A inteligência artificial, conquistando cada vez mais espaço na sociedade, tornou-se obrigatória, exigindo olhares cristãos, para se saber até onde vão os limites. A preocupação chegou ao Vaticano, onde o papa Leão 14 editou uma nova encíclica, a Magnifica Humanitas (magnífica humanidade), organizando um encontro entre especialistas, incluindo teólogos e empresários, para o tema ser discutido com formas de aplicação na Igreja.
A relevância no assunto no campo religioso
Do Brasil, foi convidado o publicitário Nizan Guanaes. E ele surpreendeu, como antecipou em depoimento ao jornal Valor Econômico, considerando a relevância plural do assunto no terreno religioso.
Para nós, muita coisa é claramente compreendida pelos ensinamentos das Escrituras, desde o livro das origens (Gn 1.28), onde lemos que fomos criados para dominar a terra. Mais ainda em Pv 2.6: “o Senhor dá a sabedoria”. Reforço em Pv 3.5: “não se apoie no seu próprio entendimento”. Ou seja: nossa inteligência vem de Deus, que mostra como incorporá-la (pois nossa fé não é artificial) no ensino, na aprendizagem, na pesquisa e no estudo.
Nossa inteligência vem de Deus, que mostra como incorporá-la (pois nossa fé não é artificial).
Gramaticalmente, “artificial” se refere a algo não natural, produzido por técnica e engenharia. No caso, a ciência da computação, o que diferencia a palavra de “falso”, “fingido”, “sem autenticidade”, dando o sentido de ferramenta para ajudar o ser humano, e não o superar, como se confunde. Assunto na Academia de Ciências do Vaticano, o tema abrange enfoques, preferências, utilizações, interpretações e posicionamentos.
Tempos modernos
O debate envolve a ética dos negócios no mundo tecnológico. Guanaes acha que a presença maligna é muito presente no mundo digital. De fato, sabemos como tais coisas funcionam. Basta ver os golpes sucessivamente aplicados, uma verdadeira ameaça letal na comunicação, causando estragos terríveis com prejuízos financeiros e nas reputações.
O publicitário vai ao ponto, citando Jesus: “Ide e anunciai o Evangelho”. Guanaes sugere que, para difundir a boa nova, a própria Igreja tem que ser boa e nova: “Eu sou o bom pastor e as minhas ovelhas reconhecem a minha voz”. Este anunciar é feito, muitas vezes, por meio de parábolas com conteúdos criados “para serem compreendidos por pessoas simples e pessoas que não queriam ouvi-lo”. Hoje também é assim.
Guanaes entende que vivemos, pela inteligência artificial, uma “oportunidade de ouro”, como foi com a imprensa de Gutemberg, que permitiu a impressão da Bíblia, “um salto tecnológico para a difusão do cristianismo”.
O publicitário acredita que a comunicação da Igreja “precisa ser mais vivaz, mais contemporânea – como Gutemberg, mas sem perder a sua alma”. Igreja guardiã do passado, diz, precisa ser a guardiã do futuro, “espiritualidade humana impactada pela inteligência artificial”. “Ide” é verbo imperativo. Significa dirigir-se a todo lugar, situação, pessoas e contextos. Uma missão permanente, cristãos em movimento. O semeador, não estático, saiu a semear. “Todo o mundo”: sem fronteiras, distâncias culturais, geográficas e sociais. Usando ferramentas nunca imaginadas.
Igreja guardiã do passado precisa ser a guardiã do futuro.
Máquina e alma
Nem tudo pode se transformar em idolatria tecnológica, como muitos estão vivendo nas telas do celular e computador. A alma – conexão entre corpo, mente e espírito – não cabe na memória do computador. Não existe robô no púlpito ou nos cuidados pastorais. Na intercessão. Na súplica da oração. Na emoção da Santa Ceia. Na comunidade de fé. Na pesquisa acadêmica ou práticas judiciais, por exemplo, ajuda, mas pode se transformar em práticas repetitivas. A ciência – inovadora – não avança apenas com bancos de dados.
Nós levamos muito em conta experiências pessoais, testemunhamos a ação de Deus em nossas vidas, sabemos o que é desfrutar das bênçãos. Convertidos, sempre soubemos em quem temos crido. Sentimos. Corações vibrantes. Sabemos o que é a Graça, o perdão, a misericórdia, o resgate, a salvação. Nenhuma máquina é capaz de transmitir as convicções de fé. É a nossa inteligência espiritual, inabalável, nunca artificial. O Senhor é nosso refúgio e fortaleza.
Velhos tempos, novos tempos – mas Jesus presente
Sou do tempo das máquinas de escrever, que substituíram as penas com tinta, trocadas depois pelos computadores. Vivi por muito tempo sem celular e suas tantas possibilidades. Solidifiquei a minha fé em comunidades simples, humildes, mas sempre com indeléveis testemunhos de fé. Hoje, podemos utilizar recursos modernos em nossas igrejas e assistimos, muitas vezes com surpresa, aos avanços que podemos desfrutar. Quem diria! Velhos tempos, novos tempos – mas Jesus presente. Ontem, hoje e sempre. Tudo está escrito – hermenêutica é a forma de garimpar preciosos tesouros.







