Vivemos numa sociedade marcada pelo egoísmo, o individualismo e a violência. Todos os dias abrimos os jornais, vemos na internet ou assistimos os noticiários da TV e ficamos perplexos com o crescimento da violência em todos os lugares. São assassinatos, espancamentos em escolas (bullying), feminicídio e assaltos etc. Uma reação comum ao clima violento é o medo e a reclusão. Tornamo-nos pessoas mais precavidas, receosas e desconfiadas. Nossos lares deixam de ser lugares acolhedores para se transformarem em verdadeiras fortalezas, com guardas, alarmes, câmeras para manterem longe os suspeitos e estranhos. Com tudo isso, cresce a insegurança e a desconfiança que, por sua vez, influencia nossos relacionamentos, inclusive dentro da igreja.
Uma igreja hostil contaminada pelo medo
A igreja, que é o lugar de comunhão por excelência, também tem sido contaminada por esse medo, tornando-se um lugar, às vezes, hostil. Há o medo de se expor, de não ser compreendido, de ser agredido emocionalmente. Por causa disso, muitos participam com reservas. Não nos damos por inteiro. No entanto, o chamado para a vida cristã é um chamado para a comunhão, para a hospitalidade, para o amor de uns para com os outros. Isso é a essência da conversão. A conversão é o movimento que nos leva da hostilidade à hospitalidade, criando o espaço necessário para a manifestação do amor de Deus entre as pessoas. Comunhão significa, primeiramente, criar um espaço onde as pessoas possam entrar para se tornarem amigas ao invés de estranhas. É o ambiente que necessitamos para experimentar a possibilidade da transformação da nossa vida. É onde o “eu” se transforma em “nós”!
A conversão é o movimento que nos leva da hostilidade à hospitalidade, criando o espaço necessário para a manifestação do amor de Deus entre as pessoas.
Em nossa sociedade as pessoas se fecham em si mesmas tornando-se egoístas e intolerantes com os diferentes. Viver em comunhão não significa trazer pessoas para o nosso lado para pensarem o que pensamos e gostarem do que gostamos. Antes, significa criar um espaço de liberdade onde possam encontrar a Cristo Jesus e viver os propósitos de Deus para nossas vidas. É o lugar onde podemos experimentar relacionamentos sinceros, sem interesses. Na conversão somos vocacionados para amar uns aos outros como Cristo nos ama.
Para Sigmund Freud, em seu livro “O mal-estar da civilização1” isto é antinatural, pois ninguém pode realmente amar o próximo sem esperar algo em troca, ou seja, sem interesse, principalmente quando Jesus pede para amar os inimigos. Para ele, o ser humano é por natureza agressivo e pronto a atacar para garantir sua sobrevivência. Concordamos com Freud quanto a agressividade natural do ser humano, pois ela decorre da nossa natureza pecaminosa, mas discordamos quanto à capacidade de amar do ser humano, pois em Cristo somos transformados na nossa mente e coração e, com isso, tornamo-nos prontos para amar e ser amado. A essência da nossa espiritualidade está justamente nisso: “Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo”. Isso se chama comunhão, e a mesma só é possível em Cristo. Dietrich Bonhoeffer em seu livro “Vida em Comunhão2” descreve assim a comunhão da igreja:
“Comunhão cristã é comunhão por meio de Jesus Cristo e em Jesus Cristo. Não há comunhão cristã que seja mais ou menos do que isso. Quer seja um único e breve encontro ou uma comunhão diária que perdure há anos, a comunhão cristã é somente isso. Pertencemos uns aos outros tão somente por meio de e em Jesus Cristo”.
A Igreja primitiva era uma comunidade que vivia de mãos dadas, onde o amor era vivenciado de uns com os outros, de forma concreta. Era uma comunhão abençoadora, que não permitia que um irmão ou irmã passasse por necessidades. Era uma comunidade que se olhava, que se enxergava, que olhava para dentro de si e se ajudava mutuamente. E viviam assim porque haviam aprendido com Jesus. Em 1 João 1.1, o autor diz:
“O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da Vida”.
O modelo viveu entre eles, ensinou como deveria ser o relacionamento de uns com os outros, inclusive essa seria a marca distintiva da igreja: o amor. E, assim reproduziam tudo, não de forma mecânica, mas movidos pelo amor a Deus e ao irmão e a irmã. Comunhão é a soma de corações que se amam, dispostos a se dar um ao outro para estarem juntos em adoração a Deus. Temos diferenças, mas isso não nos impede de vivermos juntos. O perdão deve estar presente em nossos relacionamentos, pois somos irmãos e irmãs que se amam em Cristo Jesus.
Comunhão é a soma de corações que se amam, dispostos a se dar um ao outro para estarem juntos em adoração a Deus.
Uma igreja discipuladora marcada pelo amor
Para ser uma igreja discipuladora precisamos demonstrar esse amor na sociedade. Precisamos viver o evangelho de Cristo de forma concreta em nossos relacionamentos. A igreja tem que ser esse espaço de relacionamentos, onde o amor que “cobre multidão de pecados” seja vivenciado (1 Pedro 4.8). O amor que Pedro fala não é expiatório, com poderes próprios para perdoar, mas o amor que tem o poder para promover o encontro do pecador com o Deus que perdoa. Pedro diz: “acima de tudo”, ou seja, a coisa mais importante, mais necessária à Igreja deve ser o amor intenso de uns para com os outros. Porque o ambiente que o amor cria é poderoso para nos ajudar a enfrentar e tratar o nosso pecado diante de Deus. Nenhum de nós consegue enfrentar o pecado num ambiente hostil, cercado de pessoas que não conseguem perdoar e acolher o pecador. Um lugar que você é olhado de lado, julgado com palavras, gestos, olhares e condenação ou nos torna hipócritas ou nos afugenta. Pedro nos convida a criarmos um ambiente próprio para o encontro com Deus e conosco mesmo. Esse ambiente nasce do amor intenso, uns para com os outros!
Zygmunt Bauman, em seu livro “O amor líquido3”, faz uma constatação que dificilmente podemos contestar. Ele afirma que vivemos numa sociedade em que os relacionamentos são frágeis e volúveis, em todas as instâncias, por isso o amor não tem sido vivenciado na concretude – ou, quando vivenciado, não se sustenta e escorre pelo ralo. Como fazer discipulado numa sociedade assim? Como anunciar e ensinar Jesus numa “sociedade líquida”, onde os relacionamentos seguem a lógica utilitarista, do interesse, do egoísmo? Jesus responde: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.” (João 15,12). Para Erich Fromm, em seu livro “A arte de amar4”, o “o amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana”.
Concluo citando C.S.Lewis5, quando numa de suas pregações disse:
“Deus não nos criou para a felicidade, mas para amar e ser amado, pois quando estamos em busca da felicidade como um fim em si mesma, procuraremos sempre em algum lugar, em alguma pessoa, mas quando buscamos amar e ser amado, encontramos a felicidade onde nós estamos, não precisamos buscar em nenhum lugar, pois está dentro de nós!”
Amemos uns aos outros para que as pessoas creiam no amor de Jesus – isso é discipulado, isso é igreja!
Notas:
- FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de José Octavio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud).
- BONHOEFFER, Dietrich. Vida em comunhão. Tradução de Geraldo Korndörfer. São Leopoldo: Sinodal, 1997.
- BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
- FROMM, Erich. A arte de amar. Tradução de Milton Amado. Rio de Janeiro: Bestseller, 2017.
- Extraído do filme “Terra das Sombras”, 1993, que retrata um período da vida de C.S. Lewis.







