Que igreja queremos para as crianças?

#SomosTodosDiscípulos – Elas têm oportunidade em nossas igrejas para fazer suas perguntas mais sinceras? Uma perspectiva da Secretaria Nacional das Crianças.

 

Da série “Que IPIB queremos construir?”

 

Minha filha mais nova completou 4 anos há poucos meses. Temos tido conversas que eu não esperaria iniciar com uma criança tão pequena, agora. Falamos sobre morte, sobre o céu, sobre o tempo de Deus… e teve um momento em que ela até chorou porque não queria ir para céu e deixar seus bichinhos. São conversas profundas, cheia de questionamentos, mas sem o distanciamento do que é importante: Jesus. Em pouco tempo, avançamos em temas que até muitos adultos evitariam.

Em meio a medos e dúvidas, perguntas simples sobre se Jesus ouve os louvores, e se ele ouve música. Eu disse: “imagina só! Jesus não tem tempo de ouvir música de celular, porque Ele tem o privilégio de ouvir os louvores das crianças, pois nosso mundo é grande, cada hora uma criança pode estar cantando, não é?”. Ela parou e pensou. Hoje ela me olhou e disse: “Jesus é meu amigo, né mamãe?”.

Meu coração se enche de alegria com estas perguntas, porque eu sei que não sou eu, mas sim o Espírito Santo agindo na vida da minha pequena. Trago esses diálogos e a curiosidade genuína de uma criança na primeira infância para abrir esta reflexão: nossas crianças têm oportunidade em nossas igrejas para fazer suas perguntas mais sinceras? Estamos criando espaços de experiência para florescer esta curiosidade genuína, sem bloquear as possibilidades da imaginação?

Charles Spurgeon, em seu livro “Pescadores de Crianças”, afirma:

“A capacidade de crer se acha mais na criança do que no adulto (…) nenhum terreno está mais bem preparado para a boa semente do que aquele que ainda não foi pisado e endurecido como a estrada, nem ficou cheio de mato e espinhos”.

 

A janela que não podemos deixar fechar

Existe um dado missiológico que deveria transformar a forma como cada igreja olha para o seu ministério infantil: a grande maioria das pessoas que entregarão suas vidas a Cristo o farão entre os 4 e os 14 anos. Essa faixa etária ficou conhecida como a “janela 4×14”, uma janela especial de receptividade espiritual. Agora pensem neste recorte e cruzem com um dado alarmante apresentado em nosso último censo: 21% das nossas igrejas não possuem ministério de crianças, e parte das que possuem atividades para crianças não têm uma liderança que organize e apoio à estrutura da igreja.

O período em que uma criança está no ministério infantil, nas mãos dos líderes da nossa igreja, é provavelmente o mais decisivo de toda a sua jornada de fé. Depois disso, a janela não fecha, mas se estreita. Será que estamos dando a atenção devida às nossas crianças?

 

Nossas igrejas estão envelhecendo

Celebramos 123 anos. É motivo de gratidão. Mas é preciso olhar com honestidade: nossas igrejas estão envelhecendo. Congregações que tinham salas cheias de crianças hoje encontram dificuldade em formar turmas. Os ministérios têm problemas para engajar voluntários e, às vezes, a mesma pessoa tem servido por 20 anos, com todo amor e carinho, mas já está cansada e desmotivada. Este não é um desafio somente para aqueles que estão na linha de frente do trabalho com as crianças, mas para toda a nossa igreja. Precisamos nos comprometer com as nossas crianças.

Não digo isso para desmotivar, mas para acender esperança. Se a “janela 4×14” é real — e a história missionária confirma que é —, o investimento intencional no ministério com crianças não é apenas cuidado pastoral. É uma das apostas mais poderosas de renovação que uma igreja pode fazer.

 

O ministério infantil é uma das apostas mais poderosas de renovação que uma igreja pode fazer.

 

A criança que hoje entra pela porta do ministério infantil é a mesma que amanhã pode liderar, plantar e servir; não como promessa, mas como discípulo sendo formado agora, pelas mãos de quem decidiu servi-la. Essa é a convicção que move a Secretaria Nacional das Crianças da IPIB. Precisamos investir em nossas crianças.

 

Que IPIB queremos construir?

Queremos construir uma igreja que olha para a criança nos olhos. Não uma igreja que a tolera enquanto aguarda que ela cresça. Não uma igreja que a entretém para que os adultos possam ter o culto “em paz”. Mas uma igreja que reconhece, de verdade, que “dos tais é o Reino de Deus” e, então, age em conformidade com essa convicção.

Isso tem implicações concretas.

Significa investir em formação para quem serve no ministério infantil, porque cuidar bem exige preparo, e preparo exige humildade para aprender. Significa pensar os espaços, as linguagens e as estruturas da comunidade de forma que as crianças sejam incluídas, não apenas acomodadas. Significa que a proteção das crianças não é uma exigência burocrática, mas uma expressão de cultura pastoral, algo que se vive, não apenas que se documenta.

Significa, sobretudo, compreender que o discipulado infantil não começa e termina na Escola Bíblica Dominical. Ele acontece no colo do líder que segura um bebê com ternura. Acontece na voz da professora que valida a pergunta difícil de uma criança de oito anos. Acontece na comunidade que, semana após semana, demonstra que aquela criança pertence – não porque cresceu, não porque se comportou, mas porque é amada por Deus e por nós.

 

Uma semente plantada em solo fértil

A neurociência confirma o que a Escritura já sabia: os primeiros anos de vida são o solo mais fértil que existe para a formação do caráter, do afeto e da confiança. Cerca de 80% das conexões cerebrais de uma pessoa se formam até os três anos de idade. É nesse estágio que os alicerces são lançados.

Quando um líder do ministério infantil cuida com intencionalidade de uma criança pequena, ele não está apenas “tomando conta”. Ele está escrevendo as primeiras linhas da história de fé dela. Está sendo, naquele momento, o rosto de Deus para aquele pequeno ser.

Que responsabilidade! Que privilégio!

Nos próximos anos, a Secretaria Nacional das Crianças quer ajudar as igrejas da IPIB a construírem ministérios que formem, não apenas informem. Que acolham, não apenas organizem. Que protejam, não apenas cumpram protocolos.

Queremos uma IPIB na qual cada criança, ao passar pelo ministério da sua igreja local, saia sabendo quatro coisas no fundo do coração:

Deus me criou.

Jesus me ama.

Eu estou seguro.

Eu sou amado.

Se conseguirmos isso, se plantarmos essa semente com fidelidade, seremos colaboradores de algo que vai muito além dos 123 anos que celebramos hoje. Será uma expressão de nossa fidelidade ao chamado do Senhor.

 

“E todos os teus filhos serão ensinados do Senhor; e a paz de teus filhos será abundante”.

[Isaías 54.13]

 

Imagem do topo: editado por AI (magnific.com)

 

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E VOCÊ, QUE IGREJA QUER PARA AS CRIANÇAS?

 

Foto de Reva. Tabta Rosa de Oliveira

Reva. Tabta Rosa de Oliveira

Secretaria Nacional das Crianças e pastora de crianças na Hub Sorocaba, SP.

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