Pastor da IPI é finalista do Prêmio Jabuti

Guilherme Damasceno é um dos autores do livro “Crentes: pequeno manual sobre um grande fenômeno”, que está entre os cincos finalistas da renomada premiação

Crentes: pequeno manual sobre um grande fenômeno” (Ed. Record – 238 páginas) é um dos cinco livros finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico (categoria Ciências da Religião e Teologia). Os autores são os antropólogos Juliano Spyer e Raphael Khalil, e o pastor da IPI do Brasil, Guilherme Damasceno.

O anúncio foi feito hoje (27/07), às 15h30, pelos organizadores do prêmio.

Guilherme Damasceno é um jovem pastor de 30 anos. Atualmente, serve como pastor titular da IPI de Vila Romana e presidente do Presbitério São Paulo.

“Sinto-me muito feliz e profundamente grato a Deus por me conceder a oportunidade de viver este momento. Espero que esta seja mais uma oportunidade para honrá-Lo e glorificar o seu nome”, se alegra Guilherme.

 

Os autores: Raphael, Juliano e Guilherme

 

O encontro de duas vocações

Em entrevista a O Estandarte, o Rev. Guilherme fez questão de destacar sua atuação pastoral na IPI de Vila Romana e a convicção de que o livro nasceu do encontro de suas vocações.

“O ministério que o Senhor me confiou sempre esteve ligado a duas dimensões que, para mim, são inseparáveis: o cuidado pastoral e o ensino. Esse livro nasceu justamente do encontro entre essas duas vocações. Ele expressa meu desejo de servir à Igreja por meio da pesquisa e do ensino, sempre reconhecendo que a teologia não é um fim em si mesma, mas um instrumento para conhecermos melhor a Deus e servirmos ao próximo. Quanto mais estudo as Escrituras, mais me convenço de que o verdadeiro conhecimento de Deus deve produzir amor, humildade e serviço”.

 

Do que trata o livro?

A proposta do livro é apresentar, especialmente ao público que não está familiarizado com o universo evangélico, um panorama amplo, acessível e confiável do protestantismo, do pentecostalismo e das demais vertentes evangélicas presentes no Brasil.

O leitor encontrará explicações sobre as principais denominações, suas diferenças teológicas, formas de organização, linguagem, costumes e expressões características. É como um mapa que orienta quem deseja compreender esse universo e aponta caminhos para quem pretende se aprofundar em temas específicos.

 

Matéria sobre o livro publicada na Folha de S. Paulo.

 

Como se estrutura o livro?

O livro divide-se em seis partes, começando com as noções básicas e um glossário, passando por breves explicações sobre as doutrinas e questões teológicas e chegando a temas controversos, que são apresentados na parte “Debates e polêmicas”. Aqui os autores se aprofundam diferentes visões do segmento evangélico sobre questões como gênero e sexualidade, relação com o estado de Israel, o chamado “narcopentecostalismo”, posicionamento sobre consumo de bebidas alcoólicas, uso medicinal da cannabis, disputas entre neopentecostais e candomblé e outros.

 

Os autores

Além de Guilherme, o livro “Crentes” foi escrito por dois antropólogos, Juliano Spyer e Raphael Khalil. Juliano Spyer é historiador (USP), mestre e doutor em Antropologia pela University College London, colunista da Folha de S. Paulo e autor de Povo de Deus: quem são os evangélicos e por que eles importam (2020). Raphael Khalil é evangélico e formado em Antropologia pela UNILA, pesquisou comunidades muçulmanas no Brasil e atualmente estuda o eleitor e consumidor evangélico.

 

Etapas do Prêmio Jabuti Acadêmico

A premiação ocorre em quatro etapas:

  1. Inscrição da obra pela editora.
  2. Divulgação dos 10 semifinalistas de cada categoria, selecionados pelo júri (14 de julho de 2026).
  3. Divulgação dos 5 finalistas de cada categoria (27 de julho de 2026).
  4. Cerimônia de premiação, quando são anunciados os vencedores de cada categoria (11 de agosto de 2026).

 

**

 

“Jesus não apenas ensinou doutrinas verdadeiras. Ele nos mostrou uma maneira de viver”

ENTREVISTA COM GUILHERME DAMASCENO

 

 

O Estandarte: Qual é a proposta principal do livro? O que os leitores vão encontrar ao lê-lo?

