Coragem para acolher refugiados

Ter a coragem de acolher refugiados ou deslocados de suas pátrias é um campo missionário que chega às nossas portas.

 

Artigo publicado originalmente no “O Estandarte” em junho, 2022.

 

Um breve histórico a respeito de um tema de grande relevância dentro do contexto mundial nesses dias é a respeito daqueles que são forçados a serem deslocados de seus países de origem, abandonando suas casas e tantas outras coisas que foram adquiridas ao longo de suas vidas.

Se as perdas fossem somente de bens materiais, seria um alívio, mas muitos perdem seus próprios familiares.

O Dia do Refugiado, 20 de junho, foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano de 2000, uma data que deve ser lembrada para reflexão a respeito daqueles que são forçados a abandonar seus países.

 

Cenário

Para que tenhamos uma ideia da quantidade* de pessoas que são obrigadas a deixar seus locais de origem, o país que tem mais refugiados no mundo é a Síria com 4,9 milhões de refugiados. O Afeganistão conta com 2,7 milhões e a Somália com 1,1 milhão de pessoas refugiadas. Os números globais de refugiados chegam a aproximadamente 82,4 milhões de pessoas (dados do primeiro semestre de 2021 da ACNUR). Confira os dados de 2025 aqui.

A situação atual em nosso país quanto ao tema eleva-se a mais de 8 mil refugiados de 81 nações diferentes.

A ONU se esmera em trabalhar na conscientização de todos a respeito desse assunto, procurando determinar as causas que levam os refugiados a abandonarem seus lares. Esses dados são aterrorizantes! Vemos vidas sendo leva das ao mínimo necessário para a subsistência. Apenas uma pequena fração das populações deslocadas são capazes de encontrar uma solução segura e duradoura para a sua condição de vida.

 

Apenas uma pequena fração das populações deslocadas são capazes de encontrar uma solução segura e duradoura para a sua condição de vida.

 

 

Causa urgente

Existem diversas ONGs no Brasil que se dedicam ao acolhimento e cuidados de refugiados. Esta é uma causa urgente! É preciso assegurar a dignidade destas pessoas. Todos têm o dever de abraçar de alguma forma essa causa, seja na forma de voluntariado ou através de ajuda financeira, com o intuito de cumprir o que aprendemos com Jesus. Afinal de contas, foi o Senhor Jesus quem afirmou que, quando ele voltar, ele dirá: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo… Eu era forasteiro, e me hospedastes” (Mt 25. 34-35).

Vemos o amor e a compaixão de Jesus por aqueles que, de alguma forma, estão vivendo em risco de perda de sua vida, sem condições de subsistência, totalmente abandonados, fora de sua própria pátria, vivendo em lugares longe de sua parentela.

Isso precisa queimar no coração cristão e nos desafiar, como cidadãos do reino de Deus, como igreja, como corpo de Cristo, a oferecer o amor, em forma de assistência para as pessoas refugiadas, providenciando um pouco de dignidade a elas.

Poderia aqui reiterar que esta missão está bem direcionada no coração de todos aqueles que Jesus chamou para si porque, se somos criados à imagem de Deus e se somos filhos de Deus (Jo 1.12), cremos que ele não morreu somente por uma nação, mas pelo mundo inteiro (Jo.11.52). Assim, consideramo-nos um só povo, formado por todos os filhos de Deus que andam espalhados pelo mundo.

 

Consideramo-nos um só povo, formado por todos os filhos de Deus que andam espalhados pelo mundo.

 

Missão da igreja

Diante dos ensinamentos de Jesus e da missão de Deus no aspecto do acolhimento ao próximo, adquirimos melhor consciência do sentimento e desejo do coração de Jesus quando declarou: “Era forasteiro e me hospedastes”.

Devemos estar atentos aos nossos semelhantes, nossos irmãos, refugiados ou deslocados de sua pátria, em estado de risco, de abandono, como se encontram em nossa nação, cidade ou até mesmo em nosso bairro. O evangelho de Jesus Cristo sempre nos desafia a ir além do óbvio e, quando nos dedicamos à tarefa, ao desafio e à coragem de acolher refugiados ou deslocados de suas pátrias, intervimos num processo, obedecendo à palavra de Deus, oferecendo oportunidades de mudanças de vida, de forma que alcancem a dignidade humana e até mesmo um trabalho, de forma que possam assumir condições natas de brasileiros, e retomarem suas vidas, acolhidas por pessoas que são, em primeiro lugar, filhos de Deus Altíssimo.

