“Deus me revelou” ou “Está escrito”?

Por levarmos a sério a obra do Espírito Santo, precisamos perguntar: como Ele nos conduz? E onde encontramos a revelação segura da vontade de Deus?

 

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva.”
(Isaías 8.20)

 

Vivemos em uma época em que muitas pessoas desejam ouvir a voz de Deus de maneira extraordinária. Há grande interesse por experiências espirituais, impressões pessoais, sinais, sonhos e aquilo que algumas pessoas chamam de “revelações”. Não devemos desprezar a obra do Espírito Santo na vida do crente. Pelo contrário: cremos que o Espírito Santo habita em nós, nos consola, nos santifica, ilumina nosso entendimento e nos conduz à verdade.

Mas justamente por levarmos a sério a obra do Espírito Santo, precisamos perguntar: como o Espírito Santo nos conduz? E onde encontramos a revelação segura da vontade de Deus?

A resposta da fé reformada é clara: Deus nos deu sua Palavra, as Sagradas Escrituras, como regra suficiente, segura e final para nossa fé e nossa vida.

 

Deus falou — e sua Palavra permanece

Hebreus começa dizendo que Deus falou “muitas vezes e de muitas maneiras” aos pais, pelos profetas, mas que “nestes últimos dias, nos falou pelo Filho” (Hb 1.1-2).

Ao longo da história da redenção, Deus revelou sua vontade de diversas maneiras. Houve profetas, sonhos, visões e manifestações extraordinárias. Porém, aquilo que Deus revelou foi preservado e entregue à sua Igreja nas Sagradas Escrituras.

Por isso, a Confissão de Fé de Westminster afirma que Deus confiou sua revelação à Escritura e que aquelas antigas maneiras de revelar sua vontade “agora cessaram” (CFW 1.1). A mesma Confissão afirma que tudo aquilo que é necessário para a glória de Deus, a salvação, a fé e a vida estão na Escritura, expressamente ou por boa e necessária consequência, e que nada deve ser acrescentado por “novas revelações do Espírito” (CFW 1.6).

Isso é precioso para o cristão. Não precisamos viver procurando uma nova palavra de Deus para cada decisão, cada problema ou cada circunstância.

Temos a Palavra de Deus. Temos nela aquilo que Deus quis revelar para conhecermos quem Ele é, quem nós somos, como somos salvos, como devemos viver e como devemos servi-lo.

 

O Espírito Santo não compete com a Palavra

Às vezes, existe uma maneira equivocada de falar sobre a atuação do Espírito Santo: como se tivéssemos de escolher entre a Bíblia e o Espírito. Mas a Bíblia nunca apresenta essa oposição.

O Espírito Santo é o Espírito da verdade (Jo 14.17). Foi Ele quem inspirou as Escrituras (2Tm 3.16; 2Pe 1.20-21). Portanto, o Espírito Santo não nos conduz a desprezar aquilo que Ele mesmo inspirou.

Calvino foi especialmente cuidadoso nesse ponto. Ao combater aqueles que alegavam possuir uma espiritualidade especial e, por isso, pretendiam ultrapassar a Escritura, ele insistiu que o Espírito e a Palavra não podem ser separados. Para Calvino, não devemos imaginar uma ação do Espírito que nos permita ultrapassar ou substituir a Palavra escrita.

O Espírito Santo ilumina a Palavra; não precisa acrescentar uma nova Bíblia à Bíblia. Ele abre nossos olhos para compreender aquilo que Deus já revelou. Ele aplica a verdade ao nosso coração. Ele nos convence do pecado. Ele nos consola com as promessas de Deus. Ele nos dá sabedoria para aplicar os princípios bíblicos às circunstâncias concretas da vida.

Portanto, quando dizemos: “O Espírito Santo me mostrou algo”, devemos ter muito cuidado com o que estamos afirmando.

Uma coisa é dizer: “Enquanto eu orava e meditava neste texto, percebi que preciso me arrepender desta atitude.”