Rev. Guilherme: A proposta do livro é apresentar, especialmente ao público que não está familiarizado com o universo evangélico, um panorama amplo, acessível e confiável do protestantismo, do pentecostalismo e das demais vertentes evangélicas presentes no Brasil. O leitor encontrará explicações sobre as principais denominações, suas diferenças teológicas, formas de organização, linguagem, costumes e expressões características. É como um mapa que orienta quem deseja compreender esse universo e aponta caminhos para quem pretende se aprofundar em temas específicos.

Guilherme e sua esposa Raiany Neves.

Acredito que o livro tenha sido bem recebido por jornalistas justamente porque, no Brasil, ainda é comum utilizar uma linguagem muito marcada pela tradição católica para se referir aos evangélicos. Expressões como “rezar”, por exemplo, muitas vezes são empregadas quando, nesse contexto, o termo mais adequado seria “orar”. O livro busca oferecer ferramentas para compreender esse fenômeno religioso, apresentar a contribuição do protestantismo para a sociedade brasileira e explicar sua diversidade, mas sem idealizações nem romantizações.

O Estandarte: Qual foi sua contribuição para o livro?

Rev. Guilherme: Escrevi a obra ao lado de dois antropólogos, e minha principal contribuição foi oferecer a perspectiva teológica e eclesiológica. Em cada tradição apresentada, procurei explicar sua origem histórica, suas principais características doutrinárias, seu sistema de governo eclesiástico e sua presença no Brasil.

Também apresentei as principais denominações, instituições de ensino, seminários, hospitais e organizações ligadas a cada tradição, evidenciando a diversidade do protestantismo brasileiro com rigor acadêmico e respeito às suas diferentes expressões.

Além disso, procurei explicar como a teologia fundamenta práticas, discursos e formas de viver a fé. O livro apresenta conceitos e correntes teológicas de maneira descritiva, e não normativa. Por isso, são explicadas tanto doutrinas clássicas, como a Trindade e o Reino de Deus, quanto correntes mais recentes ou controversas, como a Teologia do Domínio e o neopentecostalismo, independentemente de eu concordar ou não com elas.

A intenção foi produzir uma obra de referência, quase como um dicionário do universo evangélico, mas escrita em linguagem fluida e acessível. Em outras palavras, trata-se de uma espécie de alfabetização teológica para qualquer leitor interessado em compreender melhor esse importante fenômeno religioso brasileiro.

O livro também procura estabelecer alguns recortes conceituais importantes. Há, por exemplo, um capítulo dedicado aos grupos exclusivistas, abordando denominações que frequentemente são confundidas com igrejas evangélicas, mas que, do ponto de vista da teologia cristã histórica e da identidade evangélica, não são classificadas como tal, como as Testemunhas de Jeová e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmons). Nesse capítulo, explicamos, de forma respeitosa e fundamentada, as principais diferenças doutrinárias que justificam essa distinção.

O Estandarte: É a primeira vez que você é indicado, como autor, ao Prêmio Jabuti Acadêmico? Como recebeu essa notícia?

Rev. Guilherme: Sim, é a primeira vez, e confesso que recebi essa notícia com muita emoção.

Quando soube da indicação, lembrei-me da minha adolescência. Eu não tinha condições de comprar livros. A igreja era o lugar onde eu podia ler a Bíblia e os materiais da Escola Dominical. Mais tarde, no seminário, a biblioteca tornou-se minha grande companheira.

Hoje percebo que Deus também trabalhou por meio daquela escassez. Ela despertou em mim uma profunda paixão pelo estudo da Bíblia, da teologia e da igreja brasileira. Desde muito jovem, preguei em igrejas históricas e pentecostais, conhecendo de perto a riqueza e a diversidade desse universo. De certa forma, essa trajetória acabou se transformando na pesquisa que hoje é reconhecida por meio de uma indicação ao Prêmio Jabuti Acadêmico.

Ao olhar para trás, meu coração se enche de gratidão a Deus. Reconheço Sua providência em cada etapa da minha caminhada e oro para que essa indicação, mais do que um reconhecimento pessoal, sirva para glorificar o Seu nome e encorajar outras pessoas a dedicarem suas vidas ao serviço de Deus.

O Estandarte: Como o livro se relaciona com sua vocação ministerial?

O ministério que o Senhor me confiou sempre esteve ligado a duas dimensões que, para mim, são inseparáveis: o cuidado pastoral e o ensino. Como pastor, procuro compreender a realidade da Igreja brasileira para acolher as pessoas, caminhar ao lado delas e orientá-las à luz das Escrituras. Como pesquisador, busco estudar esse fenômeno com seriedade e rigor, na esperança de que esse conhecimento possa servir tanto à academia quanto às igrejas.

