A IPI deseja que seus membros vivam a cultura de discipulado

Encontro regional em Poços de Caldas, MG, desafia 300 líderes a trocar estruturas por processos de transformação

 

No último sábado (16/05/26), a 1ª IPI de Poços de Caldas, MG, sediou ao longo do dia um encontro que, para muitos, foi bem mais do que “mais um treinamento”, tornou-se um verdadeiro divisor de águas. Cerca de 300 pastores, presbíteros, diáconos e líderes dos presbitérios São Paulo–Minas, Sudoeste de Minas e Sul de Minas passaram o dia inteiro confrontando uma pergunta simples, mas profundamente incômoda: afinal, qual é a cultura de discipulado da sua igreja?

O projeto “Liderança Transformadora” nasceu exatamente dessa urgência. Segundo o Rev. Wellington Camargo, secretário executivo da IPIB, uma pesquisa realizada no último congresso de pastores revelou que 92% deles desejam uma educação continuada mais aplicada: conteúdos de teologia bíblica prática, úteis no dia a dia do ministério, e não apenas materiais teóricos.

Diante dessas constatações e inquietações, após a reunião com os presidentes de Sínodos e Presbitérios, em março de 2025, em São Paulo, a diretoria da IPI encaminhou a proposta à COMEX. Na reunião de dezembro, a resposta veio em forma de ação: foi aprovada a realização de encontros regionais com a liderança do pastor Josué Campanhã, da Envisionar. A partir dessa decisão, formou-se uma equipe de trabalho da IPI que estruturou as diretrizes que a IPI do Brasil deseja fortalecer nas igrejas locais, por meio dos Presbitérios e, por meio destes, junto aos Conselhos.

Dessa parceria nasceu o movimento nacional da IPI do Brasil “Liderança Transformadora”. Os encontros regionais já alcançaram quase 2.000 líderes em diferentes regiões do país. Segundo o pastor Josué Campanhã, não se trata de um novo programa denominacional, mas de um movimento que a própria liderança tem reconhecido como obra do Espírito Santo, com o propósito de recentrar a vida das igrejas em um único foco: fazer discípulos, “a única coisa” que Jesus ordenou como missão central da igreja. “O nosso objetivo é clareza: como levar a sua igreja a cumprir a única coisa que Jesus pediu que a gente fizesse – fazer discípulos”, afirmou.

Os Encontros “Liderança Transformadora” são direcionados a toda a liderança da igreja, não apenas a pastores. Presbíteros, diáconos, líderes de ministérios e membros que desejam aprofundar sua compreensão sobre discipulado também são convidados a participar.

Discipulado é menos gestão e mais esvaziamento: uma escolha por servir, e não por se projetar. “Nosso negócio é fazer discípulos. O resto é o que der tempo”, resumiu o palestrante em outro momento do encontro, ao descrever o lugar que o discipulado deveria ocupar na agenda de uma liderança saturada de reuniões, eventos e demandas administrativas.

 

Pandemia, fim de ciclo e visão de futuro

Um dos momentos de maior tensão temática foi a releitura da pandemia e de seus efeitos sobre a vida das igrejas. “Aquela igreja na qual você pertencia, que você liderava até 15 de março de 2020, acabou”, disse o palestrante. “Sem aceitar o fim de uma fase”, argumentou, “não há entrada na próxima”.

A pandemia funcionou como uma “puxada de tapete” divina para uma igreja acomodada em agendas cheias de programas, mas pouco intencionais em discipulado. A grande perda do século 21, comparada à da igreja primitiva, não estaria na perseguição, mas na perda da perspectiva da própria Grande Comissão.

 

“Aquela igreja na qual você pertencia, que você liderava até 15 de março de 2020, acabou”!

 

Por isso, a ênfase recaiu sobre perguntas voltadas ao futuro: “Qual é a visão que Deus te deu para os próximos dez anos?”. Se a resposta ainda não existe, o conselho é honesto: escrever “preciso orar mais sobre isso” e fazer disso um compromisso. Se já há uma direção, ainda que embrionária, o chamado é registrá-la, submetê-la à equipe e transformá-la em processo, e não apenas em declaração de intenções.

 

Missão, visão e processo: um esquema que começa em Jesus

Buscando pontes com categorias administrativas familiares, o pastor recorreu ao trio “missão, visão e processo”. Sua tese é que esses conceitos, ensinados em cursos de gestão, já estão explicitados na vida de Jesus.

