Onde estão as crianças na Bíblia?

Os cristãos se equivocam ao achar que a Bíblia fala pouco sobre as crianças. Vejamos a seguir um panorama abrangente sobre o valor das crianças para o reino de Deus a partir das Escrituras.

 

“E um pequenino os guiará.” (Isaías 11.6)

 

Os cristãos se equivocam ao achar que a Bíblia fala pouco sobre as crianças. Vejamos a seguir um panorama abrangente sobre o valor das crianças para o reino de Deus a partir das Escrituras.

 

Crianças do Antigo Testamento

  • Ismael (Gn 16) significa “Deus escuta”. Sua mãe, Hagar, quando grávida, tinha tudo, mas perdeu as esperanças. Entretanto, Deus foi infinitamente gracioso com essa mãe solteira e seu futuro filho.
  • Isaque (Gn 22) prefigurou o sacrifício de Jesus na história da provação de Abraão.
  • José (Gn 37), o sonhador de 17 anos, foi aquele por intermédio de quem seus pais e os filhos de Israel foram salvos.
  • Benjamim (Gn 44, 45) foi o garoto por meio de quem veio a reconciliação entre José e seus irmãos.
  • Moisés (Êx 1) foi salvo pelo olhar atento da sua irmã, Miriã.
  • A história do êxodo começa com a matança dos pequenos meninos judeus como uma prefiguração do nascimento de Cristo. A última das dez pragas do êxodo envolveu a morte dos primogênitos.
  • O ponto mais importante do livro de Rute é o nascimento de um bebê, Obede, um dos ascendentes de Jesus.
  • Samuel (1Sm 3) foi a criança por meio de quem Deus mostrou sua vontade quando os adultos falharam. Ele é um modelo de vida espiritual e obediência.
  • Davi (1Sm 17) foi a pessoa por meio de quem foi revelado que Deus não dependia da força ou do treinamento dos adultos. Por intermédio de um garoto, os filisteus foram derrotados.
  • Tanto Elias quanto Eliseu trouxeram de volta à vida um “filho de viúva” (1Rs 17.21; 2Rs 4).
  • Deus usou uma criança serva para curar Naamã, o comandante do exército (2Rs 5).
  • Josias, que reformou a política e a religião, era um jovem rei (2Rs 22). Ainda era um garoto quando começou suas reformas radicais (2Cr 34).
  • Ester, a futura rainha que salvaria o povo judeu, era uma garota órfã (Et 2.7).
  • Jeremias foi escolhido por Deus, embora fosse “apenas uma criança” (Jr 1).

 

O Novo Testamento e as crianças

Jesus encontra várias crianças durante a vida. Por exemplo: a filha da mulher cananeia (Mt 15; Mc 7), o jovem endemoninhado (Mt 17; Mc. 9; Lc 9), o filho do oficial em Cafarnaum (Jo 7), a filha de Jairo (Mt 9; Mc 5; Lc 8), o filho da viúva em Naim (Lc 7), e o garotinho que ofereceu a ele cinco pães e dois peixes (Jo 6).

Existem quatro aspectos das narrativas dos Evangelhos que chamam nossa atenção.

  1. O primeiro é o nascimento de Jesus, a encarnação. Os Evangelhos de Mateus e Lucas dedicam os capítulos iniciais a isso.
  2. O segundo aspecto que encontramos nos Evangelhos diz respeito a crianças e infância. Mateus 17 e 21 cobrem o período entre a transfiguração e a entrada de Jesus no templo em Jerusalém. (Também narrado em Marcos 9-11 e Lucas 9-19.) Esses capítulos contêm alguns dos ensinamentos mais claros de Jesus sobre a natureza do reino. Em Mateus 18 encontramos a famosa lição “se não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”.
  3. O terceiro aspecto a considerar nos Evangelhos é o reino dos céus. O que Jesus ensina sobre esse reino?
    – A grandeza nesse reino não tem nada a ver com status, poder, força, influência, riqueza ou qualquer outra coisa normalmente associada à grandeza humana.
    – É preciso mudar (arrepender-se) para entrar no reino.
    – É preciso tornar-se como uma criança para entrar no reino dos céus.
    – Ao acolher as criancinhas, estamos acolhendo o Senhor do reino!
    – O reino pertence àqueles que se tornam como crianças.
  4. O quarto e último aspecto é uma descrição simples e poderosa de que, para entrar no reino, é preciso tornar-se como uma criança. Este é o ensinamento de Jesus a Nicodemos (Jo 3): “Você precisa nascer de novo”. E Jesus está ensinando exatamente esta mesma verdade: é preciso arrepender-se, deixar de lado todos esses preconceitos adultos, culturalmente estabelecidos, e tornar-se um bebezinho.

 

E o restante do Novo Testamento? Romanos e Gálatas mostram a natureza do nosso relacionamento com Deus em Cristo. Fomos adotados na família de Deus e podemos conhecer a Deus como Abba, como pai. As epístolas descrevem um novo modo de vida, em Cristo, de forma que não há nem macho nem fêmea, judeu ou grego, servo ou livre!

Como vimos, a Bíblia tem muito a dizer sobre as crianças. Quais são as implicações de tudo isso?

 

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Nota:

Este artigo, publicado em O Estandarte (outubro/2024), é uma versão condensada com capítulo 1 do livro “Uma Criança Os Guiará – por uma Teologia da Criança” (Editora Ultimato).

 

Foto: magnific.com

 

Keith J. White

Casado, quatro filhos, é diretor da Mill Grove, organização inglesa que abriga crianças e adolescentes desde 1899. É fundador do Movimento Teologia da Criança e autor de, entre outros, “A Place for Us” e “Children and Social Exclusion”.

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