Esse livro nasceu justamente do encontro entre essas duas vocações. Ele expressa meu desejo de servir à Igreja por meio da pesquisa e do ensino, sempre reconhecendo que a teologia não é um fim em si mesma, mas um instrumento para conhecermos melhor a Deus e servirmos ao próximo. Quanto mais estudo as Escrituras, mais me convenço de que o verdadeiro conhecimento de Deus deve produzir amor, humildade e serviço.

Por isso, acredito que teologia e pastoral não podem caminhar separadas. A reflexão teológica precisa fortalecer a vida da Igreja, e o cuidado pastoral deve ser continuamente orientado pela Palavra de Deus. Em outras palavras, a fidelidade àquilo que cremos deve se refletir na forma como amamos a Deus e servimos ao próximo.

O Estandarte: Qual é atualmente sua atuação ministerial?

Rev. Guilherme: Sou um jovem pastor de 30 anos. Atualmente, sirvo como pastor titular da IPI de Vila Romana e presidente do Presbitério São Paulo.

Tenho o privilégio de exercer esse ministério ao lado de um Conselho formado por presbíteros com profundo coração pastoral. Muitos deles poderiam ser meus avós, mas sempre me acolheram com respeito, confiança e generosidade. Aprendo diariamente com sua experiência, sabedoria e amor pela Igreja. Se hoje conseguimos avançar em nossa missão, é porque caminhamos juntos. Para mim, é uma grande alegria viver os desafios do ministério cercado por irmãos que compartilham o mesmo compromisso de cuidar das ovelhas de Cristo.

Além do ministério pastoral, atuo como Coordenador de Bolsas e Vestibular do Senac São Paulo. Enxergo esse trabalho como uma oportunidade de viver a fé também no ambiente profissional, procurando servir as pessoas com ética, excelência e responsabilidade.

O Estandarte: Você tem outros livros publicados? Se sim, quais?

Rev. Guilherme: Meu primeiro livro publicado foi “Pentecostalismo Brasileiro: História e Educação Teológica” (Editora Reflexão, 2018).

A obra analisa a formação e o desenvolvimento das principais denominações pentecostais no Brasil, investigando as razões históricas da resistência à educação teológica em parte desse movimento e mostrando como esse cenário tem se transformado nas últimas décadas.

O Estandarte: Estamos em um ano desafiador, com eleições. Que conselhos você daria aos crentes diante dos desafios do testemunho do Evangelho em tempos tão polarizados?

Rev. Guilherme: O cristão deve lembrar que sua identidade mais profunda não está em um partido, em um candidato ou em uma ideologia, mas em Cristo. Como ensina o apóstolo Paulo, “a nossa cidadania está nos céus” (cf. Fp 3.20). Isso não significa desprezar a vida pública, mas compreender que toda participação política deve estar subordinada ao senhorio de Cristo.

A participação política é importante e faz parte da vocação cristã de buscar o bem comum, exercer a cidadania com responsabilidade e promover a justiça. Entretanto, ela jamais pode ocupar o lugar da nossa fidelidade ao Evangelho. Quando a política se torna nossa identidade principal, corremos o risco de transformar preferências ideológicas em ídolos, relativizando a autoridade das Escrituras.

Por isso, gosto de voltar ao tema da ortopraxia. Jesus não apenas ensinou doutrinas verdadeiras; Ele nos mostrou uma maneira de viver. Ordenou que amássemos os nossos inimigos e orássemos pelos que nos perseguem (cf. Mt 5.44), ensinou a Regra de Ouro, “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (cf. Mt 7.12), exortou seus discípulos a vencerem o mal com o bem e declarou que aqueles que lançam mão da espada pela espada perecerão (cf. Mt 26.52). O Apóstolo Paulo também nos chama a “seguir a verdade em amor” (cf. Ef 4.15).

Creio que um dos grandes desafios da Igreja hoje é não viver uma espécie de “ateísmo prático” na esfera política, como se os ensinamentos de Cristo fossem válidos apenas para a vida privada e deixassem de orientar nosso comportamento quando tratamos de questões públicas. O discipulado cristão não conhece essa divisão. A ética do Reino de Deus deve moldar a forma como falamos, discordamos, tratamos quem pensa diferente e participamos da vida pública. Afinal, a mesma graça que nos transforma para o culto deve transformar também nossa maneira de exercer a cidadania.

 

Imagem do topo: magnific.com
Foto de Lissânder Dias

Lissânder Dias

Membro da 2ª IPI de Maringá, PR, e editor do Portal O Estandarte

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