérios Sul-Paraná, Nordeste, São Paulo e Grande São Paulo, ao lado da Secretaria de Educação Cristã, foi uma expressão clara dessa visão. À luz de João 15.4, fomos lembrados de que não existe fruto sem raiz. Permanecer na Videira continua sendo o centro de tudo.
E foi justamente dessa caminhada que nasceu o que vem agora.
O Projeto Lidere foi o primeiro passo, foi o solo, a construção inicial.
Os frutos colhidos nesses dois anos abriram caminho para algo ainda maior: um programa transversal para toda a IPIB, que em breve começará a percorrer nosso arraial, conectando formação, discipulado, missão e legado de maneira ainda mais profunda e estruturada.
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Os frutos colhidos nesses dois anos abriram caminho para algo ainda maior: um programa transversal para toda a IPIB, que em breve começará a percorrer nosso arraial, conectando formação, discipulado, missão e legado de maneira ainda mais profunda e estruturada.
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Ainda não podemos revelar tudo.
Mas já podemos dizer que o que vem aí não nasceu de uma ideia repentina — nasceu da caminhada.
A IPIB é uma denominação nacional. Considerando as dimensões continentais do nosso país, como envolver e engajar mais igrejas locais no trabalho de sua secretaria?
Aqui precisamos entender algo que é fundamento histórico da IPIB: a educação não é um departamento da nossa igreja; ela é a espinha dorsal da nossa identidade denominacional. Um dos pilares da coragem que levou os fundadores da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil a romper, em 1903, foi exatamente essa disputa — educacional e missional. A IPIB nasceu com a convicção de que não se pode separar formação espiritual de formação integral. Escola, família e igreja como projeto coeso de transformação. Isso não é novidade — é herança.
Portanto, engajar igrejas locais não é apenas uma questão logística num país continental como o Brasil. É uma questão teológica: toda igreja local que abdica da educação cristã séria está abandonando um pedaço de sua identidade presbiteriana independente.
Nosso caminho é descentralizado e modular. Treinamos multiplicadores presbiterianos. Desenvolvemos materiais que podem ser adaptados a contextos urbanos e rurais, do Oiapoque ao Chuí. Trabalhamos com a estrutura sistemática e identitária que já temos — cada presbitério como ponto de irradiação — e não contra ela. E usamos os meios digitais, não como substituto da comunidade encarnada, mas como ferramenta de alcance inicial e sustentação de redes.
A pergunta que fazemos a cada líder local é esta: O que ocupa o centro da sua comunidade? E quem guarda a presença? Se o centro for Cristo e a presença for guardada pela doutrina viva e pela comunhão real, a educação cristã acontece naturalmente. Nossa secretaria quer ajudar cada igreja a responder isso com clareza e com fruto.
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SOBRE A VISÃO CRISTÃ DA EDUCAÇÃO
Os que seguiram a Jesus o chamavam de Mestre, e ele os chamava de discípulos. Isto nos revela uma dimensão educacional na relação com o Senhor. Se Jesus fundasse uma escola, como ela seria?
Creio que a escola de Jesus já foi fundada — ela se chama Igreja. E seu projeto pedagógico não é improvisado; ele aparece com clareza em Atos 2.42: a doutrina dos apóstolos, a comunhão, o partir do pão e as orações. Mas esse fundamento encontra sua ordem explícita nas palavras do próprio Cristo: “Ide e fazei discípulos” (Mateus 28). Portanto, a mobilidade da igreja não deve ser determinada por agendas, eventos ou simples manutenção institucional, mas pela centralidade do discipulado como obediência direta ao Senhor.
A direção da igreja discerniu algo essencial: fazer discípulos não é um departamento da igreja; é sua vocação central. E, se esse caminho produz crescimento, isso deve ser entendido como fruto natural da fidelidade, não como nossa motivação principal. Não fazemos discípulos para crescer; crescemos porque obedecemos a Cristo.
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Não fazemos discípulos para crescer; crescemos porque obedecemos a Cristo.
