“O Poder do Agora” é um livro que descreve como o “estar presente no momento presente” pode nos salvar de um mundo de distrações. Nele, Eckhart Tolle nos convida a habitar, com atenção e serenidade, o instante que está diante de nós. A ideia é simples: a vida real acontece no presente, e a paz começa quando a mente e o corpo estão unidos no agora.
Segundo o autor, uma das causas do sofrimento humano é a identificação excessiva com os próprios pensamentos. Para ele, o agora não é um detalhe da vida, mas o lugar onde existimos. Quando aprendemos a observar os pensamentos sem sermos engolidos por eles, abrimos espaço interior para a alma respirar.
Publicado em 1997, o livro se tornou best-seller por anos entre as obras de não-ficção porque tocou num tema urgente do século XXI: a falta da presença. Seu feito foi traduzir em palavras a dor universal de viver dividido entre a distração e a atenção ao que realmente importa.
O ‘superpoder’
Quase trinta anos depois, a escritora argentina, Samanta Schweblin, radicada em Berlim e reconhecida por obras como, “Pájaros en la boca”, afirmou em entrevista ao jornal El País:
“Prestar atenção é o maior superpoder que a humanidade possui… nem todo mundo consegue mais fazer isso. Nunca entro no metrô sem perceber que 99% das pessoas estão olhando para seus celulares. Desligamos nossa percepção do que nos rodeia.”
A escritora atribui a perda da presença ao excesso de tecnologia, à anestesia social e à incapacidade de perceber o sofrimento do mundo. Enquanto as pessoas se perdem no celular, elas apagam o registro do entorno. E isso afeta a vida de todos. Para Samanta, a falta de presença não é apenas uma distração inocente, mas uma perda de contato com a realidade.
A dispersão também é um problema espiritual
Se a filosofia e a literatura têm algo a dizer sobre a presença e a distração, também a fé cristã tem muito a dizer.
Na tradição do Novo Testamento, a perda de atenção ou a dispersão da alma aparece na vida dos discípulos. Em diversos momentos, os seguidores de Jesus se mostravam desligados do que acontecia ao seu redor, não estando realmente presentes no momento presente. Vemos isso na travessia do mar da Galileia, quando Jesus andava sobre as águas e os discípulos, tomados pelo medo, pensavam ver um fantasma; na discussão sobre quem seria o maior, enquanto Jesus falava do caminho da cruz e do serviço; e, de modo muito claro, no Getsêmani, quando Jesus convidou os discípulos à vigilância, mas eles adormeceram – sendo o sono um símbolo da incapacidade de permanecermos atentos nas horas decisivas.
Até os dias de hoje, em pleno tempo do Espírito Santo, lutamos contra os pensamentos dispersos e temos dificuldade de discernir a presença de Deus no cotidiano. A verdade é que precisamos aprender a não ser arrastados pela ansiedade mental, mas a permanecer presentes no Senhor: corpo e alma. E isso exige disciplina.
O agora é a margem onde a vida acontece: no café que esfria, na respiração, no rosto de quem amamos, na oração silenciosa, no trabalho feito com atenção. É quando a pessoa aprende a estar presente que realmente passa a habitar o mundo.
O ‘agora’ é a margem onde a vida acontece: no café que esfria, na respiração, no rosto de quem amamos, na oração silenciosa, no trabalho feito com atenção.
Assim, a dispersão não é apenas um problema psicológico ou cultural, mas espiritual. O coração humano, quando não guiado pelo Senhor, se fragmenta em desejos, imagens mentais, ansiedades e pensamentos que impedem a pessoa de permanecer realmente presente. Uma expressão dos Pais e Mães do Deserto que pode nos ajudar nesta luta é hesychia, termo em latim que remete à quietude e à paz na presença de Deus. Na tradição monástica, essa era a presença fecunda que vence a dispersão e faz da mente e do coração solos férteis para Deus.
O que precisamos aprender sobre a atenção
Como homens e mulheres da cidade do século XXI, precisamos aprender a viver a hesychia in urbes: a quietude na cidade. Quanto menos excesso exterior, mais espaço interior se abre para Deus.
Ao dizer que prestar atenção é o maior superpoder humano, Samanta Schweblin revela uma verdade que a espiritualidade cristã já reconhece há séculos: sem atenção, o coração se dispersa; com atenção, ele reaprende a habitar o presente.
Num mundo onde todos sentados no metrô estão com os olhos nos celulares e cegos para o derredor, somos convidados a simplesmente estar.
Estar sem pressa. Estar com o corpo inteiro no instante.
Estar com a alma desperta para o que é pequeno e sagrado: a respiração, o rosto ao lado, a luz que entra pela janela, e o silêncio que mora entre um passo e outro.
Estar é mais do que ocupar um lugar: é habitar o instante com reverência.
É não fugir de si, nem se ausentar da vida.
É permitir que o coração chegue onde os pés já chegaram.
A maturidade espiritual passa por aí: quando deixamos de viver dispersos em mil
direções e aprendemos a permanecer.
Permanecer diante de Deus.
Permanecer no mundo como quem sabe porque ali está.
Estar é uma forma de oração.
Uma atenção amorosa ao chamado divino.
Uma fidelidade ao Senhor e ao instante que nos foi dado como “presente”.
Talvez seja esse o milagre mais simples e mais raro: estar.
Seguindo os passos dAquele que estava totalmente presente no momento presente, façamo-nos presentes ao mundo.








Respostas de 3
Reflexão profunda e necessária sobre como temos sido presentes. É difícil aprender essa equação neste mundo cheio de truques para roubar nossa atenção.
Será que sabemos ensinar aos nossos pequenos o que é estar atento aos acontecimentos do presente?
Muito interessante e profundo!! Parabéns ao nosso amado pastor!!
Texto maravilhoso que nós faz refletir de como estamos vivendo
Parabéns Pr Paulo