“A criação é obra da humildade divina. A paixão do amor é em si mesma o mais elevado trabalho divino”.
(Jürgen Moltmann)
O trabalho já foi vítima de muito preconceito e injustiça. A própria etimologia da palavra indica nossa dificuldade com ela: “trabalho” vem do latim “trepalium”, que sugere “instrumento de tortura ou castigo pesado”. Uma estranha “teologia” identifica o pecado como razão da nossa necessidade de trabalhar, conquanto o texto bíblico seja claro ao afirmar que o cansaço e a adversidade no trabalho é que surgem como consequência de nossa desgraça.
Jesus é autor de uma das afirmações bíblicas mais categóricas e emblemáticas sobre o tema: “meu Pai trabalha até hoje e eu trabalho também” (João 5.17). Ele nos ensinou que o trabalho compõe a relação de Deus com a criação e que quem trabalha colabora com Deus na transformação da realidade. O trabalho não é tortura ou castigo, mas oportunidade e privilégio. Eugene Peterson escreveu que “o trabalho é o contexto básico da nossa espiritualidade e nossa participação ungida pelo Espírito na obra de Deus”. Quem trabalha coopera com Deus na ordenação do caos que ameaça a vida.
Dessa descoberta, decorrem duas grandes verdades:
1. Trabalhar é amar e servir
Se o Pai trabalha e Jesus também trabalha, a decisão pelo trabalho por parte do ser humano não é mais que uma resposta ao chamado de Deus para engrossar as fileiras da luta pela vida em toda a sua plenitude. Esta resposta, por sua vez, revela-se compromisso com o Criador, a criação e a criatura, pois nada tem a ver com as demandas egoístas por resultados ou produtividade predadora. Quem responde a Deus apresenta-se como servo diante da criação e das criaturas em favor de quem Ele mesmo trabalha até hoje. E também trabalha por amor, pois amor e serviço são indissociáveis.
Quem responde a Deus, trabalha por amor, pois amor e serviço são indissociáveis.
Vencidas, então, a arrogância do trabalho em nome dos próprios interesses e a violência de quem explora o meio ou o próximo para conquistar resultados mesquinhos e egoístas, o trabalho surge como espaço para a atuação no mundo em nome de Cristo, no poder do Espírito e para a glória de Deus. Ninguém é melhor do que ninguém, pois toda capacitação vem do alto e se manifesta em abundância de dons espirituais, os quais se complementam nos relacionamentos de amor que celebramos no Corpo do Senhor.
Portanto, excelente no trabalho é todo aquele que, consciente de sua vocação, firma compromisso com Deus e, na força que vem Dele, cumpre sua missão de fazer do mundo um lugar melhor. Até que venha o Reino e seja feita aqui aquela vontade que rege o céu.
2. Trabalhar é obedecer e testemunhar
Deus fez o homem e o colocou no jardim para que o cultivasse e guardasse. Deus chamou Noé e mandou que construísse uma arca. Deus orientou Moisés a contar com o trabalho de artífices, carpinteiros e tapeceiros na construção do Tabernáculo. O mesmo foi ordenado a Salomão. Enfim, a história da salvação não foi escrita apenas com a participação sacerdotes e profetas, mas com a contribuição de todos que compreenderam que suas profissões eram instrumentos a serviço do Senhor.
A história da salvação não foi escrita apenas com a participação sacerdotes e profetas, mas com a contribuição de todos que compreenderam que suas profissões eram instrumentos a serviço do Senhor.
Veja o exemplo do apóstolo Paulo:
Depois disso Paulo saiu de Atenas e foi para Corinto. Ali, encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que havia chegado recentemente da Itália com Priscila, sua mulher, pois Cláudio havia ordenado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo foi vê-los e, uma vez que tinham a mesma profissão, ficou morando e trabalhando com eles, pois eram fabricantes de tendas. Todos os sábados ele debatia na sinagoga, e convencia judeus e gregos (Atos 18.1-4).
E ainda:
Irmãos, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo nós lhes ordenamos que se afastem de todo irmão que vive ociosamente e não conforme a tradição que vocês receberam de nós. Pois vocês mesmos sabem como devem seguir o nosso exemplo, porque não vivemos ociosamente quando estivemos entre vocês, nem comemos coisa alguma à custa de ninguém. Ao contrário, trabalhamos arduamente e com fadiga, dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vocês, não por que não tivéssemos tal direito, mas para que nos tornássemos um modelo para ser imitado por vocês. Quando ainda estávamos com vocês, nós lhes ordenamos isto: Se alguém não quiser trabalhar, também não coma (2 Tessalonicenses 3:6-10).
O cristianismo restaura a dignidade do trabalho e faz do trabalhador um cooperador com Deus para ordenar o mundo e abençoar as pessoas. Um cristão não foge ao trabalho, mas o realiza com excelência, alegria e gratidão pelo privilégio de fazer a diferença num mundo de gente que trabalha na lógica da mediocridade.
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Nota do Editor:
Este artigo foi publicado, originalmente, no livro “O Caminho da Excelência” (cap. 11), com o título “Excelência e Trabalho”, recém-lançado pela Editora Vida & Caminho.