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Quando olhamos para Jesus, isso fica evidente. Ele não construiu apenas ambientes de ensino; formou pessoas. Caminhava com elas, comia com elas, atravessava crises com elas, corrigia, confrontava, acolhia e enviava. Seu ensino era vida compartilhada. Deuteronômio 6 já desenhava essa lógica: ensinar ao sentar-se, ao caminhar, ao deitar-se e ao levantar-se. A fé bíblica nunca foi concebida como mera transmissão de informação, mas como formação de vida.
É por isso que vale mencionar Howard Hendricks, um educador cristão muito respeitado no mundo evangélico, especialmente nas áreas de discipulado, ensino bíblico e formação de líderes. Durante décadas, ele ensinou no Dallas Theological Seminary e influenciou pastores, professores e discipuladores ao redor do mundo. Sua contribuição é útil aqui porque ele traduziu pedagogicamente algo que já vemos em Jesus: ensinar não é apenas comunicar conteúdo; ensinar é provocar transformação. Em outras palavras, se depois do ensino nada muda, talvez tenhamos informado, mas ainda não discipulado.
Uso essa referência porque ela ajuda a conectar a prática educacional da igreja com a missão bíblica. Muitas vezes confundimos educação cristã com aula, currículo ou acúmulo de conhecimento. Hendricks nos lembra que o alvo do ensino cristão é mudança de vida — exatamente o que Jesus buscava ao chamar discípulos.
Por isso, nossa estrutura precisa refletir nossa missão. Se fazer discípulos está no centro da ordem de Cristo, então ministérios, liturgia, classes, pequenos grupos, pregação, comunhão e liderança precisam servir a esse propósito. A pergunta não é se estamos ocupados; a pergunta é se estamos formando discípulos.
A escola de Jesus seria intergeracional, porque a fé precisa ser vista, compartilhada e encarnada entre gerações. Crianças aprendem vendo adultos orarem. Jovens amadurecem ouvindo testemunhos de perseverança. Novos convertidos aprendem mais do que conceitos; aprendem hábitos, afetos e fidelidade.
Seria uma escola que valoriza mais a mesa do que o palco, mais o processo do que o evento, mais a formação do caráter do que a performance religiosa. Porque o discipulado cristão não é um curso que se conclui; é uma jornada de conformação a Cristo.
E, acima de tudo, o centro dessa escola não é um mestre humano, nem um método pedagógico brilhante. É o próprio Cristo, pelo Espírito. O Pai é o agricultor. Nós ensinamos, acompanhamos e pastoreamos — mas quem verdadeiramente forma é Deus.
O quanto as igrejas atuais têm uma visão parecida com Jesus a respeito da educação?
Precisamos ser honestos: há, muitas vezes, uma distância considerável entre o modelo formativo de Jesus e aquilo que a igreja contemporânea consegue praticar. E digo isso não como crítica contra a igreja, mas por amor a ela. Nossa igreja ama a Cristo, valoriza a Palavra, deseja servir com fidelidade — e isso precisa ser reconhecido com gratidão. Mas justamente porque amamos a Igreja, precisamos também olhar nossos desafios com lucidez e esperança.
Vivemos um tempo de crises profundas: crises vocacionais, em que muitos atuam sem clareza de chamado; excesso de informação com pouca transformação; agendas ministeriais cheias, mas interior esvaziado; ativismo que, por vezes, substitui comunhão genuína.
João Calvino nos ajuda a compreender esse ponto com profundidade. Para ele, a verdadeira sabedoria consiste em duas realidades inseparáveis: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Isso significa que a formação cristã nunca pode ser reduzida a acúmulo de conteúdo religioso ou mera funcionalidade eclesiástica. Se ensinamos muito, mas não conduzimos pessoas ao encontro reverente com Deus e à transformação do próprio coração, falhamos no essencial. A crise contemporânea não é apenas pedagógica; é espiritual e antropológica.
E Cornelius Van Til amplia essa percepção ao insistir que não existe neutralidade na formação humana. Toda educação comunica uma cosmovisão. Toda prática discipula alguém em alguma direção. Se a igreja não forma conscientemente uma visão cristã da realidade, a cultura inevitavelmente ocupará esse espaço. O problema, portanto, não é apenas “não ensinar o suficiente”; é permitir que outras narrativas catequizem nosso povo sem resistência teológica.
Por isso, alguns desafios contemporâneos precisam ser discernidos com seriedade. Em certos momentos, corremos o risco de substituir profundidade por estímulo, teologia por experiência imediata, discipulado por consumo religioso. A lógica da performance invade a espiritualidade; a estética pode se sobrepor à substância; e até nossos processos formativos, inclusive com crianças e jovens, podem ser pressionados por modelos mais orientados à retenção do que à maturidade espiritual.
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Corremos o risco de substituir profundidade por estímulo, teologia por experiência imediata, discipulado por consumo religioso.
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Mas essa leitura não é pessimista. Pelo contrário: ela é profundamente esperançosa.
Porque a tradição reformada sempre nos ensinou que a igreja vive de reforma contínua — ecclesia reformata, semper reformanda. Não porque tudo esteja errado, mas porque sempre precisamos retornar ao evangelho com renovada fidelidade.
E há sinais reais de esperança. Mesmo em uma cultura saturada de informação e distração, percebemos uma fome espiritual genuína. Muitos jovens, cansados da superficialidade contemporânea, buscam pertencimento, sentido, transcendência e verdade encarnada. Isso não deve nos levar ao desespero institucional, mas à confiança pastoral.
Talvez a resposta da igreja não seja se reinventar como produto mais atraente, mas redescobrir com coragem aquilo que Cristo já ordenou.
Não precisamos competir com a cultura em entretenimento.
Precisamos oferecer formação.
Não precisamos produzir consumidores religiosos.
Precisamos formar discípulos.
Não precisamos responder ao excesso de informação com ainda mais informação.
Precisamos cultivar transformação.
Nossa esperança está justamente aqui: Deus continua chamando pessoas, o Espírito continua formando a Igreja, e Cristo continua edificando seu povo.
Por isso, talvez este não seja um tempo de inventar uma nova igreja, mas de recuperar com fidelidade a antiga vocação da Igreja: conhecer a Deus, formar discípulos e viver como comunidade do Reino.
Você acha que a educação cristã está em crise nas igrejas locais? Se sim, por quê?
Sim, está. Mas prefiro chamar de reconfiguração com riscos graves do que simplesmente de crise, porque a palavra crise pode sugerir paralisia, quando o que precisamos é discernimento e ação.
A raiz do problema é profundamente teológica: perdemos, em muitos contextos, a compreensão de que a fé cristã não é apenas ensinada como conteúdo — ela é habitada, praticada, incorporada na vida comum. Quando a educação cristã se reduz a uma grade curricular de escola dominical sustentada por voluntários exaustos, sem visão formativa, sem teologia pedagógica e desconectada do discipulado cotidiano, ela inevitavelmente murcha. Tentamos exigir fruto de galhos desconectados da videira.
Mas, sabe… seria até injusto jogar essa conta só no colo da igreja. O problema é maior. Estamos vivendo uma reconfiguração educacional ampla. Não é só a igreja que está tentando ensinar gente cansada, distraída e hiperestimulada.
O neurocientista francês Michel Desmurget levanta um alerta importante: estamos formando uma geração exposta a uma avalanche contínua de estímulos, mas com dificuldade crescente para sustentar atenção, memorizar, refletir e aprofundar pensamento. Em outras palavras: aprendemos a deslizar telas com maestria, mas nem sempre conseguimos sustentar contemplação. E calma — isso não é nostalgia barata nem guerra contra tecnologia. O ponto não é demonizar ferramentas digitais, mas reconhecer que, se a cultura nos treina para fragmentação constante, a igreja corre o risco de importar exatamente essa lógica para dentro da formação cristã.
Porque a fé cristã exige práticas que hoje parecem quase contraculturais: silêncio, repetição, memória, escuta, permanência, contemplação. Convenhamos: isso disputa espaço com notificações, hiperconectividade e a expectativa de que tudo precise ser rápido, estimulante e imediatamente recompensador.
Esse é o risco: sem perceber, tentarmos formar discípulos usando a mesma lógica que forma consumidores distraídos.
Há ainda uma fragmentação geracional que nos desafia. As novas gerações não chegam simplesmente com dúvidas; chegam moldadas por uma cultura profundamente subjetivista, onde verdade frequentemente é percebida como construção individual. Isso significa que nosso desafio não é apenas transmitir doutrina correta, mas formar imaginação cristã, afetos cristãos, hábitos cristãos e uma cosmovisão biblicamente enraizada.
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Nosso desafio não é apenas transmitir doutrina correta, mas formar imaginação cristã, afetos cristãos, hábitos cristãos e uma cosmovisão biblicamente enraizada.
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E talvez aqui esteja nossa questão mais séria: não faltam materiais; faltam formadores.
Não faltam plataformas; faltam discipuladores.
Não faltam conteúdos; faltam líderes profundamente transformados.
Nossa preocupação não é institucional; é pastoral e teológica.
Mas esse diagnóstico não é pessimista — é esperançoso.
Porque Deus frequentemente trabalha justamente em tempos de esgotamento de modelos superficiais. Há uma fome real emergindo. Muitos jovens não estão necessariamente rejeitando transcendência; estão rejeitando superficialidade. Não buscam mais performance religiosa; buscam pertencimento, verdade, profundidade e autenticidade.
Isso muda tudo.
Talvez a resposta da igreja não seja se tornar mais parecida com o algoritmo.
Talvez seja justamente oferecer aquilo que o algoritmo nunca poderá entregar: presença, comunidade, sabedoria, discipulado, encarnação.
É exatamente por isso que iniciativas como o Projeto Lidere fazem sentido. Não como reação ansiosa, mas como resposta lúcida e fiel. O objetivo não é produzir jovens apenas eficientes para funções ministeriais, mas líderes robustos — com profundidade teológica, maturidade espiritual, imaginação cristã e presença pastoral suficiente para formar outros.
Porque, no fim, a grande pergunta não é se a próxima geração terá acesso à informação.
Ela certamente terá.
A pergunta é: terá mestres, discipuladores, pais espirituais e comunidades capazes de transformar informação em sabedoria cristã encarnada?
Se você pudesse dar alguns conselhos práticos para os líderes locais a respeito do desenvolvimento da educação cristã em suas igrejas locais, quais seriam?
Se eu pudesse oferecer alguns conselhos práticos aos líderes locais sobre o desenvolvimento da educação cristã em suas igrejas, eu começaria com uma convicção simples, mas decisiva: educação cristã não é um departamento da igreja; é uma expressão do discipulado da própria igreja. Quando terceirizamos isso para uma classe, uma sala ou um pequeno grupo específico, já começamos perdendo o centro.
1. Recoloquem o discipulado no coração da igreja, não na periferia da programação.
A pergunta pastoral não deveria ser “temos aulas funcionando?”, mas “estamos formando discípulos?”. Jesus não nos mandou produzir frequentadores bem-informados, mas discípulos que aprendem a obedecer. Isso muda o eixo inteiro. Ministério infantil, juventude, pregação, pequenos grupos, liturgia, comunhão — tudo precisa convergir para formação cristã.
2. Cuidem dos formadores antes dos programas.
Talvez este seja um dos maiores gargalos hoje. Não faltam materiais, apostilas, vídeos, currículos ou plataformas. Falta gente formada. Gente que ame a Palavra, caminhe com Cristo, saiba ouvir, acompanhar, corrigir com graça e ensinar com profundidade. Um voluntário cansado, sem visão pastoral e sem sustentação teológica, até pode manter uma agenda funcionando — mas dificilmente sustentará formação profunda. Antes de pensar em estrutura, formem gente.
3. Não confundam informação com transformação.
Esse é um dos enganos mais sofisticados da igreja contemporânea. Podemos ensinar muito e formar pouco. Howard Hendricks, educador cristão amplamente respeitado, insistia que ensinar é provocar mudança. A tradição reformada concordaria. Calvino nos lembra que o verdadeiro conhecimento envolve conhecer a Deus e conhecer a nós mesmos. Se a educação cristã apenas transmite conceitos, mas não toca caráter, imaginação, hábitos e afetos, ela se torna catequese intelectual sem encarnação.
4. Recuperem a pedagogia da presença.
Deuteronômio 6 continua sendo profundamente atual: ensinar ao sentar-se, ao caminhar, ao deitar-se, ao levantar-se. Jesus ensinava à mesa, na estrada, no conflito, no sofrimento e na missão. Isso significa que educação cristã não pode ser reduzida à lógica da aula. Formação cristã acontece em convivência, observação, escuta, oração compartilhada, serviço conjunto e vida comum. A igreja precisa reaprender a formar pela proximidade.
5. Resistam à tentação de copiar a cultura da distração.
Aqui vale uma palavra pastoral importante. Estamos tentando ensinar pessoas formadas por hiperestímulo, excesso de telas, fragmentação de atenção e imediatismo. Isso é real. Mas a resposta da igreja não pode ser simplesmente competir em entretenimento. A fé cristã exige silêncio, repetição, memória, contemplação, escuta e permanência. Nem tudo precisa ser rápido, divertido ou visualmente estimulante para funcionar. Às vezes, na tentativa de “engajar”, treinamos superficialidade.
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A fé cristã exige silêncio, repetição, memória, contemplação, escuta e permanência. Nem tudo precisa ser rápido, divertido ou visualmente estimulante para funcionar. Às vezes, na tentativa de “engajar”, treinamos superficialidade.
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6. Não segreguem a comunidade como se discipulado fosse por nichos isolados.
Sim, há necessidades pedagógicas por faixa etária. Mas a igreja não pode perder sua dimensão intergeracional. Crianças precisam ver adultos adorando. Jovens precisam ouvir histórias de perseverança. Novos convertidos precisam de convivência com cristãos maduros. A fé não é aprendida apenas por explicação; ela é capturada por observação e imitação.
7. Tratem a crise vocacional com seriedade pastoral.
Muita gente serve sem saber por que serve. Executa função, mas sem identidade; ocupa espaço, mas sem clareza de chamado. Educação cristã também é ajudar pessoas a discernirem vocação, dons, maturidade e responsabilidade diante de Deus. Não se trata apenas de ensinar Bíblia; trata-se de formar gente inteira.
8. Construam uma cosmovisão cristã, não apenas repertório bíblico.
Como eu já mencionei, Cornelius Van Til nos lembra que neutralidade não existe. Toda cultura discipula. Toda mídia catequiza. Toda narrativa forma imaginação moral. Se a igreja não ajudar seu povo a pensar de forma cristã sobre trabalho, sexualidade, sofrimento, dinheiro, política, consumo, identidade e tecnologia, outras vozes farão isso. Educação cristã precisa formar percepção, não apenas memória.
9. Honrem a simplicidade sem renunciar à profundidade.
Nem toda igreja terá estrutura sofisticada. E isso não é problema. O evangelho floresceu muito antes de PowerPoint, currículo colorido ou plataformas digitais. O essencial continua sendo gente fiel, Escritura aberta, oração sincera e comunidade viva. Profundidade não depende de orçamento; depende de convicção.
10. Liderem com esperança.
Talvez esse seja meu conselho mais pastoral. É fácil olhar os desafios contemporâneos — dispersão, subjetivismo, superficialidade, desgaste ministerial — e desanimar. Mas Deus continua formando sua igreja. Há fome espiritual real. Há jovens buscando verdade. Há famílias sedentas por sentido. Nosso papel não é competir com algoritmos; é oferecer aquilo que a cultura não consegue produzir: presença, verdade, comunhão e discipulado.
