Da série “Que IPIB queremos construir?”
Ainda me lembro de ouvir, quando jovem, pastores mais experientes falarem, com respeito, sobre “a igreja dos milagres”, expressão nascida não de fenômenos extraordinários e espetaculares, mas das dificuldades reais que a IPI do Brasil enfrentou em seus primeiros anos: escassez de recursos, poucos pastores, distâncias imensas entre congregações. Ainda assim, a igreja crescia, sobrevivia e se multiplicava. O “milagre” não estava em sinais visíveis, mas na providência silenciosa de Deus sustentando uma obra que, humanamente, parecia inviável.
Essa memória carrega uma pergunta inevitável: o que fazemos com ela hoje? Como Secretário Nacional de Revitalização, indago: do que seremos chamados no futuro? Se ontem fomos “a igreja dos milagres” por causa da escassez, que nome descreverá a IPI do Brasil daqui a algumas décadas?
O que os milagres realmente apontavam
O apóstolo Paulo, ao escrever aos coríntios, testemunha algo semelhante ao que a IPIB viveu em seus primeiros anos:
“Mas ele me disse: minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. […] Pois, quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Coríntios 12.9-10).
Paulo não estava descrevendo sinais espetaculares, mas a experiência de ver a suficiência de Deus se manifestar justamente onde faltavam forças humanas. Foi exatamente isso que os primeiros pastores e congregações da IPIB viveram: falta de recursos, poucos obreiros, distâncias imensas, e ainda assim, uma igreja que crescia, porque a graça de Deus bastava onde a capacidade humana não era suficiente.
Este é o verdadeiro sentido de “igreja dos milagres”: não uma coleção de feitos extraordinários e visíveis, mas o testemunho silencioso e constante de que “nossa capacidade vem de Deus” (2 Coríntios 3.5), mesmo – e principalmente – em contextos de escassez. Quando esquecemos essa origem, corremos o risco de transformar a expressão em nostalgia vazia, esquecendo que o “milagre” sempre foi a graça suficiente, não a abundância de meios.
Quando esquecemos essa origem, corremos o risco de transformar a expressão em nostalgia vazia, esquecendo que o “milagre” sempre foi a graça suficiente, não a abundância de meios.
Revitalização não é nostalgia
Um dos maiores riscos que enfrentamos como igreja é transformar saudade em paralisia. Neemias, ao reconstruir os muros de Jerusalém, não ficou sentado lamentando as ruínas nem sonhando com os dias de glória do templo de Salomão. Ele orou, mobilizou o povo, trabalhou com as próprias mãos e enfrentou oposição… tudo isso com os olhos fixos no futuro que Deus queria construir por meio daquela comunidade fiel (Neemias 2.17-18).
A revitalização que buscamos na IPIB segue este mesmo espírito: não é resgatar fórmulas do passado, mas recuperar a essência que sustentava aqueles primeiros anos. É uma dependência radical da graça de Deus a fim de aplicá-la aos desafios de hoje: secularização crescente, esvaziamento de igrejas locais, geração jovem distante da fé e polarização que fragmenta comunidades. Curiosamente, muitas igrejas hoje têm mais recursos materiais do que aquelas congregações pioneiras, mas enfrentam pobreza espiritual e esvaziamento de sentido. A força da IPIB nunca esteve em abundância de meios, mas na fidelidade de um Deus suficiente.
Do que seremos chamados?
Se me permitem sonhar profeticamente, gostaria que a IPIB do futuro fosse conhecida como a “Igreja da Esperança Viva” — inspirada em 1 Pedro 1.3, que descreve uma comunidade regenerada “para uma viva esperança”. Numa geração marcada por ansiedade, desilusão e polarização, a igreja que mais impactará não será necessariamente aquela com mais estrutura, mas sim a que encarna esperança concreta: que acolhe o sofredor, que planta comunidades em lugares esquecidos, que forma discípulos capazes de atravessar crises com fé genuína, apoiados na mesma graça que sustentou nossos pioneiros.
Quero também que sejamos chamados de “igreja que revitaliza”, não apenas que espera milagres de fora, mas se torna instrumento ativo de renovação onde está plantada. Isso significa investir em liderança pastoral saudável, em plantação de novas igrejas, em comunidades que praticam o evangelho de forma tangível nas ruas, nas famílias e nas cidades, sempre reconhecendo que nossa capacidade, ontem e hoje, vem de Deus.
Quero também que sejamos chamados de “igreja que revitaliza”, não apenas que espera milagres de fora, mas se torna instrumento ativo de renovação onde está plantada.
Um mosaico para o futuro
Que IPIB queremos construir? Uma igreja que honra seu passado sem ficar prisioneira dele; que reconhece que os “milagres” de ontem eram sinais de uma graça ainda suficiente hoje; que troca nostalgia por obediência corajosa. Uma igreja que, através da revitalização de cada congregação local, seja reconhecida, não pela abundância de seus recursos, mas pela mesma dependência radical da graça de Deus que sustentou seus primeiros passos, plantando esperança viva onde antes havia apenas escassez.
Que essa seja nossa oração e nosso compromisso: sermos, mais uma vez, testemunhas visíveis de que, quando somos fracos, então é que somos fortes; não presos ao passado, mas fiéis ao chamado presente e esperançosos quanto ao futuro que Ele ainda escreve por meio de nossas vidas.







