Venezuela: entre a dor e a esperança

REPORTAGEM - Em visita ao país, vimos os efeitos dos terremotos, mas também uma igreja viva que luta para reconstruir suas vidas - e que a IPIB pode ajudá-la.
Foto: uma boneca de pano que encontrei num dos muitos escombros em La Guaira.

 

“E como foi lá?” é a pergunta que mais me fazem depois que voltei da Venezuela. Parece uma indagação simples, mas não é. Ela suscita não somente informações objetivas, mas condições emocionais, espirituais e sociais. E eu vi um pouco de cada coisa nos dois dias e duas noites (22 a 24/09) que passei naquele país.

 

Um caminho com pouca luz

Ir à Venezuela foi como passar por um caminho com pouca luz. Sabe aquele lugar mal iluminado onde prevalece uma penumbra angustiante? Tateamos mais do que seguimos. Há uma sensação de incompletude, típica de momentos provisórios.

Escombros em La Guaira. Foto: Erick Perez.

Os fortes terremotos de 24 de junho afetaram gravemente o país – principalmente, a turística La Guaira banhada pelo Mar do Caribe que visitamos no dia 24 -, deixando um rastro de destruição e luto para milhares de famílias. O governo afirmou ter recolhido quase 500 mil toneladas de escombros, o que representa 23% do total e reconhece que as mortes podem chegar a 10 mil. Outros órgãos estimam que mais de 60 mil pessoas estão desaparecidas.

Os dois tremores, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram o país e provocaram o terremoto mais mortal da Venezuela desde 1812, além do pior desastre natural da história recente do país.

Ao percorrer La Guaira foi difícil encontrar algum edifício sem rachaduras. A bonita orla da cidade deixou de ser o ponto principal para quem chega. Nossos olhos estavam voltados para o trabalho sem fim das equipes retirando concreto, ferro contorcido, lixo e – se ainda possível – corpos.

Na capital, muitos prédios de moradia popular estão desabitados por conta do risco de queda. Ao lado deles, barracas azuis espalhadas pela ONG cristã Samaritan’s Purse; e dentro delas, famílias pobres que antes moravam nos respectivos prédios. É o caso do Carlos, que segurava a filhinha no colo enquanto nos concedia entrevista. Ao perguntarmos o que esperava do futuro, ele disse pouco: só quer um lugar para morar de novo. Pouca luz no caminho de desilusão.

Vi essa esperança fugidia nos olhos de pessoas nas ruas de Caracas. Olhares desconfiados de quem já perdeu muito, e tem poucas expectativas de ganhar algo.

Tento me colocar no lugar delas, e percebo que muito de mim estaria lá, se também tivesse que enfrentar o que elas enfrentaram.

 

Rastros de destruição em La Guaira

 

Vi essa esperança fugidia nos olhos de pessoas nas ruas de Caracas. Olhares desconfiados de quem já perdeu muito, e tem poucas expectativas de ganhar algo.

 

Uma década de ruínas

Uma barraca da “Samaritan’s Purse” e, ao fundo, um dos prédios condenados em Caracas.

Essa “penumbra” não tem apenas a tragédia natural como protagonista. O Rev. Erick Perez, meu companheiro na viagem, venezuelano que mora no Brasil há 12 anos, ressaltou que a deterioração do seu país já dura, pelo menos, uma década. E ela é resultado de uma série de desmandos políticos, econômicos e sociais que fragilizaram a sociedade e enfraqueceram as esperanças. Que, inclusive, deixaram o país despreparado para tragédias ambientais.

A olho nu, vemos que simples estabelecimentos comerciais – alguns com chineses como donos – também padecem de modernidade e inovação. Para um país com uma economia pujante até poucas décadas, é triste ver como que se tivessem paralisados no tempo.

Segundo uma reportagem da Forbes, “a economia da Venezuela encolheu cerca de 75% e o PIB per capita despencou prostrado por uma retração de até 90% ao longo da última década, transformando o antigo petroestado próspero em um cenário de aguda vulnerabilidade social”. A mesma reportagem ressalta que, “atualmente, mais de 20 milhões de venezuelanos, de uma população de 28,8 milhões, vivem em situação de pobreza multidimensional”.

Sem entrar na oratória política enviesada, o que eu quero ressaltar é um ambiente evidente de fragmentação social que redunda em raras perspectivas concretas.

 

O sol que entra pela janela

No último dia (24/09) de nossa estadia na Venezuela, choveu torrencialmente. Pela janela do Colégio Presbiteriano no alto de Caracas, víamos a força das águas. Aí a chuva cessou e pudemos sair da escola em direção à Igreja Emanuel, local de nossa hospedagem. Me lembrei agora desse momento porque parece ser uma metáfora ideal para uma segunda percepção que tive no país. Se de um lado há um caminho com pouca luz, por outro lado, a claridade que vem depois da chuva metafórica, invariavelmente, chega com quem tem fé em Cristo.

A sala de aulas para crianças na Igreja Emanuel foi transformada em depósito de doações.

