Mais do que ter esperança cristã, precisamos recriá-la diante de um mundo que tenta enfraquecê-la e destruí-la. Essa foi a tônica da última palestra do Prof. Dr. David Roldán, teólogo argentino, no quatro e último dia (22/10) do 4° Congresso Internacional de Teologia da FATIPI, com o tema “Esperança que permanece”.
Roldán discorreu extensivamente sobre os conceitos filosóficos e teólogos da esperança, passando por Ernest Bloch, Jürgen Moltmann e Rubem Alves, além de outros autores.
Fazendo contrapontos sobre o a presença de Deus na história, Roldán expos as discordâncias dos autores e apontou para caminhos em que a esperança não é tão somente uma construção imaginária alheia à realidade, mas uma revelação como cumprimento das promessas de Deus.
“Para Moltmann, nós, cristãos e cristãs, podemos agir, não de acordo com nosso conhecimento de ‘como é o mundo’, mas iluminados por ‘como é o mundo na promessa feita por Deus’, cita Roldán.
O preletor ressaltou que o Rubem Alves criticou Moltmann por um suposto platonismo em sua maneira de interpretar a ação de Deus na história:
“Existe ali um dualismo que não permite enxergar as possibilidades de transcendência no sofrimento humano contemporâneo, nos movimentos que trabalham para transcender o meramente dado”.
E ressaltou o que disse o teólogo brasileiro:
“O Deus do futuro é aquele que nos fala; o Deus do futuro é aquele que nos interpela na realidade histórica em que estamos imersos”.

Recriando a esperança no mundo de lógica algorítmica
Na segunda parte de sua preleção, Roldán focou na reflexão sobre como a teologia política pode contribuir para “recriar a esperança” num mundo marcado pelo secularismo e a lógica de trabalho que, encantada com a tecnologia, quer acelerar a produção até às últimas consequências, a despeito da vida humana.
Ele desenvolveu o conceito de aceleracionismo e explicou que “o aceleracionismo sustenta que a única saída histórica passa por levar as forças produtivas, tecnológicas e sistêmicas do capital até suas últimas consequências operacionais”. A verdade é que a tecnologia e o tempo estão no centro do debate.
Mas o que isso tem a ver com a esperança? “Ao refletir sobre o fim dos tempos, o valor do trabalho, a natureza da tecnologia e o poder das estruturas socioeconômicas, o aceleracionismo dialoga — muitas vezes de forma polêmica — com categorias teológicas tradicionais, como a escatologia, a idolatria e a encarnação”, explica ele.
Essa visão secularista do mundo “promete a singularidade tecnológica, o desprendimento da carne, o triunfo definitivo do algoritmo sobre a finitude”.
Diante do fascínio tecnológico do aceleracionismo, o cristianismo histórico tem oscilado frequentemente entre a desconfiança tecnofóbica e a adaptação acrítica. Roldán propõe uma outra via, o realismo encarnacional:
“Uma teologia política madura pode optar por um realismo encarnacional. Uma forma de recriar a esperança é nos considerarmos sujeitos ativos desse processo em andamento. Recriar a esperança, como cristãos, implica participar ativamente do debate público para que os avanços tecnológicos contribuam para o florescimento da vida humana, como apontam os Provérbios, em vez de nos escravizarem um pouco mais a cada dia. Recriar a esperança implica seguir os passos do Mestre de Nazaré, que sempre optou por defender os excluídos e denunciar os mecanismos de desumanização, exclusão e opressão”.
Resistindo ao binarismo
Em sua conclusão, Roldán ressaltou que “devemos resistir a essa lógica algorítmica do ‘bom/mau’, ao binarismo do ‘branco/preto’”:
“As parábolas de Jesus, ou sua discussão com os fariseus, podem nos orientar na complexidade da vida humana e na maneira como podemos sair da lógica binária do algoritmo. Hoje em dia, prestar atenção às nuances é um ato revolucionário”.
“’Não há outro caminho’, ‘Não há alternativas’, diz a classe dominante atual; nós continuamos lutando com obstinação, afirmando que é possível recriar a esperança”.
“O poder comunitário continua sendo a alternativa à lógica individualista e algorítmica, que recompensa o ódio e o confronto estéril”.
“Que o Deus da vida continue nos indicando os passos a seguir para recriar a esperança”.
Lançamento
O 4° Congresso Internacional de Teologia da FATIPI foi encerrado com o lançamento do livro “A Revelação de Deus e a Ação Histórica”, de David Roldán. “O livro discorre da ideia de que Deus se revela na história e como a crise desse paradigma histórico afeta a compreensão da relação entre os atos reveladores de Deus e a resposta do ser humano. É o meu primeiro livro em português, e estou muito feliz com isso”, disse o autor.
A obra foi publicada pela Editora Vida & Caminho e a Editora Saber Criativo, com o apoio da Fundação Eduardo Carlos Pereira.
Ao final, o público foi recepcionado com um delicioso coquetel, com a presença dos autores dos livros lançados no evento.
“Agradecemos a todos que participaram de forma presencial ou online, e às equipes que nos ajudaram a realizar este evento. Saio daqui com o coração grato a Deus e a todos”, disse o Prof. Rev. Marcos Nunes, diretor da FATIPI.
Quase 400 pessoas participaram do evento – seja presencial ou online, de 19 a 22 de outubro das dependências da FATIPI, em São Paulo (SP). O tema foi “Teologia Sistemática: Confissão que pensa, Igreja que serve, Esperança que permanece”.

Livros lançados durante o Congresso
- Dia 19/10 – Da Pós-modernidade à Era dos Algoritmos – Marcos Camilo e Jean Selleti e A Música na Reforma Protestante – Robson Santos (Hinologia Cristã).
- Dia 21/10 – Crônicas e Pensamentos – Marcos Oliveira e Protestantes em Confronto – Éber Ferreira Silveira Lima.
- Dia 22/10 – A Revelação de Deus e a Ação Histórica – David Roldán.
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ASSISTA, NA ÍNTEGRA, À PALESTRA “ESPERANÇA QUE PERMANECE”, DO DR. DAVID ROLDÁN:







