A Igreja acolhe, mas sabe proteger?

65% das igrejas pesquisadas admitiram que não saberiam como agir diante de uma suspeita de abuso infantil

 

Imagine que hoje, num domingo comum, uma criança se aproxima de um voluntário da sua igreja e começa a contar algo que não deveria ter acontecido com ela. O voluntário a escuta. Sente o peso do momento. E agora? A quem avisa? Existe um próximo passo? Há alguém treinado para isso?

Para a maioria das igrejas brasileiras, a resposta honesta é: não sabemos.

 

65% das igrejas não sabem agir diante de uma suspeita de abuso infantil

Conduzi recentemente a Pesquisa Igreja Segura pela iniciativa Eu Protejo, ouvindo líderes e voluntários de igrejas cristãs de diferentes denominações em 10 estados do Brasil. O que os dados revelaram não é sobre má vontade. É sobre algo mais difícil de resolver: igrejas que amam genuinamente as crianças que recebem, mas ainda não construíram a estrutura que esse amor exige para ser proteção de verdade.

65% das igrejas pesquisadas admitiram que não saberiam como agir diante de uma suspeita de abuso infantil. Apenas 2% confiam que seus voluntários reconheceriam sinais de violência com segurança. Em 61% das comunidades há situações em que uma criança pode ficar sozinha com um adulto. Em 82%, o controle de saída de menores é inexistente ou falho. E em mais da metade das igrejas, a proteção das crianças se sustenta principalmente na boa intenção das pessoas envolvidas, não em protocolos, não em treinamento, não em processos documentados.

 

**

FAÇA DOWNLOAD DA PESQUISA “IGREJA SEGURA”.

 **

 

Confiança cega esconde o que não queremos ver

A confiança que cultivamos entre nós tem enorme valor. Mas pode nos tornar cegos para o que não queremos ver. Num ambiente onde todos se conhecem e suspeitar parece falta de fé, os protocolos são necessários? Afinal, para quê regras se todos aqui são de confiança? Essa pergunta, por mais natural que pareça, é exatamente o terreno onde as crianças ficam desprotegidas.

A criança que sofre violência não chega até nós com um cartaz. Ela chega quieta, testando o ambiente, observando cada adulto ao redor para saber se algum deles é seguro o suficiente. Quando finalmente fala, aquele momento é uma janela. Se quem ouviu não sabe o que fazer, a janela fecha. E pode levar anos para abrir de novo. Esse adulto que sabe ouvir sem revitimizar, que conhece os passos seguintes, que não promete segredo, que sabe a quem comunicar, ele não nasce pronto. Ele é formado. E essa formação é responsabilidade da instituição, não da boa vontade individual.

 

Dever de todos

O apóstolo Paulo nunca confundiu espiritualidade com ausência de organização. Ao estruturar as primeiras comunidades, ele definiu critérios, nomeou funções, estabeleceu responsabilidades. Tudo seja feito com decência e ordem (1Co 14.40) não é uma recomendação administrativa. É uma exigência pastoral.

Em Mateus 18, Jesus coloca uma criança no meio dos discípulos. Não como ilustração. Como convocação. E a advertência não é dirigida apenas ao agressor. Ela interpela todos os que têm responsabilidade sobre esses pequenos.

O ECA estabelece que prevenir violações aos direitos da criança é dever de todos, não apenas dos pais, não apenas do Estado, mas de todos. Isso inclui agir quando uma criança relata algo que não deveria ter acontecido com ela. Quem recebe esse relato e fica paralisado, sem saber o que fazer, sem comunicar, sem encaminhar, está diante de uma obrigação legal que não foi cumprida. E quando uma criança finalmente fala e quem ouviu não sabe o que fazer, a pergunta não é quem queria o mal. A pergunta é quem tinha a responsabilidade e o que fez com ela.

Proteger crianças não exige recursos que a maioria das igrejas não tem. Exige decisões que a maioria ainda não tomou. Um treinamento feito. Um protocolo escrito. Dois adultos onde antes havia um. Um caminho claro para quem precisar falar. A igreja acolhe. Sempre acolheu. A pergunta é se esse acolhimento tem estrutura para sustentar uma criança quando ela necessita ser protegida? Deixai vir a mim os pequeninos, disse Jesus. Que eles não encontrem, no caminho até Ele, o obstáculo silencioso da nossa boa vontade sem estrutura.

 

Proteger crianças não exige recursos que a maioria das igrejas não tem. Exige decisões que a maioria ainda não tomou!

 

 

Referências:

BÍBLIA. Mateus 18. In: BÍBLIA Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008.

BÍBLIA. 1 Coríntios 14.40. In: BÍBLIA Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 16 jul. 1990. Art. 70.

VARGAS, Caroline. Pesquisa Igreja Segura. Maringá: Eu Protejo, 2026.

 

Imagem do topo: magnific.com
Foto de Caroline Vargas

Caroline Vargas

É psicóloga com atuação voltada à proteção infantil, prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes e formação de ambientes seguros para a infância.

Compartilhe este conteúdo. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Conteúdo Geral

Notícias Relacionadas

Categorias

Seções

Artigos por Edições

Artigos mais populares

Não Existem mais Posts para Exibir
plugins premium WordPress
Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência possível para o usuário. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajuda a nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.