“A Odisseia” de Ulisses e a grande aventura da nossa fé

A mitologia é digna de uma nova exegese. Os monstros, não necessariamente mitológicos, habitam dentro de nós em formas das mais desprezíveis

 

Elias foi levado para o céu num fantástico carro de fogo, com cavalos em chamas.
(2 Rs 2.11)

Na fuga do Egito, comandada por Moisés, o povo foi perseguido por Faraó e seu exército, mas no Mar Vermelho, milagrosamente aberto, o Senhor eliminou a todos, lançando no mar cavalos e cavaleiros (Ex 15.1).

Na China, este é o ano do Cavalo de Fogo, um dos doze animais do zodíaco asiático, entrelaçado com o elemento fogo.

 

Ulisses e a nossa fé

Banner de divulgação oficial do filme.

Agora temos um filme (“A Odisseia”, de Christopher Nolan), fazendo muito sucesso, relatando a mitológica Guerra de Troia, comandada por Ulisses, rei de Ítaca, personagem do poeta grego Homero. Na invasão para resgate de Helena, ele constrói um enorme cavalo de madeira, escondendo no seu interior uma tropa armada. Os soldados simulam uma retirada militar, deixam o cavalo na praia e os troianos acreditam que se trata de um presente – daí a expressão “presente de grego” – e puxam o animal para dentro das muralhas, causando sua própria destruição.

A forma homérica de narrar a aventura épica retrata a vida humana, mistério do sopro divino (Gn 2.7), provocando a discussão sem fim sobre o que somos, o que desejamos e para onde vamos. Se Homero foi o educador de toda a Grécia, como disse o filósofo Platão, podemos raciocinar que a medida biológica do tempo ao longo da vida, exigindo energia, saúde e vitalidade, possui preciosíssimo componente: a contagem do tempo da alma.

A educação a que Platão se refere, a história que escrevemos, é conectada com a fé (do latim “fides”) que expressamos, a confiança que, no nosso caso, gira em torno do Todo Poderoso. Na mitologia, Ulisses enfrenta momentos em que parece estar sozinho, contraste com nossa crença, pois com o auxílio do Espírito Santo sabemos que não estamos sós; temos proteção e sempre podemos continuar. Não hesitamos em acreditar. Sabemos muito bem em quem temos crido (2 Tm 1.12).

 

A grande aventura é voltar para casa

A grande aventura de Ulisses é voltar para casa. O caminho é repleto de monstros, como uma feiticeira, Circe, que transforma homens em porcos; as sereias de cano sedutor e fatal; o gigante de um olho só, Polifemo, vivendo numa caverna, rodeado de gigantes; tempestades perigosas; desafios intransponíveis. Mas o que tem a ver os relatos mitológicos com teologia? Filosoficamente, muito.

Homero teria vivido 800 anos a.C. Sua história foi precedida por cantos declamados e depois transmitida de forma oral. O relato bíblico da execução de Paulo, entre outros exemplos, guarda semelhança com Homero, que descreve Ulisses (Rapsódia X) pensando em enfrentar inimigo: “com minha grande espada devia decepar-lhe a cabeça e fazê-la rolar pelo solo”.

 

Uma nova exegese para a Odisseia

A mitologia é digna de uma nova exegese. Ulisses não usa a força, mas sim a inteligência, para transpor obstáculos. Usava mais a cabeça do que os músculos. Nós, com Deus, estamos capacitados a usar fé e astúcia para vencer o que parece impossível (Lc 18.27). Assim, podemos deduzir que os monstros, não necessariamente mitológicos, habitam dentro de nós em formas das mais desprezíveis.

Na nossa exegese diferente, podemos chamar a aventura de Ulisses como nosso trajeto interior. Genericamente, o pecado. Assim disse o Senhor: “o pecado jaz à porta, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.7). Os monstros metafóricos podem estar dentro de nós. São as forças internas, malignas, que precisam ser expulsas. Gênio do mal pode a nau tragar. O mar no furor das tempestades ou nas calmarias.  Vento. Sossegai. Ítaca pode representar a essência espiritual. Como Ulisses, queremos voltar para casa. É a casa onde Jesus, cuidadosamente, vai nos preparar bom lugar. Verdades da esperança, muito acima da razão.

 

Na nossa exegese diferente, podemos chamar a aventura de Ulisses como nosso trajeto interior.

 

Esses são alguns pontos da minha modesta exegese. Você pode ampliá-la, com pesquisa e estudo, pensando bem, fazendo a travessia não para Ítaca, mas para a morada celeste. Esta é uma decisão intransferível de cada um. Consultando as Escrituras, você vai perceber que temos grande heróis proféticos, superiores a seres mitológicos, que também fizeram grandes aventuras, enfrentaram perigosos desafios, desafiaram a morte, pagaram pela fé com a própria vida, conquistaram galardões e nos deixaram um legado impressionante. Jesus profetizado e revelado, construiu a ponte que nos conduz à eternidade.

 

Imagem: https://www.odysseymovie.com/gallery/ 
Foto de Percival de Souza

Percival de Souza

Jornalista e membro da 1ª IPI de São Paulo, SP.

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