“Choramos pelo que perdemos, mas agradecemos por tudo o que recebemos”

O Rev. Gerson Lacerda foi um mentor, pastor e companheiro de caminhada. É difícil imaginar várias áreas da IPIB, especialmente, “O Estandarte”, sem ele.

No silêncio pesado deste sábado, 27 de junho de 2026, a notícia da partida do Rev. Gerson Correia de Lacerda atravessou a igreja como um sino que dobra ao longe: todos entendem o som, mas o coração demora a acreditar. É difícil imaginar várias áreas da IPIB e, de modo muito especial, a história de “O Estandarte” sem pensar na contribuição e no trabalho firme e incansável desse pastor, que fez da pena, da palavra e da fidelidade à doutrina o seu ministério diário.

 

Mentor, pastor e companheiro de caminhada

Em janeiro de 1997, eu comecei a trabalhar na diagramação do nosso jornal “O Estandarte”, órgão oficial da IPIB, supervisionado na época pela AIC (Assessoria de Imprensa e Comunicação). Em julho do mesmo ano, o Rev. Gerson passou a integrar a equipe como revisor do jornal. Desde então, sempre trabalhamos juntos, lado a lado, compartilhando prazos, desafios, alegrias e aprendizados na comunicação da nossa igreja.

Em abril de 1999, o Rev. Gerson seguiu na revisão, mas agora também como novo diretor e editor de “O Estandarte”, função que ocupou até setembro de 2015. Em setembro de 2019, retornou como diretor, editor e revisor do jornal, trabalhando com afinco, acumulando ainda a função de Secretário Geral da diretoria da AG até 2023, e em “O Estandarte” até julho de 2025. Nesse longo percurso, foram produzidos 13 cadernos especiais e o Rev. Gerson assinou, como diretor e editor, ao menos 269 edições mensais de “O Estandarte”, quase 22 anos e meio de liderança editorial, distribuídos em dois períodos de profunda dedicação à comunicação da IPIB. Um número que, por si só, já seria um legado; mas, no caso dele, é também a expressão concreta de uma vida inteira entregue ao serviço da igreja.

Cada edição levava suas marcas: a precisão teológica, o zelo pela língua, o compromisso com a verdade e o amor à Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.

Para mim, o Rev. Gerson não foi apenas um colega de trabalho ou um superior hierárquico. Ele foi mentor, pastor e companheiro de caminhada. Em 2005, foi dele o convite para que eu assumisse a editoria da revista “Alvorada”, que depois se tornou a Revista “Vida&Caminho”. Eu confessei que tinha medo desse desafio, mas ele, com serenidade, me disse que eu era a pessoa mais apropriada para assumir a revista. Aquela missão, que parecia pesada, tornou‑se possível porque foi sustentada por Deus, pelo apoio da equipe e pelo companheirismo do Rev. Gerson, que, em todas as edições, esteve presente, não somente na revisão, mas também nos detalhes que muitas vezes me passavam despercebidos, mas jamais ao olhar cuidadoso dele, além do cuidado teológico que exercia com maestria.

 

“Você é fina, comigo vai tudo bijuteria”

Para o Rev. Gerson, o trabalho não tinha hora nem final de semana; a única pausa eram os dias de culto, dos quais ele participava rigorosamente. Ele foi um chefe exigente no cumprimento de prazos, zeloso pela constância. Não permitia que falhássemos na entrega do jornal ou da revista. Da hora em que chegava no escritório central até a hora em que ia embora para dar aulas na FATIPI, só víamos o Rev. Gerson trabalhando. E como ele escrevia… uma facilidade impressionante. Seus editoriais saíam em questão de minutos, quase sempre a última coisa que fazia, enquanto eu finalizava as revisões efetuadas por ele. Ao terminar, ele sempre dizia: “Hoje entregamos mais um jornal à nossa IPI”. E, sobre a revista Vida&Caminho, comentava com carinho: “Pode dormir tranquila que mais um filho foi entregue”.