No fim, talvez a pergunta mais importante para cada liderança local seja esta: Se alguém permanecesse entre nós por cinco anos, ela sairia mais parecida com Cristo — ou apenas mais ocupada com atividades religiosas?
Essa talvez seja a métrica mais honesta da nossa educação cristã.
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Se alguém permanecesse entre nós por cinco anos, ela sairia mais parecida com Cristo — ou apenas mais ocupada com atividades religiosas?
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Como os irmãos e irmãs da IPI podem fazer contato com a Secretaria da Educação Cristã e como eles podem se envolver as atividades da secretaria?
De forma bem simples: nos chamando! Afinal, Secretaria de Educação Cristã não deveria ser um escritório distante que só responde memorando celestial em horário comercial. A ideia é exatamente o contrário: caminhar com a igreja, ouvir as demandas locais, sonhar junto e construir caminhos de formação.
Se sua igreja está pensando educação cristã, discipulado, formação de líderes, ministério infantil, juventude, capacitação, currículo, escola dominical, ou até se está naquele momento clássico de “sabemos que precisamos fazer alguma coisa, mas ainda não sabemos exatamente o quê”… fale conosco.
Nosso canal institucional é: educrista@ipib.org
E, para quem prefere os caminhos menos formais e mais contemporâneos (sim, a graça também alcançou as redes sociais), você pode me encontrar em @causacao.
Mas aqui vai um pedido pastoral e bem direto: não nos procurem apenas quando houver incêndio ministerial. Chamem a Secretaria para pensar antes, construir junto, capacitar líderes, visitar a comunidade, fomentar cultura de discipulado e fortalecer a educação cristã local.
Queremos muito ir até vocês.
Queremos ouvir suas realidades.
Queremos conhecer suas dores e sonhos.
Queremos ajudar a formar gente — porque, no fim, esse é o centro da missão.
Então, se sua igreja quer incentivar educação cristã com profundidade, se deseja fortalecer discipulado, repensar práticas ou simplesmente começar uma conversa, nos convide.
Prometemos chegar com Bíblia aberta, disposição pastoral, escuta atenta… e, dependendo da agenda, até com café na mão.
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Por favor, traga um pouco da sua experiência ministerial até aqui. Sua formação, seu chamado, sua família etc.
Sou filho da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil — daqueles que praticamente aprenderam a respirar ar de igreja desde cedo. Foi na IPIB, ainda na infância, que aprendi a amar a Palavra, a comunidade da fé e discerni o chamado de Deus para servir nessa tradição que tanto me formou.
Sou pastor da IPI há mais de dez anos, tentando servir a Cristo, à igreja e às pessoas com fidelidade, esperança e a convicção de que bom humor também é um dom da graça. Também atuo como professor na FATIPI, ajudando na formação de líderes e educadores cristãos — e aprendendo muito nesse processo, porque ensinar é uma das formas mais honestas de continuar estudando.
Minha caminhada acadêmica sempre foi menos sobre colecionar diplomas e mais sobre servir melhor. Sou doutor em Comunicação, com pós-doutorado pela PUC-SP na área de comportamento e mídia, doutor em Ministério pelo RTS, Jackson, e sigo transitando entre teologia, psicologia, comunicação e cuidado humano, tentando juntar cabeça, coração e prática pastoral sem causar acidentes teológicos no caminho.
Sou casado com Gisele, educadora extraordinária e minha parceira de missão; pai da Tsara e da Maitê, minhas professoras mais exigentes sobre humildade, criatividade e paciência; e convivemos com o nosso ‘Tio’, o pet da família, que nos lembra diariamente que afeto e bagunça às vezes andam juntos.
Escrevo, componho, ensino e sigo servindo, mas se eu resumisse quem sou, diria algo simples: alguém profundamente grato pelo privilégio de servir à Igreja de Cristo. Porque, no fim, mais importante do que currículo é continuar disponível ao Reino.
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Nota do editor:
Essa é a quinta entrevista da série que “O Estandarte” está fazendo com os secretários nacionais da IPI do Brasil. Acompanhe aqui.
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