Cidadãos do Reino. Responsáveis na Terra

Porque pertencemos ao Reino eterno, podemos servir melhor no reino temporal. Porque pertencemos a Cristo, podemos votar sem idolatria.

 

“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça.” Mateus 6.33

 

Vivemos um momento importante da vida de nossa nação. No último 4 de outubro, fomos às urnas para o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026, e no próximo dia 25, voltaremos para o segundo turno. Se no dia 04, tivemos seis escolhas (deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente da República), desta vez será apenas uma: presidente.

Para alguns, falar de política dentro da igreja parece inadequado. Para outros, política tornou-se quase uma extensão da própria identidade cristã. Precisamos ter cuidado com os dois extremos.

A igreja de Cristo não existe para ser cabo eleitoral de ninguém. Nossa esperança não está em Brasília, no Palácio do Planalto, no Congresso Nacional, nos governos estaduais ou em qualquer homem ou mulher que ocupe um cargo público. Nossa esperança está no Rei Jesus Cristo.

Ao mesmo tempo, não podemos usar nossa cidadania celestial como desculpa para negligenciar nossa responsabilidade terrena.

Paulo escreveu aos cristãos que viviam no centro do poder do Império Romano: “Não há autoridade que não proceda de Deus” (Romanos 13.1). E também nos ordenou a orar “em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade” (1ª Timóteo 2.2).

Portanto, o cristão não deve ser indiferente à vida pública. Mas também não deve ser dominado por ela.

Somos cidadãos do Reino e, por isso mesmo, devemos procurar exercer nossa cidadania na terra com temor de Deus, amor ao próximo, verdade e discernimento.

O Reformador João Calvino, ao tratar do governo civil, lembrava que os magistrados devem ser considerados “ministros e representantes de Deus”, chamados a promover justiça, segurança e paz na sociedade. Isso significa que o poder público não é absoluto: governantes também estão debaixo da autoridade de Deus e serão responsáveis diante dele pelo modo como exercem o poder.

E aqui está uma palavra que precisamos ouvir como igreja: não devemos idolatrar governantes, mas também não devemos desprezar a responsabilidade de escolher e cobrá-los posteriormente.

Jesus não está concorrendo a nenhum cargo nesta eleição. E isso precisa ser dito com toda clareza: não encontraremos nas urnas um candidato perfeito. Não há homem ou mulher sem pecado, sem limitações, sem contradições ou sem pontos com os quais discordaremos. Todos são seres humanos caídos e necessitados da graça de Deus. Por isso, nosso dever não é procurar um “salvador da pátria”. Salvador há um só: Jesus Cristo.

Nossa responsabilidade é examinar candidatos, propostas, histórias, compromissos, alianças, posicionamentos e frutos públicos com seriedade, sem transformar ninguém em herói ou inimigo absoluto.

A pergunta do cristão não deve ser apenas: “Quem eu gosto?”, nem: “Quem fala como eu?”, muito menos: “Quem pertence ao meu grupo?”

Precisamos perguntar: “Como posso exercer meu voto diante de Deus, com boa consciência, verdade e responsabilidade?”

 

O desafio da pesquisa e da oração

Não entregue sua consciência às redes sociais. Não vote simplesmente porque alguém lhe enviou um vídeo. Não escolha alguém apenas porque é conhecido, porque fala bonito, porque pertence ao seu grupo ideológico, porque recebeu o apoio de uma pessoa admirada ou porque prometeu aquilo que você gostaria de ouvir. Pesquise. Examine. Compare. Ore.

A Escritura diz: “O simples dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta para os seus passos” (Provérbios 14.15).

Há uma responsabilidade pessoal diante de Deus que não pode ser terceirizada.

Ouça pessoas maduras. Leia fontes diferentes. Conheça o histórico público dos candidatos. Examine suas propostas e, quando possível, verifique aquilo que é apresentado como fato. Não compartilhe uma informação simplesmente porque ela confirma aquilo que você já deseja acreditar.

Tiago nos lembra: “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus” (Tiago 1.5).

Tenha certeza de que o seu candidato irá, também, defender os valores que você defende.

Que antes de discutirmos política, aprendamos a orar.

Que antes de compartilharmos uma acusação, aprendamos a verificar.

Que antes de condenarmos o irmão que pensa diferente, aprendamos a ouvi-lo.

E que nossa consciência seja cativa da Palavra de Deus, e não de uma bolha política.

 

O desafio de defender o que cremos sem odiar quem pensa diferente

O cristão não precisa abandonar suas convicções para tratar com dignidade quem discorda dele.

Ao contrário: precisamos aprender a sustentar convicções firmes com coração manso.

A Bíblia não nos chama a uma fé sem convicções. Ela nos chama a falar a verdade em amor (Efésios 4.15). A família, a dignidade da vida humana, a responsabilidade dos pais, a fidelidade conjugal, a educação dos filhos, a justiça, a proteção dos vulneráveis e a responsabilidade social são assuntos que merecem reflexão séria à luz das Escrituras.

Gênesis 1.27 afirma que homem e mulher foram criados à imagem de Deus. Gênesis 2 apresenta o casamento como parte da boa criação divina. Efésios 5 chama marido e mulher a uma vida marcada por amor sacrificial, respeito e responsabilidade. Os filhos são apresentados no Salmo 127 como herança do Senhor.