Sim, em meio à dor e sofrimento, ainda há muita gente disposta a acreditar. É o caso do jovem pastor Antony e sua esposa Pra. Antonieta, que lideram um movimento diário de solidariedade na Igreja Emanuel, com distribuição de marmitas e fazendo “ponte” para doações de ONGs como o Exército de Salvação. Outra pessoa que conhecemos foi o nosso guia principal, o presbítero Ricardo, um missionário articulado e dedicado, que trabalhou em cidades nas fronteiras dos EUA e que há décadas ajuda refugiados e migrantes. Também tem a história do Pr. Carlos Navarro, que mora em La Guaira – a cidade mais atingida pelos terremotos. Ele, que sofreu com 32 mortes em sua comunidade cristã e viu os prédios de sua igreja e de sua casa desmoronarem, continuou reunindo os irmãos e irmãs em Cristo debaixo de uma árvore. Quando o visitamos no fim de tarde, Carlos estava limpando o terreno onde irão instalar uma tenda para as reuniões da igreja. “Deus está levantando homens e mulheres para edificarem Cristo em outras pessoas”, declarou o pastor, num trocadilho entre os efeitos da tragédia e a esperança de reconstrução material e espiritual.

 

Orando pelo Pr. Carlos

“Deus está levantando homens e mulheres para edificarem Cristo em outras pessoas”.
(Pr. Carlos Navarro)

 

Nos dias na Venezuela nos encontramos também com pastores e líderes de conselhos e sínodos eclesiásticos. E em cada encontro, corações abertos para receber ajuda. Não que eles não tenham o que oferecer – ao contrário, há muita sabedoria reunida -, mas que neste momento a fragilidade se torna um convite à compaixão, à comunhão e ao abraço.

Primeiro, conhecemos a Reva. Berla Andrade, presidente do Sínodo Reformado, e depois a Pra. Sorayda Milano, presidente do Conselho Evangélico da Venezuela. Ambas, com profundo compromisso com o Evangelho e o bem-estar dos mais vulneráveis. Depois visitamos o octagenário Pr. Samuel Oslon, o mais respeitado líder evangélico do país. Para cada um deles entregamos uma placa de compromisso de amizade entre as duas igrejas – Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e Igreja da Venezuela. Assim esperamos que cada semente dê frutos.

 

Reva. Berla, Pra. Sorayda e Pr. Samuel recebem placas da IPI do Brasil.

Um momento especial foi participar de um culto com dezenas de educadores cristãs do Colégio Presbiteriano. Mesmo inesperado, aquele encontro foi marcado pela emoção ao ouvirmos histórias de mães e esposas que ainda choram pelos filhos e esposos que saíram do país à procura de uma vida melhor para a família. As lágrimas regaram e as canções embalaram nossas orações sinceras ao Senhor de toda a terra.

 

Educadoras cristãs compartilham histórias comoventes

No dia a dia, conhecemos a Sair, cozinheira da Igreja Emanuel, que nos preparou a melhor arepa da cidade, e a pastora Damares que nos recebeu ao redor da mesa com um sorriso sempre contagiante.

Todas essas pessoas – com representação institucional ou não – nos ensinaram que nenhum sofrimento – nem morte, nem vida, nem potestades – é capaz de nos separar do amor de Deus que se expressa no amor ao próximo. E isso ilumina os olhos e traz esperança – se não uma esperança imediata, mas um senso de “luz no fim do túnel”.

 

O desafio da reconstrução

Enviados pela Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB), eu e o Rev. Erick fomos com a missão de conhecer a realidade – avanços e necessidades –, entregar os recursos arrecadados na campanha de solidariedade dos 123 anos da denominação (“Juntos Pela Venezuela”) e fortalecer os vínculos com as lideranças evangélicas. A verdade é que voltamos de lá com bem mais do que levamos. Trouxemos memórias, amizade, fortalecimento e comunhão espiritual e um desejo grande de firmarmos parceiras com a Igreja da Venezuela.

Ainda não sabemos quais serão os próximos passos, mas entendemos que “uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu” (1 Co 16.9). E assim como as igrejas da Galácia e de Corinto se mobilizaram para ajudar financeiramente a igreja de Jerusalém (1 Co 16.1-4), oramos para que a igreja brasileira seja instrumento da bondade de Deus aos irmãos da Venezuela.

Isso não somente é o ideal, mas é necessário, pois os desafios da reconstrução do país são gigantescos. Com os terremotos, os danos são ainda maiores. A verdade é que três meses depois, o drama da Venezuela sai da mídia e as ajudas humanitárias diminuem. O ano escolar vai começar, e muitas crianças – sem material escolar e traumatizadas – não querem voltar à escola. No final da contas, a vida continua e ficam, portanto, os venezuelanos convivendo com pobreza, fome, falta de moradia, escassez de água e comida e (muitos) escombros. E este é o tempo oportuno para o Evangelho brilhar.

 

O trabalho de retirada dos escombros.

 

Retirada dos escombros

 

Lissânder, Presb. Ricardo, Pr. Antony e Rev. Erick: equipe que trabalhou junta em nossa visita à Venezuela.

 

Fotos: Acervo da IPI do Brasil. Proibida a reprodução sem autorização.

 

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FAÇA DOWNLOAD

Os desastres naturais e a igreja local (Tearfund)

Diretrizes para os líderes de igrejas em áreas propensas a desastres

Foto de Lissânder Dias

Lissânder Dias

Jornalista, editor de livros, membro da 2a IPI de Maringá, PR, e editor do portal O Estandarte

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