O pastor e sua vida interior

ENTREVISTA – Professor da Gordon-Conwell, nos Estados Unidos, Davi Lin fala sobre as razões pelas quais muitos pastores e pastoras não terminam bem seus ministérios

Hoje, 2 de setembro, celebramos o Dia do Pastor, da Pastora, do Missionário e da Missionária na IPI do Brasil. A data não coincide com a de outras denominações porque remonta à ordenação do Rev. Eduardo Carlos Pereira, grande líder da Igreja Presbiteriana Independente, em 2 de setembro de 1881. Desde então, a cada 2 de setembro homenageamos, na figura do Rev. Eduardo, todos os ministros, ministras, missionários e missionárias da IPI do Brasil.

Por ocasião deste dia, O Estandarte conversa com o pastor-teólogo-psicólogo Davi C. Ribeiro Lin, sobre temas ligados ao coração e às pressões ministeriais que o pastor(a) vive atualmente. Uma conversa profunda para um(a) ministro(a) segundo o coração de Deus.

*

 

Sobre o entrevistado

Davi C. Ribeiro Lin

Doutor em Teologia. Professor na Gordon-Conwell, pastor-teólogo, com formação em Psicologia de Aconselhamento e especialização em Agostinho de Hipona. Principal linha de pesquisa: As “Confissões” de Agostinho como construção de sentido narrativa para a saúde mental.

 

 

Resumo

O editor d’O Estandarte, Lissânder Dias, conversou1 com o Doutor em Teologia e professor na Gordon-Conwell, dos Estados Unidos, Davi C. Ribeiro Lin, sobre:

  • A vida interior do pastor e os desafios do ministério pastoral contemporâneo;
  • A importância da espiritualidade pastoral e os perigos enfrentados pelos líderes religiosos atualmente.

 

Para Davi, a “vida interior” do pastor significa o alinhamento do coração com Deus, baseando-se no conceito bíblico de que Deus é o supremo pastor e os pastores humanos são “subpastores temporários”. Ele enfatizou que o verdadeiro ministério nasce da experiência íntima com Deus, não da posição ou performance.

A conversa abordou estatísticas alarmantes sobre pastores que não terminam bem o seu ministério, destacando a importância de mentoria e relações de confiança.

Davi também discutiu os extremos das pressões ministeriais: igrejas pequenas que não crescem versus megaigrejas com crescimento descontrolado. A conversa ainda tocou nos desafios pós-pandemia, incluindo o crescimento de igrejas digitais versus analógicas, e a necessidade de parcerias para discipulado efetivo.

Por fim, Davi partilhou insights de Agostinho sobre viver uma vida de confissão, manter esperança em tempos de crise, e ser simultaneamente vulnerável e inabalável através da graça divina.

 

*

 

ENTREVISTA

 

O que significa essa questão de vida interior do pastor e por que é tão importante para o trabalho pastoral?‎‎

Dr. Davi – A vida interior do pastor é o alinhamento do nosso coração com o fato de que a igreja não é nossa. Baseando-se em Jeremias 3.15, são pastores segundo o coração de Deus. É a possibilidade de, por meio de oração, meditação nas Escrituras e direção espiritual, conseguir alinhar o fato de ser um “subpastor” com aquilo que o Supremo Pastor direciona, porque, afinal, o rebanho não é nosso.

Qual é a base para essa vida interior?‎‎

Dr. Davi – A vida interior é a possibilidade de me lembrar que posso, no ministério, bater a batida do meu coração na mesma sintonia da de Deus, porque ministério é isso: aquilo que recebo da Trindade, passo para a igreja. Preciso conhecer o meu coração e preciso conhecer o coração de Deus. Por isso oro, por isso leio as Escrituras.

E nessa sintonia, o foco não é mais a performance, não é por mais o desempenho. O foco é: “Senhor, como é que eu vou posicionar os ouvidos do meu coração bem próximos da tua boca?”.

Quais são os pontos de perigo ou desafios que observa nos modelos contemporâneos de conduzir os rebanhos?‎‎

Dr. Davi – Primeiro, pelo menos metade dos ministros cristãos não termina bem a sua caminhada de fé. O grande problema é: se não tem mentores, se anda sozinho, não permanece. Alguns estudos afirmam que ministério é parceria e mentoria. Se você anda sozinho, é muito difícil chegar até o final.  Acho que esse é o primeiro dado importante.

Outro risco é trabalharmos com déficit de sabedoria, como mostra Eugene Peterson quando diz que os pastores americanos viraram “shopkeepers” (guardiões de lojinha). Ele também usa a expressão “working the angles” (trabalhando os ângulos) como modelo para mantermos a integridade do trabalho pastoral. Explicando: quando trabalhamos nos ângulos, as linhas se ajeitam. As linhas são as partes visíveis: administração, liderança e ensino. Mas são os ângulos que sustentam um triângulo e dão equilíbrio. E uma vez que você ajeita o ângulo, as linhas vão achar o seu caminho.

Como ser um pastor segundo o coração de Deus que tem efetividade, mas não idolatra a efetividade?‎‎

Dr. Davi – Todo pastor tem duas possibilidades: plantar uma igreja ou revitalizar uma antiga. Dependendo do tamanho da igreja, ela vai pedir uma coisa diferente. O pastor precisa entender qual é o seu rebanho, qual é o seu pasto e como o vai alimentar, dependendo das necessidades dessa igreja. Não é só aquilo que acha que tem que fazer; é entender bem as necessidades do outro.

O que precisamos lembrar sempre, a partir de Agostinho, para desenvolver essa vida interior?‎‎

Dr. Davi – Primeiro, viver uma vida de confissão, porque quando lançamos luz nas nossas trevas, a graça sempre vem. Um pastor não precisa ter medo de mostrar as suas feridas. E apontar para esperança em tempos de crise, como Agostinho fez em “A Cidade de Deus”, dizendo que os reinos e partidos vão cair, mas tem uma cidade que permanece.

Quando o Agostinho chega ao final da sua vida, ele pede o seguinte aos seus discípulos: “Por favor, coloquem os salmos penitenciais de Davi na parede do meu quarto, porque eu preciso orar”.

“Cria em mim um coração, Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável”, assim orou Davi.

*

 

Conselhos práticos para o pastor(a) cultivar uma “vida interior”:

  1. Estude com atenção as estatísticas sobre pastores que não terminam bem o ministério;
  2. Estabeleça relações de mentoria: “Quem te mentoreia e quem você mentoreia? Quem te discipula?”;
  3. Planeje, uma vez por mês, o seu “Dia T” (dia tranquilo), como fazia o teólogo e pastor John Stott. É um dia especial, afastando-se de todos, a fim de meditar sobre como estão seus dias e como espera que sejam os próximos;
  4. Não permita que sua igreja faça tudo sozinha. Cultive uma cultura de parceria com outras igrejas, agências missionárias e movimentos paraeclesiásticos para evangelizar e discipular as pessoas;
  5. Viva uma vida de confissão para lançar luz nas trevas e receber graça.

 

_________

Nota:
1. Entrevista resumida com a ajuda do Notta (IA).

 

Foto do topo: magnific.com

 

Foto de Lissânder Dias

Lissânder Dias

Jornalista, editor de livros, membro da 2a IPI de Maringá, PR, e editor do portal O Estandarte

Compartilhe este conteúdo. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Conteúdo Geral

Notícias Relacionadas

Categorias

Seções

Artigos por Edições

Artigos mais populares

Não Existem mais Posts para Exibir
plugins premium WordPress
Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência possível para o usuário. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajuda a nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.