Ensinando para o Reino

DIA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ – O discipulado é a escola de vida na qual os que seguem a Jesus, em obediência e fidelidade, são ensinados e capacitados para crescerem

Aprender é inerente à essência do ser humano. Ao nascer, descobrimo-nos em um universo dos novos saberes e experiências. A vida humana é caracterizada por um constante aprendizado. Precisamos aprender não apenas para garantir a nossa integridade física e sobrevivência, mas igualmente para responder às questões da própria existência.

O ministério de Jesus foi marcado pelo ensino sobre a chegada do Reino Deus, sobre a presença deste Reino e pelos sinais de sua antecipação.

Aqueles a quem Jesus chamou para o seguirem também foram ensinados sobre a realidade da presença do Reino de Deus e enviados a proclamar e a manifestar os sinais da chegada deste Reino. Este anúncio é o Evangelho, pois antecipa aqui e agora a realidade que será plenamente consumada.

 

1) Ser como crianças, mas…

Jesus ensinou que, para entrar no seu Reino, é preciso ser como uma criança. Aqui não se trata de um chamado ao infantilismo ou a um estilo de vida pueril, mas para o fato de que ser seu discípulo principia com a autocompreensão de não se ter qualquer direito para tanto, senão que se de seu chamado (Mc 3.13-19).

Os discípulos, que devem ser como crianças para entrar no Reino de Deus (Lc. 18.17), devem crescer integralmente para cumprir o propósito para o qual foram vocacionados.

As palavras utilizadas no Novo Testamento para expressar o sentido de “discípulo” e “discipulado” ajudam-nos a compreender.

A primeira palavra é “akoloutew”. É utilizada cerca 56 vezes nos Evangelhos e é traduzida por “seguir”. Refere-se à ação de uma pessoa que responde ao convite de Jesus e deve segui-lo em obediência e fidelidade (Mt 8.2; Mt 9.9).

Esta palavra era utilizada pelos gregos na Antiguidade em referência aos alunos das escolas peripatéticas, nas quais o “discípulo” se fazia “um com o seu mestre”.

A segunda palavra utilizada é “mathetes” (discípulo). Tem sua origem na palavra “mantano” que, no grego clássico, tinha o sentido de “adaptar-se”. Quando alguém era chamado de “mathetes”, significava haver um vínculo de aprendizado teórico e de vida com um “mestre”.

A terceira palavra é “mimeomai” (imitar) que, na língua portuguesa, deu origem ao termo “mimetismo”. Paulo usou com frequência esta palavra a fim de exortar que os discípulos o imitassem, tendo a Jesus como exemplo (1Co 11.1).

Podemos concluir que o “discipulado” é a escola de vida na qual os que seguem a Jesus, em obediência e fidelidade, são ensinados e capacitados para crescerem rumo à “maturidade” e se tornarem “imitadores” de Jesus, “o qual andou por toda parte fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do Diabo” (At 10.38).

 

2) O ensino para o Reino – capacitar discípulos para a missão

Dietrich Bonhoeffer escreveu que a igreja é a única organização que não existe para si mesma, mas está voltada para fora de si mesma, expressando o amor de Deus às demais pessoas fora dela.

O ensino para o Reino visa capacitar os discípulos para a missão que vai além da evangelização, pois conduz à transformação das pessoas, da igreja e do mundo. Cremos, e por isso proclamamos, que Jesus muda as pessoas, as relações e a realidade à nossa volta.

Eis que o imperativo de Jesus na chamada “Grande Comissão” envolve não apenas a proclamação, mas igualmente o discipulado: “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mt 28.19-20).

Uma pregação do Evangelho que não aponta para o discipulado acaba por gerar uma “espiritualidade pueril”, que cria pessoas birrentas e que vivem de acordo com “doutrina da sanguessuga”: “A sanguessuga tem duas filhas, a saber: Me Dá, Me Dá (Pv 30.15).

Esta é a religião dos que se portam diante de Deus como aqueles que acham que suas “birras” farão Deus se dobrar aos seus caprichos, ou que lidam com Deus apenas para suprirem suas necessidades.

Esta é a religião que gera os “crentes” que nunca crescem e se portam como “consumidores” das atividades da igreja, que cobram pela atenção/visita dos pastores/presbíteros, que sempre criticam tudo, mas jamais se dispõem a servir.

