Não vos conformeis com este mundo de exaustão!

Se Jesus nos promete uma vida de bem-estar, por que insistimos nesta vida acelerada? Como cristãos, jamais permitiremos que o mundo nos dite o estilo de vida.

Em Romanos, capítulo 12, o apóstolo Paulo nos chama à renovação da nossa mente e apela que não nos conformemos com este mundo. E esta vem sendo uma discussão que perpassa os séculos: quais são as características do mundo que precisamos repelir e que não podemos “tomar forma”.

 

A exaustão é a tônica do nosso tempo

Vivemos num mundo tecnológico, que tem acumulado avanços a cada dia, mas que, indiscutivelmente, tem adoecido as pessoas por exaustão. Aliás, a exaustão é a tônica do nosso tempo. Com a exaustão vêm as doenças da mente e do corpo, as dificuldades nos relacionamentos e a solidão.

Segundo o filósofo coreano Byung-Chul Han, em seu livro “A Sociedade do Cansaço”, a exaustão é um símbolo dos nossos dias, pois vivemos numa sociedade que cobra desempenho de todos, o tempo todo.

No entanto, este sistema atual da nossa sociedade vai de encontro aos princípios cristãos, pois, quando somos capturados por ela, deixamos de experimentar a paz que deve prevalecer em nós, que deve brotar dentro de cada um como um dos legados de Cristo. A exaustão como uma expressão do nosso mundo moderno é um fenômeno que nos leva a tomarmos a “forma” do mundo: todos estamos “conformados” a ela.

 

Que mal há em estar sempre ocupado?

O pastor americano Kevin DeYoung, no livro “Super ocupado – Um livro (misericordiosamente) pequeno sobre um problema (realmente) grande”, levanta a questão sob a perspectiva cristã e promove uma discussão muito pertinente quando diz:

“Todo mundo anda ocupado do mesmo jeito. Quer você seja pastor, pai ou mãe ou pediatra, é possível que lute com o peso esmagador de equilibrar o trabalho, a família, exercícios, contas, igreja, estudos, amigos e uma infinidade de exigências, pedidos e desejos. Sem dúvida, algumas pessoas estão quantitativamente menos ocupadas que outras, e algumas muito mais, mas isso não muda a experiência compartilhada: quase todo mundo que conheço se sente exausto e esmagado pelos compromissos, na maior parte do tempo”.

No decorrer do texto, DeYoung discute de maneira muito oportuna os muitos prejuízos que temos quando nos mantemos tão ocupados, especialmente em termos espirituais. Ele argumenta que este estado que vivemos nos prejudica espiritualmente de muitas maneiras, e dentre os riscos que corremos está a perda da nossa capacidade de experimentar alegria e a possibilidade de nos desconectarmos de Deus com muita facilidade.

O psicólogo e escritor Alexandre Coimbra Amaral, em seu livro “A exaustão no topo da montanha – Uma jornada de reconexão com outros ritmos da vida e com o que é essencial”, de maneira muito descontraída e bem-humorada e apresenta a exaustão de forma lúdica, como se a exaustão fosse uma pessoa íntima nossa:

“Vou aparecendo de mansinho, como uma sombra fina que não deixa rastros tão aparentes. Mas como o seu mundo gira a meu favor, minha presença vai se transformando na protagonista dos seus dias. Isso o deixa em perplexidade, incerto sobre como isso pode ter acontecido. Vejo a sua resistência em acreditar que pode ter se rendido tão cegamente aos meus encantos”.

Amaral denuncia um tempo que é marcado pelas exigências de performance e de engajamento que tem nos consumido. Todos nós fomos embrulhados no manto da exaustão e aprendemos, inclusive, a valorizá-la e cultuá-la: quem não se sente cansado em nossos dias é julgado como aquele que tem problemas com a performance, como alguém de menor valor.

É preciso perceber que, de forma sorrateira, sem notarmos, todos fomos cooptados, aliciados por um modo de vida próprio do nosso tempo, que nos perturba, nos adoece e que não agrada a Deus. No ritmo que vivemos, nós nos perdemos nos relacionamentos e passamos a correr sem destino, sem rumo, despendendo energia e deixando pelo caminho a nossa saúde, o nosso contentamento e a nossa possibilidade de realização como filhos de Deus.

 

No ritmo que vivemos, nós nos perdemos nos relacionamentos e passamos a correr sem destino.

 

Um convite ao descanso

Em Mateus 11:28-30, Jesus nos chama ao descanso e a uma vida de bem-estar, utilizando as seguintes palavras:

— Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso. Sejam meus seguidores e aprendam comigo porque sou bondoso e tenho um coração humilde; e vocês encontrarão descanso. Os deveres que eu exijo de vocês são fáceis, e a carga que eu ponho sobre vocês é leve.

Se Jesus nos promete uma vida de bem-estar, por que insistimos na vida acelerada do mundo? Bem-estar envolve uma vida que nos permita apreciar as coisas boas ao nosso redor, usufruir da comunhão com Deus que está sempre ao nosso lado, dormir e descansar de forma plena e planejar uma jornada prazerosa com aqueles que estão ao nosso lado. Com a exaustão, perdemos tudo isso e, como se tivéssemos entrado num carrinho de uma grande “montanha russa”, vemos tudo passar tão rapidamente ao nosso redor, sem desfrutarmos da beleza da paisagem e do prazer do momento.

Mas, nas palavras de Amaral, “nunca perdemos a liberdade de escolher novas formas de nos relacionarmos com os elementos mais intrínsecos da vida”, e, como cristãos, jamais permitiremos que o mundo nos embrulhe, nos conforme, nos dite o estilo de vida.

Como um exercício de reflexão e autoconhecimento, experimente parar um pouco para pensar a respeito do seu cansaço e exaustão, o quanto ele tem prejudicado sua saúde física, seus relacionamentos e sua espiritualidade. Nas palavras do apóstolo Paulo, “não nos conformemos com este mundo!”.

 

 

Imagem do topo: magnific.com
Foto de Rev. Esny Cerene Soares

Rev. Esny Cerene Soares

Pastor da IPI do Brasil, teólogo, psicólogo e advogado. Mestre em Ciências da Religião pela UMESP e Doutor em Psicologia pela USP. Atualmente é professor na FATIPI, onde também exerce a função de Coordenador de Pós-graduação, pesquisa e extensão. Desde 2002, é pastor da IPI de Vila dom Pedro I. Casado com Rosemeire, tem três filhos: Bruno, Breno e Bianca. Contato: esny@terra.com.br

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