Quem tem medo de Teologia Sistemática?

Começa nesta 2ª feira (19) o 4º Congresso de Teologia da FATIPI, com o tema “Teologia Sistemática: Confissão que pensa, Igreja que serve, Esperança que permanece”.

“É possível sistematizar a Teologia?”, alguns podem questionar. Mas o fato é que “a Teologia Sistemática, ao longo da história cristã, tornou-se mais do que o esforço de organizar doutrinas: ela é a expressão madura de uma fé que busca compreender, confessar e viver o Deus que se revela”, lembra o prof° Marcos Nunes, diretor da FATIPI.

Para aprofundar e equilibrar essa reflexão, a FATIPI realiza na semana que vem (19 a 22 de outubro) seu 4º Congresso Internacional de Teologia, cujo tema deste ano é “Teologia Sistemática: Confissão que pensa, Igreja que serve, Esperança que permanece”.

Distribuído entre três palestras, seis oficinas e cinco lançamentos de livros, o evento promoverá diálogos acadêmicos de algo nível para proporcionar uma reflexão que seja crítica, mas que traga edificação para o povo de Deus. “Pensar é um ato de fé e de obediência”, sintetiza Nunes [confira entrevista ao final].

 

Preletores e oficinas

O congresso contará com a participação do Prof. Dr. David Roldán, preletor convidado. Ele é Doutor em Teologia (PhD) pelo Seminário Teológico da África do Sul; Bacharelado em Teologia pelo ISEDET e pela Universidade Evangélica das Américas (Costa Rica), e doutorado em Filosofia pela Universidade de Morón. Atualmente é deão do Instituto Teológico FIET, onde leciona há mais de 24 anos. David é membro da Igreja Metodista em Buenos Aires.

Além do preletor internacional, o congresso terá a participação de professores que conduzirão oficinas sobre temas relevantes para a fé, a Igreja e a sociedade:

  • Confissão que pensa – O diálogo entre Fé e Razão (Prof. Dr. Julio Zabatiero)
  • Igreja que serve – A teologia pública em Dietrich Bonhoeffer (Prof. Dr. Carlos Caldas)
  • Esperança que permanece – A teologia da esperança em Moltmann (Prof. Me. Reginaldo von Zuben)
  • O fazer teológico: repensando a função da teologia na e para a igreja (Prof. Dr. Cleber Diniz)
  • Teologia viva – Análise crítica da dogmática eclesiástica de Karl Barth (Prof. Dr. Silas Barbosa)
  • Teologia do cuidado – Aconselhamento em tempos de crise (Profa. Dra. Blanches de Paula)

 

Como participar?

O Congresso oferece participação em duas modalidades: presencial e online. Para quem deseja estar presencialmente, o endereço é o auditório Presb. Heitor Pires de Barbosa Junior, na FATIPI (Rua Genebra, 180 Bela – Vista São Paulo, SP). Você também pode acompanhar, em tempo real, quase toda a programação pelo Youtube da FATIPI (apenas duas oficinas serão transmitidas ao vivo; as demais serão gravadas e disponibilizadas posteriormente). Para participar ou acompanhar, é preciso antes fazer sua inscrição gratuitamente aqui até o dia 19 (segunda-feira).

 

 AS INSCRIÇÕES SÃO GRATUITAS!

 

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CONFIRA A SEGUIR A ENTREVISTA COM O PROF° MARCOS NUNES, DIRETOR DA FATIPI:

 

O ESTANDARTE – O tema principal do Congresso é a teologia sistemática. Muito já se criticou a Teologia Sistemática por concluir que ela é “engessada” e “reducionista”. Por que ela ainda é tão importante para a academia, a igreja e a sociedade?

Prof° Marcos Nunes, diretor da FATIPI.

Prof° Marcos Nunes: A Teologia Sistemática, ao longo da história cristã, tornou-se mais do que o esforço de organizar doutrinas: ela é a expressão madura de uma fé que busca compreender, confessar e viver o Deus que se revela. Não se trata apenas de um exercício intelectual, mas de um caminho no qual a Igreja afirma sua identidade, molda sua prática e sustenta sua esperança. O tema do congresso mostra três eixos que se entrelaçam e sustentam sua pertinência: uma confissão que pensa, uma Igreja que serve e uma esperança que permanece.

O ESTANDARTE – O preletor principal será o Prof. Dr. David Roldán. Além do currículo acadêmico relevante que ele tem, qual a sua expectativa para a contribuição do Dr. Roldán, considerando nosso contexto nacional e sul-americano?

