A profecia de Zacarias e o brincar no reino de Deus

O ATO DE BRINCAR NÃO É UMA ESTRATÉGIA UTILITARISTA. É UMA LINGUAGEM PROFÉTICA DO REINO DE DEUS

 

“Assim diz o Senhor dos Exércitos: Ainda nas praças de Jerusalém se assentarão velhos e velhas […] e as ruas da cidade se encherão de meninos e meninas que nelas brincarão.”

(Zacarias 8.4-5)

 

Esta é uma visão de Zacarias de como será a restauração, de como será quando o Senhor voltar. Neste cenário, não há coisas, estruturas, mas relações, e dentro dos encontros, pessoas de idade diferentes, idosos e crianças ocupando as praças, a cidade. Algo se destaca: as crianças estão brincando!

Parece até um retrato de uma cidade pequena do interior do Brasil, não é? Será que nossa urbanização tem cada vez mais afastado as crianças destes espaços de descobertas, de um brincar livre, não direcionado e aberto às possibilidades?

Sabemos que sim, e há pesquisas que trazem números do quanto as crianças estão sendo emparedadas, do quanto o brincar livre tem sido trocado por telas, por atividades mediadas e escolares. Há muitas camadas nessa história, e não caberia explorar todas aqui.

 

Dia Internacional do Brincar

Neste dia 28 de maio, Dia Internacional do Brincar*, prefiro me debruçar sobre a importância do brincar livre como linguagem e como podemos abrir nossas programações e nossos espaços institucionais para devolver às infâncias este idioma tão rico e evidenciado na visão de Zacarias.

O brincar não é apenas passatempo. Para a criança, brincar é linguagem, talvez sua linguagem mais fundamental. Antes de ter palavras para nomear o que sente, a criança já brinca com o medo, com a saudade, com a alegria. Ela organiza o mundo pelo brincar da mesma forma que o adulto organiza o mundo pelo trabalho, pela fala, pela escrita.

 

Antes de ter palavras para nomear o que sente, a criança já brinca com o medo, com a saudade, com a alegria.

 

O psicanalista Donald Winnicott chamava de “espaço potencial” esse território onde o brincar acontece: nem completamente dentro, nem completamente fora da criança, mas entre ela e o mundo. É ali que o real e o imaginário se tocam, que vínculos se formam, que o sentido começa a tomar forma.

Francesco Tonucci, pesquisador italiano que dedica décadas a pensar a criança na cidade, costuma dizer que a qualidade de uma cidade pode ser medida pela liberdade que ela dá às suas crianças. Uma cidade que devolve as ruas às crianças é uma cidade que se tornou mais humana para todos.

 

Sinal do Reino

Zacarias prediz isso. Na visão do profeta, as crianças brincando nas ruas não são um detalhe de fundo, são um dos sinais de que a restauração chegou. Onde há brincar livre, há segurança. Onde há segurança, há confiança. Onde há confiança, há comunidade. O brincar, ali, não é sintoma de descuido; é evidência de paz.

Mas se o brincar é sinal do Reino, vale perguntar: o que dizem nossos espaços quando as crianças não cabem neles?

Não faz muito tempo – e em muitos lugares ainda hoje – nossas igrejas simplesmente não acolhiam manifestações infantis. A criança que chorava era levada para fora. A que se mexia demais, era repreendida. A que queria brincar, contida. O culto era espaço de adultos, e as crianças eram admitidas na medida em que conseguissem se comportar como tal.

Houve avanços. A igreja aprendeu a investir em programações, a formar professores, a criar espaços específicos para a infância. Mas o problema raramente é falta de atenção, mas sim o tipo de atenção que se oferece. A criança continua sendo vista, na maior parte das vezes, como objeto de formação: alguém que ainda não chegou, que precisa ser preparada até estar pronta para participar de verdade.

 

Onde há brincar livre, há segurança. Onde há segurança, há confiança. Onde há confiança, há comunidade.