Nestes três últimos anos, nossas mesas ficavam frente a frente, e duas vezes por semana nos encontrávamos. Ele gostava de compartilhar sobre os assuntos da igreja, estava sempre muito atualizado sobre o que acontecia, sempre pronto para os desafios de comunicar à igreja. Às tardes em que o Rev. Éber Ferreira Lima, curador do MAH, subia ao nosso andar, eram verdadeiras aulas de história. Como o Rev. Gerson conhecia a igreja! E o bom humor? Gostava das anedotas: sempre, antes de começarmos uma reunião de pauta, ele tinha uma pérola para contar. Entendia como deixar o ambiente descontraído e, ao mesmo tempo, sabia como cobrar as responsabilidades.

Pessoalmente, posso dizer que ele facilitava nossa vida por ser um poço de conhecimento e ter uma excelente memória. Sentiremos saudades da pessoa conciliadora e respeitosa que foi o pastor e querido Gerson. Em nossos cumprimentos, quando ele perguntava como eu estava e eu respondia que estava tudo joia, ele retrucava: “Você é fina, comigo vai tudo bijuteria.” Sempre teve interesse pela situação da minha família e gostava das kombuchas que eu levava.

 

Vazio profundo

A notícia de sua morte abre em nós um vazio profundo. Perde a família, que sente a ausência insubstituível do marido, pai, avô. Perde a igreja, que fica sem um de seus servos mais dedicados, alguém que compreendeu a importância da comunicação para a missão e, ao longo de décadas, anunciou o evangelho por meio de letras, linhas, colunas e editoriais. Perde nossa equipe, que se vê sem o olhar atento que corrigia textos e intenções, sem a mão firme que guiava processos, sem o amigo que transformava o trabalho em vocação compartilhada.

Entretanto, em meio às lágrimas, a fé que ele tão cuidadosamente defendeu e explicou em tantos textos nos impede de desesperar. O Rev. Gerson viveu e morreu guardado pela mesma doutrina que ajudou a divulgar: a justificação pela graça, mediante a fé em Cristo. Crendo nisso, não falamos de um fim, mas de uma passagem. Aquele que tantas vezes escreveu sobre a esperança cristã agora a contempla em plenitude. O Cristo que ele anunciava dos púlpitos e das páginas o recebeu, não como um funcionário que cumpriu tarefas, mas como um filho amado que combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé.

 

Choramos pelo que perdemos, mas agradecemos por tudo o que recebemos

Nossa tristeza é real, e precisa ser vivida. Choramos pelo que perdemos, mas agradecemos por tudo o que recebemos por meio da vida e do ministério do Rev. Gerson Correia de Lacerda. Sua história continua em cada pastor que ele inspirou, em cada estudante que ouviu suas aulas, em cada irmão e irmã que leu um editorial e foi consolado, confrontado ou encorajado. Continua em cada edição de “O Estandarte”, da “Alvorada!, da “Vida&Caminho”, e tantos outros materiais que foram produzidos com a marca de sua dedicação.

Fica a saudade. Fica também o compromisso de honrar seu legado: trabalhar com seriedade, amar a igreja, valorizar a pregação e a Palavra, cuidar da teologia, tratar as pessoas com respeito e paciência, e nunca esquecer que comunicar é servir. Enquanto seguimos aqui, entre prazos, reuniões e novos desafios, sustentados pela graça do mesmo Deus que o sustentou, guardamos a certeza de que este adeus é apenas parcial.

Um dia, pela misericórdia de Cristo, haverá reencontro. Lá, onde não haverá mais dor, cansaço, fechamento de edição, revisão de última hora ou despedidas. Lá, onde toda palavra será perfeita e definitiva, nos uniremos de novo para adorar Aquele a quem o Rev. Gerson dedicou sua mente, seu coração e sua escrita. Até esse dia, seguimos em frente, com os olhos marejados, mas cheios de esperança, repetindo em gratidão:

Obrigado, Senhor, pelo Rev. Gerson Correia de Lacerda!

E obrigado, Rev. Gerson, por ter colocado sua vida a serviço do Reino, da Igreja e da comunicação do evangelho.

Foto de Sheila Amorim

Sheila Amorim

Jornalista e gestora da agência Vida&Caminho. Membro da IPI de Cidade Patriarca, São Paulo, SP

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