Outra coisa, muito diferente, é dizer: “Deus me revelou que você precisa fazer determinada coisa.”

Na primeira afirmação, estamos falando de iluminação e aplicação da Palavra. Na segunda, podemos estar atribuindo a Deus uma mensagem que Ele não nos autorizou a falar em seu nome.

 

A oração não é uma busca por novas revelações

A oração é um dos maiores privilégios do cristão. Oramos porque Deus nos ouve por meio de Cristo. Oramos para confessar nossos pecados. Oramos para agradecer. Oramos para apresentar nossas necessidades. Oramos pelos irmãos. Oramos pedindo sabedoria. Oramos pedindo que Deus nos faça compreender sua Palavra e nos capacite a obedecê-la.

Tiago diz: “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus” (Tg 1.5). Observe que Tiago não nos ensina a procurar uma revelação extraordinária. Ele nos ensina a pedir sabedoria a Deus.

E que sabedoria é essa?

É a capacidade de viver fielmente diante de Deus nas situações concretas da vida.

 

Sabedoria é a capacidade de viver fielmente diante de Deus nas situações concretas da vida.

 

Quando não sabemos o que fazer, não precisamos necessariamente de uma mensagem secreta do céu. Precisamos de sabedoria para aplicar aquilo que Deus já revelou.

Às vezes queremos que Deus nos mostre exatamente qual decisão tomar, quando Deus já nos deu princípios suficientemente claros para caminharmos com responsabilidade, oração, prudência e confiança.

 

A Escritura nos dá uma segurança que experiências pessoais não podem dar

Experiências podem ser sinceras e, ainda assim, podem ser interpretadas equivocadamente. Sentimentos podem ser intensos e, ainda assim, podem nos enganar. Impressões podem parecer muito fortes e, ainda assim, podem não proceder de Deus. Por isso, nossa fé não pode descansar naquilo que sentimos que Deus nos disse. Nossa fé descansa naquilo que Deus efetivamente disse.

A Confissão de Westminster declara que a autoridade da Escritura não depende do testemunho de homens, mas do próprio Deus, seu Autor. E afirma que a Escritura é a regra de fé e vida da Igreja. Que segurança maravilhosa!

Se minha fé depende de uma experiência pessoal, sempre poderei perguntar: — “Será que entendi corretamente?” — “Será que não foi apenas minha impressão?” — “Será que não confundi meu desejo com a direção de Deus?”

Mas quando Deus fala claramente nas Escrituras, não precisamos ficar nessa insegurança. Assim diz o Senhor.

 

Isso significa que Deus não nos guia?

De maneira alguma. Deus nos guia. Ele governa todas as coisas por sua providência. Ele nos dá sabedoria. Ele usa a oração. Ele usa sua Palavra. Ele usa a Igreja. Ele usa conselhos sábios. Ele usa circunstâncias. Ele usa dons e capacidades. Ele usa nossa consciência iluminada pelas Escrituras. Mas precisamos distinguir entre providência e revelação.

Deus pode, em sua providência, abrir uma porta inesperada. Pode colocar uma pessoa em nosso caminho. Pode mudar circunstâncias. Pode nos fazer perceber algo que não havíamos percebido antes.

Podemos reconhecer a mão de Deus nessas coisas e dizer, com gratidão: “Deus, em sua providência, conduziu esta situação.” Mas isso não significa necessariamente que recebemos uma nova revelação divina. Essa distinção nos protege de um erro perigoso: transformar nossas interpretações pessoais em palavras que colocamos na boca de Deus.

 

Como devemos falar uns com os outros?

Há uma grande diferença entre dizer: “Creio que este texto bíblico pode ajudá-lo.” e dizer: “Deus me revelou que você precisa fazer isso.”

Há diferença entre: “Estou orando por você e tive uma preocupação; será que podemos conversar?” e: “Deus me mostrou o que está acontecendo com você.”