 

Lugar ambíguo

Nesse enquadramento, o brincar ocupa um lugar ambíguo. É tolerado, às vezes até incentivado, mas como estratégia pedagógica, como embalagem para o conteúdo que realmente importa. Brinca-se para fixar o versículo, para ilustrar a lição, para manter a atenção. O brincar livre, sem objetivo mensurável, sem produto ao final, gera desconforto. Parece desperdício. A pergunta não dita que paira sobre ele é: “mas o que as crianças estão aprendendo?”.

No fundo, a igreja internalizou a mesma lógica do mundo que critica: a lógica da produtividade. E uma criança que brinca sem propósito aparente é, nessa lógica, uma criança desperdiçando tempo.

Talvez não sejam as crianças que precisem aprender nossa linguagem primeiro. Talvez nós precisemos reaprender a delas. E como aprendemos? Com Jesus.

 

A criança no centro do Reino e o testemunho público da igreja

Num momento em que seus discípulos afastavam as crianças, havia ensinamentos em curso, adultos esperando, coisas mais importantes, pessoas mais importantes, Jesus as coloca no centro e diz algo que devia soar estranho “Porque dos tais é o Reino dos céus”.

Jesus não está dizendo que crianças são inocentes ou puras. Está dizendo que há algo na forma como uma criança recebe e habita o mundo que corresponde à forma como o Reino chega. É sua disponibilidade de crer, imaginar e ser, sua abertura para o que Senhor tem para ela. E essa abertura não é abstrata: ela acontece no corpo, no chão, no faz de conta.

No brincar, a criança não separa o sagrado do cotidiano. O mundo ordinário se torna denso de significado, não por abstração, mas por experiência encarnada. Isso não está longe da lógica da própria encarnação: Deus não enviou um tratado, enviou um filho que caminhou por estradas de terra, tocou leprosos e comeu com pecadores. O Verbo se fez carne.

O brincar é, nesse sentido, um conhecimento encarnado e pode ser espaço de graça, não porque seja religioso em forma, mas porque é relacional em essência.

Uma igreja que protege o brincar não é uma igreja sem intenção, é uma comunidade que entende que a fé não se transmite apenas por conteúdo, mas por experiência.

E há um testemunho público nisso. Uma comunidade que protege o brincar declara, com seus espaços e suas práticas, que crianças têm valor não pelo que produzem ou pelo que se tornarão, mas pelo que já são.

 

O brincar é um conhecimento encarnado e pode ser espaço de graça, não porque seja religioso em forma, mas porque é relacional em essência.

 

Brincar restaura a esperança

Voltamos a Zacarias. Na visão do profeta, a cidade restaurada tem idosos descansando nas praças e crianças brincando nas ruas. Não como detalhe decorativo, como evidência. Onde há brincar livre, algo fundamental foi restaurado: a segurança, o pertencimento, a esperança de que há futuro.

Proteger o brincar, então, não é uma questão menor. É participar da restauração que Deus deseja para o mundo, uma criança de cada vez, uma rua de cada vez, uma comunidade de cada vez.

Quando as ruas voltam a pertencer às crianças, algo do Reino de Deus já começou a florescer entre nós. E se a igreja fosse a primeira a devolver as ruas às crianças?

 

____

* Nota do editor:

A Semana Mundial do Brincar, realizada todo ano em torno da data de 28 de maio, consolidada em 1998 como o Dia Internacional do Brincar, é uma campanha para a sensibilização da sociedade sobre a importância do brincar na infância e que propõe o engajamento de todos na discussão sobre as formas de colocar em prática o direito ao brincar. Fonte: alana.org.br

 

Imagem do topo: magnific.com
Foto de Reva. Tabta Rosa de Oliveira (@tabtarosa)

Reva. Tabta Rosa de Oliveira (@tabtarosa)

É Secretária Nacional de Crianças da IPI do Brasil. Pastora no HUB Criança Sorocaba (@hubsorocaba). Mãe da Helena e da Cecília, esposa do Du, brincante, pesquisadora e professora.

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Uma resposta

  1. Rev. Tabta, enquanto eu lia, me veio uma coisa muito forte, a criança não precisa provar utilidade para ter valor. Achei isso tão bonito!
    Parabéns.
    Zc 8.5

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