Prof° Marcos Nunes: Minha expectativa é que nos traga uma reflexão profunda sobre a teologia sistemática na prática, quebrando com o preconceito em torno dela. Toda confissão cristã nasce de um encontro com Deus, mas só se torna confissão duradoura quando é refletida, articulada e discernida à luz das Escrituras. Mostrar que “confissão que pensa” é aquela que não repete mecanicamente fórmulas do passado, mas as compreende, as interpreta e as atualiza no presente. Assim, a Teologia Sistemática assume sua vocação: pensar a fé para confessá-la com responsabilidade. Essa reflexão envolve: a) Leitura atenta da Escritura, reconhecendo-a como a regra de fé e prática; b) Diálogo com a tradição, que preserva a memória da ação de Deus ao longo dos séculos; c) Escuta honesta da realidade, porque a fé não paira sobre o mundo, mas fala dentro dele.

 

A Teologia Sistemática assume sua vocação: pensar a fé para confessá-la com responsabilidade.

 

O ESTANDARTE – Também teremos seis oficinas com temas bem interessantes. Pelo que podemos perceber, são temas acadêmicos, mas bem aplicáveis à vida da igreja local, correto?

Prof° Marcos Nunes: Sim, as oficinas têm sido um momento muito importante em nossos congressos. Temos o tema principal e as oficinas são os desdobramentos do tema, conduzindo a igreja à reflexão sobre áreas importantes para o seu agir no mundo.

Nesse congresso teremos seis oficinas:

1) Confissão que pensa – O diálogo entre Fé e Razão: Prof. Dr. Julio Zabatiero (FATIPI) – o objetivo é retomar essa trajetória da tradição reformada e, a partir da Escritura e de teólogos reformados, dialogar com representantes da razão no século XXI, mostrando que fé e razão não são concorrentes, mas diferentes aspectos do dom criador de Deus à humanidade: ter sido criada à Sua imagem e semelhança.

2) Igreja que serve – A teologia pública em Dietrich Bonhoeffer: Prof. Dr. Carlos Caldas (PUC/MG) – Essa oficina contextualizará a vida de Dietrich Bonhoeffer (1906–1945), destacando que sua teologia não nasceu em gabinetes acadêmicos isolados, mas na resistência prática contra o regime nazista de Adolf Hitler. Irá demonstrar como o pensamento de Bonhoeffer antecipou o que hoje chamamos de Teologia Pública e explorará como a fé cristã não pode ficar restrita à esfera privada ou individualista, mas tem uma responsabilidade inerente com a pólis (a esfera pública), com a justiça social e com a defesa dos vulneráveis.

3) Esperança que permanece – A teologia da esperança em Moltmann: Prof. Me. Reginaldo Von Zuben (FATIPI) – Jürgen Moltmann teve sua experiência de conversão marcada pela fé e sobretudo pela esperança em Deus. Em meio aos horrores da Segunda Guerra Mundial, tomado por profunda angústia e desespero, na leitura das Sagradas Escrituras, ele se identifica com o Cristo crucificado e se rende ao evangelho. A esperança em Deus, a partir do Cristo crucificado e ressurreto, é marca central do seu pensamento e prática teológica.

4) O fazer teológico: repensando a função da teologia na e para a igreja: Prof. Dr. Cleber Diniz (FATIPI) – Esta oficina propõe-se a expor os pontos fundamentais da elaboração teológica partindo dos pressupostos que esse trabalho exige. Ela apresentará os fundamentos, fontes e processos que tradicionalmente compõe o fazer teológico. Ela trabalhará também com o que é afirmado no campo da confessionalidade doutrinária. E, apresentará um desafio que retoma a premissa “ecclesia reformata et semper reformanda est” como elemento fundamental para uma teologia viva, inteligível e relevante para a vida e ministério da igreja no mundo.

5) Teologia viva – Análise crítica da dogmática eclesiástica de Karl Barth: Prof. Dr. Silas Barbosa (Unifil/PR) – Nesta oficina percorreremos os eixos estruturantes da Dogmática Eclesiástica barthiana — não como arqueólogos de conceitos, mas como agentes que interrogam seriamente o que significa fazer teologia no século XXI. Barth nos impõe três desafios irrecusáveis: a soberania absoluta da Palavra de Deus sobre toda especulação humana; a concentração cristológica como único critério hermenêutico legítimo; e a graça como o fundamento último — e primeiro — de toda existência e de toda história.

6) Teologia do cuidado – Aconselhamento em tempos de crise: Profa. Dra. Blanches de Paula (Italo Brasileiro, Faesp e Fabad) e Prof. Dr. Esny Cerene (FATIPI) – A oficina abordará a importância do aconselhamento pastoral e sua contribuição para a saúde emocional e vivência da espiritualidade frente aos dilemas da vida. Essa importância se dá mediante o reconhecimento de que o sofrimento está presente na dinâmica humana e de que o aconselhamento pastoral pode se apresentar como um caminho de cuidado integral do ser humano nos seus mais diversos contextos vivenciais.

O ESTANDARTE – O que você espera que aconteça durante e após o congresso deste ano?