Há diferença entre: “A Bíblia nos ensina a considerar este caminho.” e: “Deus mandou você seguir este caminho.”

A primeira maneira deixa espaço para humildade, exame, diálogo e submissão à Palavra. A segunda pode colocar sobre outra pessoa o peso de uma suposta autoridade divina. Por isso, precisamos cultivar uma linguagem cristã humilde.

Paulo diz: “Não pense de si mesmo além do que convém” (Rm 12.3).

E, ao tratar do ensino na Igreja, Tiago nos lembra que aqueles que ensinam receberão “mais severo juízo” (Tg 3.1).

Falar em nome de Deus é algo muito sério.

Quando Deus realmente falou nas Escrituras, podemos falar com absoluta certeza.

Quando estamos oferecendo nossa percepção, conselho ou entendimento de uma situação, devemos ter humildade suficiente para dizer: “Eu penso…”, “Eu entendo…”, “Talvez seja útil considerar…”, “Vamos examinar isso à luz das Escrituras.”

Essa humildade não enfraquece nossa fé. Pelo contrário: ela demonstra reverência pela Palavra de Deus.

 

O caminho reformado é um caminho de Palavra e oração

A vida cristã não é seca nem meramente intelectual. Nós lemos a Bíblia e oramos. Ouvimos a Palavra e buscamos a Deus. Estudamos as Escrituras e pedimos que o Espírito Santo transforme nosso coração.

Não precisamos escolher entre doutrina e devoção. Não precisamos escolher entre Palavra e oração. Precisamos das duas.

A Palavra nos mostra quem Deus é e o que Ele ordena. A oração nos leva humildemente à presença desse Deus. O Espírito Santo usa a Palavra para transformar nosso entendimento e nossa vida.

Por isso, quando não sabemos o que fazer, nossa primeira pergunta não deveria ser: “Quem tem uma revelação para mim?” Mas: “O que Deus já revelou em sua Palavra?”

 

A vida cristã não é seca nem meramente intelectual. Nós lemos a Bíblia e oramos. Ouvimos a Palavra e buscamos a Deus.

 

E então devemos orar: “Senhor, abre meus olhos para compreender a tua Palavra. Dá-me sabedoria para aplicá-la. Livra-me dos meus próprios desejos e pensamentos. Dá-me humildade para ouvir bons conselhos. E concede-me graça para obedecer ao que já me revelaste.”

Essa é uma oração profundamente reformada. E é também uma oração profundamente bíblica.

 

Conclusão

Não precisamos de uma nova palavra. Há algo muito consolador na suficiência das Escrituras: Deus não deixou sua Igreja abandonada à procura de mensagens escondidas. Ele nos deu sua Palavra. Nela encontramos o evangelho de Cristo. Nela encontramos a promessa da graça. Nela encontramos o caminho da santidade. Nela encontramos instrução para a família, para a Igreja, para o trabalho e para os relacionamentos. Nela encontramos correção, consolo, advertência e esperança. E nela encontramos o próprio Cristo, aquele para quem apontam todas as Escrituras.

Portanto, devemos ser uma igreja que ora muito, que busca a direção do Espírito Santo, que ouve conselhos sábios e que reconhece a providência de Deus.

Mas, acima de tudo, devemos ser uma igreja que abre a Bíblia. Porque nossa segurança não está em alguém dizer: “Deus me revelou…” Nossa segurança está em podermos dizer: “Está escrito.”

E, quando está escrito, não precisamos de uma nova revelação.

Precisamos de fé para crer, do Espírito Santo para iluminar nosso entendimento e de graça para obedecer. Sola Scriptura. Somente a Escritura é nossa regra suficiente, segura e autorizada de fé e vida.

 

Imagem do topo: magnific.com
Foto de Rev. Alexandre Antonietti Marques

Rev. Alexandre Antonietti Marques

Pastor Titular da 5ª IPI de Bauru, SP. É casado com Gláucia e pai de Samuel e Daniel.

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