Por conseguinte, não podemos nos esquecer de nossa responsabilidade missionária, como ordenou o nosso Senhor Jesus Cristo: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas” (Mc 16.15) e “Fazei discípulos em todas as nações” (Mt 28.19). Portanto, ter a coragem de acolher refugiados ou deslocados de suas pátrias é um campo missionário que chega às nossas portas.

Devemos acolher, cuidar e ajudar os refugiados a conseguirem um trabalho, onde possam retomar suas vidas. É necessário que todos tenhamos um momento em que possamos ouvir, ler, assimilar notícias de países em conflitos e de muitas situações em que o sofrimento se estabelece na vida de seres humanos.

 

Devemos acolher, cuidar e ajudar os refugiados a conseguirem um trabalho, onde possam retomar suas vidas.

 

Mensagem de Deus aos cristãos

Vejo isto como uma mensagem de Deus falando aos cristãos que é preciso estender as nossas mãos, casas, finanças para acolher essas pessoas.

Karl Barth dizia que os cristãos devem carregar em uma das mãos a Bíblia e, na outra, o jornal do dia, de forma que não sejam alienados. Não pertencemos a este mundo, mas vivemos neste mundo, o que se constitui num motivo que Deus nos dá para que possamos enxergar as pessoas em risco para termos compaixão delas e manifestarmos concretamente o amor de Deus por elas.

Por fim, é preciso ter consciência de que sozinhos não podemos ombrear a causa de acolher pessoas neste estado de refugiados ou deslocados de sua pátria. Assim, como igreja, como corpo de Cristo, temos a responsabilidade de pregar e levar as boas novas até os confins da terra.

A cidade em que nos encontramos deve ser o primeiro campo a ser observado, buscando conhecer a real situação de pessoas nesta situação. As igrejas, seus membros e autarquias municipais podem estabelecer estratégias de atuação e de auxílio, de forma que se estabeleça um programa de cuidado, com fins de atendimento às pessoas em estado de refugiadas e/ou deslocadas de sua pátria. Afinal, todos nós cristãos temos a responsabilidade de levar o evangelho a toda criatura. A pessoa de Jesus Cristo, o Reino de Deus, se tornou possível a todos nós, o que nos leva a praticar as nossas ações, acolhendo os forasteiros mencionados pelo Senhor.

 

A pessoa de Jesus Cristo, o Reino de Deus, se tornou possível a todos nós, o que nos leva a praticar as nossas ações, acolhendo os forasteiros mencionados pelo Senhor.

 

Edição dO Estandarte em que este artigo foi publicado.

Certamente, através desta ação, demonstrando o amor através da generosidade, do cuidado ao próximo, mostraremos ao mundo – e, sobretudo, para os atendidos – o verdadeiro amor de Cristo, assim como o poder transformador da sua graça, levando à salvação de muitas vidas, num exercício natural que de vemos exercer como igreja de Cristo aqui na terra. Assim sendo, agindo por esta causa, tendo disposição e coragem para acolher refugiados, deslocados de suas próprias pátrias, seremos instrumentos de crescimento do Reino de Deus aqui na terra.

Nossas ações vão reverberar na vida destas pessoas de forma exponencial, assim como na parábola do pequeno grão de mostarda, que tomamos e plantamos. E, na parábola, Jesus dá o resultado, afirmando que, embora seja a menor semente, quando esta germinar, se torna a maior das plantas, de maneira que as aves do céu vêm aninhar-se em seus ramos.

Que o Senhor nos ajude a colocar em prática seus ensinos em amor aos refugiados e àqueles que foram deslocados de suas pátrias.

 

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* Nota do editor: os dados aqui apresentados são referentes ao ano de publicação deste artigo. Já o cenário atual envolve mais de 123 milhões de pessoas deslocadas à força no mundo devido a guerras, perseguições e violações dos direitos humanos. O Brasil destaca-se como um dos principais receptores, abrigando mais de 2 milhões de imigrantes e refugiados, com predominância de venezuelanos, haitianos e cubanos.

 

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Foto de Rev. Moacir E. Rosa (in memoriam)

Rev. Moacir E. Rosa (in memoriam)

Faleceu em abril de 27/04/2025. Foi 2º secretário da Assembleia Geral da IPI do Brasil (2019–2023) e pastor auxiliar da IPI de Rolândia, PR.

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