Prof° Marcos Nunes: Quando pensamos num congresso, nosso desejo é de alimentar a igreja com uma reflexão que seja crítica, pois não é “mais do mesmo”, mas que traga edificação para o povo de Deus. Uma igreja que pensa é uma igreja que não se deixa enganar com modismos, ideologias e heresias. A confissão cristã não teme o pensamento. Pelo contrário, ela o convoca, pois, pensar é um ato de fé e de obediência. Como ensinava Anselmo, a teologia é fides quaerens intellectum, ou seja, a fé que busca entendimento. Nesse sentido, uma confissão que pensa evita tanto o fideísmo ingênuo quanto o racionalismo estéril. Ela abraça a profundidade da verdade revelada, permitindo que a Igreja confesse, com humildade e firmeza, aquilo que recebeu do Senhor.

O ESTANDARTE – Este será o quarto congresso de teologia da FATIPI. Por favor, faça um breve balanço dos eventos até aqui. Quais as contribuições alcançadas com este congresso nos quatro anos?

Prof° Marcos Nunes: Todos os congressos foram pensados por áreas da teologia:

  • 2023 | 1º Congresso Internacional: Tema: “Os Desafios Éticos e Teológicos das Novas TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação. Como a Igreja deve agir nesse mundo em que as tecnologias se desenvolvem num ritmo frenético e que precisamos, a luz da Palavra de Deus, responder a esses desafios.
  • 2024 | 2º Congresso Internacional: Tema: “A Relevância das Escrituras no Século XXI.” A Bíblia é nossa regra de fé e prática, portanto, ela é fundamental no fazer teológico, dai a necessidade de conhecê-la, mas refletir sobre a sua importância e atualidade para a nossa sociedade.
  • 2025 | 3º Congresso Internacional: Tema: “Teologia e História – Encontros e Desencontros do Século XIX até à atualidade”. Em um mundo pós-moderno e plural, onde a verdade é muitas vezes relativizada e a fé privada ao espaço íntimo, a teologia precisa dialogar com a história sem perder sua identidade. A hermenêutica contemporânea, as novas abordagens interdisciplinares e os estudos culturais oferecem pontes, mas também exigem da teologia humildade, escuta e disposição para a autocrítica. Em suma, os encontros e desencontros entre Teologia e História, do século XIX até hoje, revelam uma relação dinâmica, em constante transformação.

Se, por um lado, a história desafia a teologia a se repensar, por outro, a teologia continua a oferecer à história uma perspectiva de sentido, transcendência e esperança. Esse diálogo, ainda que tenso, é necessário, e profundamente fecundo.

O ESTANDARTE – Para terminar, o Congresso terá um capítulo à parte (perdão pelo trocadilho): o lançamento de cinco livros, certo?  E recentemente, a FATIPI já lançou “A Menina dos Olhos da Igreja”, obra que percorre 120 anos de educação teológica da IPIB. Qual a importância de transformar reflexões acadêmicas em livros disponíveis para toda a comunidade?

Prof° Marcos Nunes: Socializar o conhecimento é tarefa do fazer teológico. Precisamos, cada vez mais, incentivar o nosso povo a ler mais e a consumir literatura idônea, que faça pensar e crescer. A igreja precisa, fazendo um trocadilho com o apóstolo Paulo, passar do leite para um alimento mais substancioso, ou seja, amadurecer no entendimento da Palavra de Deus. Nesse sentido, a parceria com a Editora Vida & Caminho é fundamental para que essa tarefa seja cumprida, para honra e glória de Deus.

Por isso, teremos o lançamento de cinco livros durante o congresso:

  • Dia 19/10 – Da Pós-modernidade à Era dos Algoritmos – Revs. Marcos Camilo e Jean Selleti e A Música na Reforma Protestante – Robson Santos (Hinologia Cristã);
  • Dia 21/10 – Crônicas e Pensamentos – Miss. Marcos Oliveira e Protestantes em Confronto – Prof. Éber Ferreira
  • Dia 22/10 – A Revelação de Deus e a Ação Histórica – Prof. David Roldán (Preletor do Congresso)

 

Concluindo: A teologia nos leva a servir a Deus e às pessoas. O serviço não é um apêndice da teologia, é a expressão concreta daquilo que se crê. Na teologia sistemática: A doutrina da graça inspira misericórdia; a doutrina da criação desperta cuidado; a doutrina da cruz revela o caminho da doação; a doutrina da esperança gera perseverança no bem. Assim, uma teologia que não conduz ao serviço é estéril; uma Igreja que não serve torna sua confissão vazia.

Esperamos a todos e todas no 4º Congresso Internacional de Teologia da FATIPI!

 

_________

Serviço:

  • 4° Congresso Internacional de Teologia da FATIPI.
  • Tema: Teologia Sistemática: Confissão que pensa, Igreja que serve, Esperança que permanece.
  • Data: 19 a 22 de outubro de 2026.
  • Local: FATIPI – Rua Genebra, 180, Bela Vista – São Paulo.
  • Inscrições (presencial ou online): AQUI

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