Uma igreja que ensina para o Reino está atenta ao imperativo de Jesus de fazer “discípulos (….)  ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado”. Ou seja, a proclamação e o ensino precisam intencionalmente demonstrar que os discípulos de Cristo devem crescer!

A respeito do menino Jesus, Lucas registra: “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele” (Lc 2.40). “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52).

Em uma preciosa conversa com o Rev. Messias Anacleto Rosa, ele se referiu a este texto dizendo que há “homens que crescem diante dos homens, mas não crescem diante de Deus”. E continuou: “Precisamos de homens que cresçam em estatura e graça diante dos homens, mas, na mesma proporção, diante de Deus”.

 

Precisamos de homens que cresçam em estatura e graça diante dos homens, mas, na mesma proporção, diante de Deus.

 

Jesus é o Verbo que se fez carne e habitou entre nós. Em sua encarnação, Jesus cresceu de forma integral, tanto na esfera biológica quanto na social. Foi um crescimento integral e integrado. Sua humanidade dá um modelo e meta para nós: ser pessoas que crescem para serem inteiras e plenas em Cristo.

Paulo confessou que, “quando era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de me nino” (1Co 13.11-13).  Nesta mesma carta, ele já havia advertido: “Eu não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo” (1Co 3.1).

Chama-me a atenção um texto que diz: “Isaque cresceu e foi desmamado, deu Abraão um grande banquete” (Gn 21.8).

Precisamos todos nós, igualmente, chegar ao estado de desmamados.

Precisamos ser pastores e presbíteros discípulos que cheguem à maturidade da fé.

Precisamos ser igrejas que deixaram de ser como meninos agitados de um lado para o outro, levados por todo vento de doutrina, na síndrome de que a grama que está do outro lado é sempre melhor.

 

PRECISAMOS SER IGREJAS QUE DEIXARAM DE SER COMO MENINOS AGITADOS DE UM LADO PARA O OUTRO, LEVADOS POR TODO VENTO DE DOUTRINA, NA SÍNDROME DE QUE A GRAMA QUE ESTÁ DO OUTRO LADO É SEMPRE MELHOR.

 

Precisamos crescer em nossa compreensão de igreja histórica, que tem uma identidade reformada, um sistema de governo testado e comprovado pela história, e a Palavra de Deus como fundamento e norte.

Precisamos crescer como aqueles que sabem que, entre a tensão do antigo e do novo, não estacionamos no tempo. Ficar preso no tempo é tradicionalismo sem vida. É não crescer.  Mas também correr atrás de toda e qualquer novidade é inconsequência infantil. É imaturidade.

Entre o ontem e o amanhã, temos a Palavra de Deus que é viva e eficaz, nunca muda, mas sempre se renova, e o Evangelho que tem a resposta para todas as pessoas em todos os tempos. Num tempo de tantos desafios, a única saída é crescer.

Num tempo no qual nós vivemos, não há para nós opção diferente. Urge a hora na qual devemos deixar as coisas de meninos, as brigas de meninos, as invejas de meninos, as birras de meninos…

Precisamos crescer e deixar para trás as disputas internas na igreja por questões periféricas, que nos tiram do alvo, que nos impedem de evangelizar, alcançar “as crianças” deste mundo que carecem de salvação.

Aos que se sentem “crescidos”, que nunca lhes falte a oração para “crescer e aumentar ainda mais no amor”. O alvo do nosso crescimento é Cristo (Rm 8.29). Portanto, sempre devemos ir além e jamais nos satisfazermos com o que já somos.

Por uma Igreja Ensinadora, formadora de discípulos, que vive no poder do Evangelho, e por isso, proclama e antecipa os sinais do Reino de Deus!

Nota do editor:

Texto publicado originalmente em O Estandarte de abril de 2023 (Ano 131 – N° 04). Republicado hoje por ocasião do Dia Nacional da Educação Cristã.

 

Imagem do topo: Rudy Artono.
Foto de Rev. Ézio Martins de Lima

Rev. Ézio Martins de Lima

Advogado, membro do Presbitério Distrito Federal. Foi 1º Vice-Presidente da Assembleia Geral da IPI do Brasil.

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