O final do mês, 31, é data especial para nós. Uma virada, mudança de rumo. Lutero não poderia imaginar que, no futuro, ela seria necessária novamente.
Martinho Lutero escreveu 95 teses, afixadas num lugar que todos pudessem ler. O impacto foi determinante para uma ruptura fundamental na história cristã. Não foi fácil para o então monge agostiniano escrevê-las e depois assumir a autoria, enfrentando difíceis obstáculos.
“Coragem, irmãos!”
“Coragem, irmãos!”, escreveu o apóstolo Paulo (At 23.11). A coragem tinha forte identificação de Lutero: consciência. O lampejo divino, clarão, centelha, faísca que sinaliza nosso conteúdo interior, indicando o que está certo ou errado naquilo que praticamos, individual ou coletivamente. Não se pretende dizer onde está a consciência em termos corporais e sim nas nossas reações, comportamentos, impulsos e atitudes.
Lutero foi confrontado por um verdadeiro tribunal, formado por nobres e eclesiásticos, uma espécie de concílio ou assembleia da época, que se chamava Dieta de Horms. Ela pretendia ser alimento espiritual com dieta rigorosa. Uma condenação por heresia seria fatal. Exatamente aqui, mesclando conhecimento (ele era doutor em teologia moral) com fé profunda, não vacilou.
“Revoga o que disse?” – arguiram.
A resposta incisiva foi uma lição, verdadeira cláusula pétrea cristã:
“Não revogarei uma letra sequer”.
Depois, uma afirmação irrevogável:
“Não é seguro para o cristão agir contra a consciência”.
Desafiador, deixou claro: tudo o que estava afirmando tinha fundamentação nas Escrituras. Sola Scriptura. Era um homem de fé. Sola Fide. Só mudaria de opinião se fosse desmentido pela Bíblia. Impossível.
A Igreja romana vivia fase turbulenta, longe dos ensinamentos bíblicos de Jesus. Preferia colocar no altar o comercialismo vergonhoso das indulgências e outras práticas inaceitáveis. Nós recebemos um legado teológico e sabemos muito bem o que reformado quer dizer. Forte significado, expressão de fé, práticas condizentes com o cristianismo e busca persistente da pureza do Evangelho. Os tempos de Lutero são nossos tempos também, na carência de reformas, em sentido amplo, eficientes para a sociedade. Carentes no plural porque estamos assistindo ao que se passa em nosso país, necessitado de várias reformas, como no Judiciário, processual, trabalhista, tributária, fiscal, eleições e outras que são características do sistema atual. Acrescente-se: urgente reforma moral.
A visão de Ezequiel
A Bíblia, da qual Lutero jamais abriu mão, revela como podemos agir e observar a tudo com consciência. Falando aos sofredores exilados na Babilônia, o profeta Ezequiel (capítulo 37) descreve um horrível vale de ossos secos. Destaca no versículo 11: “nossos ossos secaram e pereceu a nossa esperança”. Parece até que escrevia para brasileiros de hoje. O Senhor disse a ele, na assustadora visão, que os ossos ouvissem a Sua Palavra (v. 4 e 5) para viver. Assim foi. Igual a nós, cativos da falta de consciência, moral e cívica, famintos de esperança, num deserto moral no qual fomos mergulhados, vivendo exatamente a situação que o profeta ensinou: é possível – mas com Deus – uma restauração nacional. Assim disse o Senhor para o profeta. E fez.
O exílio teve fim, apesar do encapelado mar de lama e corrupção, imoralidades, orgias de sodomia e ataques ao Erário. Ainda é possível a restauração moral, desde que reverentes ao Senhor. Jesus fez referência explícita aos atos de fariseus e hipócritas, como os de hoje no Brasil: vocês são iguais aos sepulcros caiados, belos por fora, mas por dentro cheios de ossos e toda imundícia (Mt 23.27).
A LITERATURA E NÓS – O escritor Érico Veríssimo adota o estilo da denúncia contra a corrupção no seu livro “Incidente em Antares”, contando sobre uma greve de coveiros que deixa cadáveres insepultos. Indignados, eles se levantam em procissão, gritando contra malfeitos locais e reivindicando o direito às suas tumbas. Formato de escrita parecido com o utilizado pelo filósofo grego Platão: o pastor Giges encontra misterioso anel, que lhe confere o poder de se tornar invisível. Assim ninguém ficaria sabendo o que faz. Garantia absoluta da impunidade. Como os sem o anel, bem visíveis por aqui.
A imoralidade humana não tem limites. Cadáveres insepultos cheiram mal por toda parte. Reformado adquire tom de inconformismo aos cadáveres. Nosso desafio é tirar o cisco dos olhos da alma e enfrentar corajosamente a questão de baixo e não de cima (Cl 3:2). Somos peregrinos nesse vale, que pode ter ossos secos, mortos-vivos e lágrimas. Mas fazemos conscientes a nossa parte, como reformados, pois não é seguro, para o cristão, agir de outra maneira.
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