Mas cuidado, igreja: defender a família não nos autoriza a desonrar pessoas. Defender nossas convicções não nos autoriza a mentir. Defender a verdade não nos autoriza a humilhar. Discordar não nos autoriza a odiar. E nenhum candidato deve receber nossa devoção religiosa simplesmente porque utiliza linguagem cristã.

Jesus nos ensinou algo muito mais profundo: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mateus 7.16).

Portanto, observemos não apenas os discursos, mas também a coerência entre palavras, práticas, caráter público e compromissos assumidos.

 

O desafio de combater a corrupção, começando em nós

É fácil falar contra a corrupção. Difícil é permitir que o Evangelho confronte a pequena corrupção que pode morar dentro de nós.

Reclamamos do político que recebe vantagem indevida, mas será que somos honestos quando ninguém está olhando? Condenamos o “jeitinho” em Brasília, mas praticamos pequenos “jeitinhos” no trabalho? Exigimos honestidade dos governantes, mas somos rigorosos com a honestidade dos nossos próprios negócios?

O problema da corrupção não começa apenas nos palácios. Começa no coração humano. Jesus disse: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios…” (Marcos 7.21).

Por isso, não basta desejar governantes honestos. Precisamos ser um povo que ama a verdade.

Não basta exigir justiça dos outros. Precisamos praticá-la.

Não basta condenar a corrupção pública. Precisamos abandonar a desonestidade privada.

Miquéias 6.8 resume esse chamado de maneira extraordinariamente simples: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.” Essa é uma boa palavra para uma semana eleitoral.

 

O desafio de não transformar política em idolatria

Talvez este seja o desafio mais urgente.

Podemos falar de política sem transformar política em religião? Podemos discordar sem romper a comunhão? Podemos defender convicções sem tratar o adversário como inimigo pessoal? Podemos reconhecer virtudes em alguém de quem discordamos e erros em alguém de quem gostamos? Podemos lembrar que nenhum partido é a Igreja, nenhum político é o Messias e nenhum governo é o Reino de Deus? A resposta cristã precisa ser “sim”.

Nossa identidade mais profunda não está em nossa preferência eleitoral. Paulo escreveu: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3.20).

Isso não nos torna cidadãos irresponsáveis na terra. Pelo contrário!

Porque pertencemos ao Reino eterno, podemos servir melhor no reino temporal.

Porque pertencemos a Cristo, podemos votar sem idolatria.

Porque nossa esperança está em Deus, podemos respeitar quem pensa diferente.

Porque sabemos que o trono de Deus permanece firme, não precisamos transformar uma eleição em uma batalha pela sobrevivência da nossa fé.

 

Uma última exortação

Irmãos, na próxima eleição, não coloquemos sobre homens e mulheres o peso que somente Cristo pode carregar.

Não esperemos de um presidente – ou qualquer outro governante – aquilo que só Deus pode realizar, que somente o Evangelho pode produzir no coração humano e que apenas a santificação pode produzir na vida da igreja.

Mas também não usemos a soberania de Deus como desculpa para a nossa irresponsabilidade. Deus é soberano; nós somos responsáveis. Ele governa a história; nós somos chamados a agir com sabedoria dentro dela. Ele estabelece autoridades; nós somos chamados a honrá-las, orar por elas e, quando necessário, cobrar delas justiça e responsabilidade.

Portanto, ore. Pesquise. Examine. Discuta com respeito. Não espalhe aquilo que você não verificou. Não entregue sua consciência a líderes políticos. Não confunda linguagem cristã com fidelidade cristã. Não transforme sua preferência eleitoral em teste de ortodoxia para seu irmão. E, acima de tudo, não se esqueça de quem reina.

Diante da urna, estaremos exercendo uma responsabilidade de cidadãos brasileiros. Mas, antes disso e acima disso, somos cidadãos do Reino de Deus.

Que nosso voto seja consciente. Que nossa consciência seja iluminada pela Palavra. Que nossa fala seja temperada com graça. Que nossas convicções sejam acompanhadas de amor. Que nossa participação pública seja marcada pela verdade e pela justiça. E que, qualquer que seja o resultado das urnas, a nossa confiança permaneça onde sempre deveria estar: no Rei Jesus Cristo.

“O Senhor reina; tremam os povos.” Salmo 99.1

Que Deus nos dê sabedoria para escolher, humildade para discordar, coragem para defender a verdade, graça para amar o próximo e fé para descansar em sua soberania.

Nossa responsabilidade é votar. Nossa responsabilidade é orar. Nossa responsabilidade é agir com integridade. Mas o trono continua sendo de Deus.

Cada um de nós tem suas preferências e convicções, mas o púlpito não é lugar de digladiar irmãos nem palanque eleitoral: respeite seu irmão e suas escolhas, mesmo quando forem diferentes das suas. Ore, pesquise e escolha, entre as opções disponíveis, alguém cujos valores mais se aproximem daquilo que você entende ser justo, verdadeiro e coerente com sua consciência diante de Deus. Jesus não está concorrendo; por isso, vote com responsabilidade, sem idolatria e com a consciência em paz, lembrando que, qualquer que seja o resultado das urnas, Cristo continua sendo o nosso Rei.

 

 

Ilustração: magnific.com
Foto de Rev. Alexandre Antonietti Marques

Rev. Alexandre Antonietti Marques

Pastor Titular da 5ª IPI de Bauru, SP. É casado com Gláucia e pai de Samuel e Daniel.

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