No caso de Cristo, a missão é salvar a humanidade; a visão, a cruz e a ressurreição; já o processo é fazer discípulos. Ele reúne doze, caminha com eles por anos e então os envia para fazer o mesmo. Para a igreja hoje, a lógica é exatamente igual:

  • Missão: Grande Comissão
  • Visão: fazer discípulos e transformar vidas
  • Processo: discipulado intencional em equipe.

 

Esse raciocínio embasa uma distinção crucial: a diferença entre mentalidade estrutural e mentalidade de processo. A primeira responde a quase tudo com a criação de departamentos e programas (casais, homens, mulheres, evangelismo, mídia), muitas vezes sem saber se isso, de fato, forma discípulos. A segunda prioriza transformação de vida e multiplicação, usando estruturas apenas como suporte.

“Nós fomos formados numa mentalidade estrutural”, avaliou. “A mentalidade de Jesus não é estrutural, é de processo: transformação de vida e depois multiplicação”. Em termos práticos, o parâmetro muda. “Na cultura de resultado a pergunta é: ‘O culto estava cheio? Então foi bom’. Na cultura de transformação a pergunta é: ‘Vidas estão sendo transformadas?’”

 

 

Três processos estratégicos: discipulado, liderança, novas gerações

A partir dessa mudança de mentalidade, três grandes processos estratégicos são apresentados para orientar a vida das igrejas:

  • Discipulado – com base em Mateus 28, visto como processo que amplia a “copa da árvore” (expansão) enquanto aprofunda as raízes (maturidade).
  • Desenvolvimento de liderança – ancorado em Efésios 4, entendendo que discípulos maduros se tornam líderes, o que garante sustentabilidade à igreja.
  • Longevidade via novas gerações – com foco em pais discipulados que discipulam filhos, e ministérios com crianças como apoio, não substituição, da responsabilidade familiar.

 

Nessa lógica, estruturas deixam de ser o ponto de partida e passam a funcionar como expressão concreta de processos em andamento.

 

 

Cultura: o lugar onde os projetos emperram

Na segunda parte do encontro, o pastor Luiz Carlos deslocou o foco da estratégia para a cultura. Ele sintetizou décadas de experiência em plantação e revitalização de igrejas com uma conclusão: revitalizar comunidades com culturas antigas e rígidas costuma ser mais difícil do que começar do zero.

“Revitalização é o lugar onde você encontra culturas estabelecidas, enrijecidas, que desejam mudança, mas não desejam mudar”, resumiu. A cultura de uma igreja, disse, é mais poderosa do que a sua declaração de fé. Mesmo sob a mesma confissão, comunidades diferentes pensam, decidem e reagem de modos distintos  e é aí, mais do que no material ou na trilha de estudos, que os projetos travam.

Ele insistiu que discipulado não pode ser reduzido a classe, curso ou material: precisa se tornar cultura, algo natural no jeito da igreja viver. Essa ênfase dialoga com a proposta de trocar a lógica de “rodar programas” por processos de discipulado de longo prazo, nos quais conversão, maturidade, serviço e liderança se encadeiam de forma intencional.

 

Revitalização é o lugar onde você encontra culturas estabelecidas, enrijecidas, que desejam mudança, mas não desejam mudar.

 

Diagnóstico honesto: amor em baixa, discipulado pouco compreendido

Os dados preliminares da pesquisa aplicada aos participantes indicam desgaste no amor com que muitos líderes vivem seu chamado e baixa compreensão, nas igrejas, sobre o que é discipulado na prática. Isso não significa ausência de vocação, mas efeito de anos de sobrecarga e foco em atividades, não em processos de formação.

Metade dos presentes declarou ter uma visão clara de Deus para os próximos dez anos; a outra metade, não. O risco está na estagnação: se o quadro se repetir daqui a cinco anos, o cenário se torna preocupante. Em discipulado, o retrato é mais agudo: a maioria das comunidades não consegue explicar com clareza o que é discipulado nem como vivê-lo no cotidiano da igreja.

A leitura desses números pode ser de desânimo ou de oportunidade. Em ambos os casos, a conclusão é a mesma: mudanças começam no coração da liderança, e não na importação de modelos.

 

 

Da teoria à mentoria: próximos passos e desafios regionais

O encontro em Poços de Caldas faz parte de um processo mais longo. Nos próximos meses, representantes dos três presbitérios seguirão em mentorias online para transformar reflexões em planos concretos.

Segundo o pastor Marcelo Fraga, um dos mentores, que acompanha grupos de lideranças que participaram dos primeiros encontros, a resposta às mentorias tem sido “excelente”. O que mais chama atenção é “o desejo de crescimento, a abertura à mudança e o compartilhamento de todos quanto aos desafios que têm enfrentado”. Os principais desafios se repetem: gerar uma cultura de discipulado, conectar gerações e formar e capacitar líderes. Para Fraga, há um ponto a ser constantemente lembrado: “O mais importante é relembrar e retornar à Grande Comissão que Jesus nos ordenou como foco principal da nossa jornada espiritual: fazer discípulos”.

Ao longo da programação, houve espaço para a apresentação da Editora Vida & Caminho (antiga Pendão Real), que tem se aproximado do movimento de liderança e discipulado por meio de materiais específicos. A presença da editora reforçou um ponto recorrente: material não é ponto de partida, mas instrumento a serviço de processos já discernidos.

 

Vozes dos presbitérios: impacto e expectativa

Os presidentes e organizadores avaliam que o encontro marca um novo momento para a região. O Rev. Giancarlo, pastor da IPI de Nova Resende e presidente do Presbitério do Sudoeste de Minas, afirma que o encontro elevou o patamar da liderança: “Estamos aqui nesse encontro que está sendo maravilhoso e desafiador. Participei do primeiro encontro, o ano passado em São Paulo, já fomos desafiados – e agora, melhor ainda”, relatou. Desta vez, levou uma comitiva maior: “Estou com uma equipe aqui, 14 pessoas da igreja, todo o meu conselho, diáconos… Está todo mundo empolgado”.

O Rev. Tato, pastor da IPI de Alfenas e presidente do Presbitério Sul de Minas, descreveu o Encontro Liderança Transformadora como resposta direta a um tempo de oração e busca por direção. “Esse encontro é de muita alegria, porque há muito tempo a gente vem orando: para onde a gente vai, o que nós vamos fazer, como inspirar pessoas a continuar inspirando outras pessoas e, no seu meio, voltar para dentro”, afirmou. “Tem sido um marco muito grande para a gente poder realmente enxergar o futuro, saber que é possível influenciar mais pessoas para que elas alcancem outras”, concluiu.

 

“Tem sido um marco muito grande para a gente poder realmente enxergar o futuro, saber que é possível influenciar mais pessoas para que elas alcancem outras”.

 

O Rev. Galdino, um dos organizadores do encontro, presidente do Sínodo Minas Gerais e do presbitério, destaca que o Encontro Liderança Transformadora nasce de um processo construído desde a reunião dos presidentes de presbitério em São Paulo, quando a visão de discipulado começou a ser tratada em conjunto com a equipe nacional. “Nós estamos bastante motivados aqui na nossa região, porque, com as nossas igrejas alinhadas com essa visão do discipulado, podemos ter uma transformação de vida e de ministério, um crescimento saudável em que realmente façamos discípulos e esses discípulos discipulem outros”, afirma.

Para o Rev. Reginaldo Ferro, pastor da IPI de São Bartolomeu, em Cabo Verde, MG, que trabalhou na organização do evento, o impacto já é visível: “Trabalhei na organização deste evento por mais de um mês; não foi algo feito em minutos. Gente, sensacional, maravilhoso: não é teoria, é prática, e isso já está revolucionando a nossa igreja”, afirmou.

 

Ainda é cedo afirmar,mas…

Se a nossa IPI conseguirá migrar de uma cultura centrada em eventos e estruturas para uma cultura de processos de discipulado, ainda é cedo para afirmar. Mas, em Poços de Caldas, a pergunta deixou de ser retórica e passou a exigir planos:

Qual é a cultura de discipulado da sua igreja e que passos concretos começarão a ser dados nos próximos dias para que ela se torne, mais do que um discurso, um modo de viver?

 

Foto de Sheila Amorim

Sheila Amorim

Jornalista e gestora da agência Vida&Caminho. Membro da IPI de Cidade Patriarca, São Paulo, SP

Compartilhe este conteúdo. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Conteúdo Geral

Notícias Relacionadas

Categorias

Seções

Artigos por Edições

Artigos mais populares

Não Existem mais Posts para Exibir
plugins premium WordPress
Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência possível para o usuário. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajuda a nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.