Rev. Paulo Henrique Silva Costa: “Já dependi de drogas, hoje dependo de Deus”

A história de Paulo Henrique Silva Costa é muito parecida com a da maioria de homens e mulheres que vivem nas ruas das cidades, principalmente das grandes, como São Paulo.

A história de Paulo Henrique Silva Costa é muito parecida com a da maioria de homens e mulheres que vivem nas ruas das cidades, principalmente das grandes, como São Paulo. Nasceu num lar pobre da periferia, numa família numerosa e desestruturada, foi submetido a violência doméstica, o que favoreceu o contato com as drogas – primeiramente as lícitas e depois as ilícitas. 

O que muda nesta história, o que impediu que Paulo Henrique se tornasse vítima permanente dos vícios e até tivesse um fim trágico, foi a intervenção da graça divina, o amor imensurável e irrestrito de Deus. 

Paulo Henrique não sabia, mas foi separado para ser portador das boas novas do evangelho para essa população com a qual um dia dividiu o papelão no chão das calçadas, a marmita doada, a bituca de cigarro, a miséria de amor. 

Nesta entrevista ao jornal O Estandarte, o Rev. Paulo Henrique conta, em depoimento carregado de emoção, como abandonou uma vida sem futuro para um futuro cheio de vida.

 

Vamos “começar do começo”? Conte-nos como foi sua infância e juventude.

É sempre um desafio falar da minha história, já sofri bastante ao lembrar de tudo o que vivi. Nasci na cidade de São Paulo, há 54 anos. Venho de uma família nordestina, pobre. Tive 14 irmãos, apenas 6 sobreviveram, e eu sou o mais velho destes. Minha mãe era dependente do álcool e meu pai trabalhava muito para dar conta de sustentar tantos filhos. Era ríspido, violento; com ele não havia diálogo; só muita pancada. Isto não justifica minha história, mas explica muita coisa. 

 

Como foi seu primeiro contato com o álcool?
Aos 10 anos, conheci o tabaco acompanhado de bebida numa roda de amigos da escola. A dependência foi rápida. Com 11 anos, eu fumava um maço inteiro de cigarros. Para poder comprá-los, trabalhava como engraxate em porta de padaria, olhava carros em estacionamento, carregava compras nas feiras livres. Fazia isso em contraturno escolar. Eu amava estudar, era curioso, ativo, esperto. Sempre fui bom aluno. 

 

A passagem para as drogas mais pesadas foi ainda quando criança?
Com 12 anos, somei a maconha ao álcool e ao tabaco, e fui assim até a idade do Exército, onde eu gastava muita energia me escondendo para fumar. Sentia muita vergonha e a repreensão era severa. 

 

Como se sustentou depois que saiu do Exército? Conseguia trabalhar? 

Aos 15 anos, trabalhei no Instituto de Engenharia; foi nessa época que conheci a Márcia, minha esposa. Depois do Exército, já bastante dependente das drogas, vivia de pequenos bicos. Depois, consegui ingressar na Xerox do Brasil, uma empresa multinacional, onde tive muitas oportunidades. Eu ganhava muito dinheiro, mas gastava tudo com os vícios. Não tinha pretensão de estudar, não fazia nada além de me drogar muito e viver sem pensar nas consequências.

 

Sua namorada, na época, não percebia que você consumia drogas?

Eu amava a Márcia, uma moça bonita, simples, amorosa. Namoramos por dez anos, e escondi minha dependência até depois de nos casarmos. Estava sempre mentindo e aquilo começou a me deixar constrangido. 

 

E como ela soube? 

Ela descobriu na lua de mel. Eu levei 5 gramas de cocaína, uma quantidade enorme. Não tive controle e ela descobriu. Até então só me via bebendo; não imaginava que havia mais alguma coisa. 

 

Como ficou a relação depois disso?

Eu trabalhava na Enciclopédia Britânica do Brasil. Na época, em 1995, estávamos no auge da Enciclopédia Barsa e de outras literaturas parecidas. Eu vendia bastante e ganhava bem, eu e a Márcia conseguimos comprar apartamento e tínhamos uma vida financeira com razoável estabilidade. Para vender mais, e me drogar sem cobranças, eu viajava muito pelo Brasil todo. Fui para os Estados Unidos como prêmio por meu desempenho. Tinha dinheiro, tinha a maconha, a cocaína, a bebida – tudo isso junto e a falta de controle levaram-me duas vezes para o hospital por overdose. Cheguei a ser ressuscitado. O trabalho deixava-me muitos meses fora de casa. A Márcia ficava sozinha e, com o tempo, adoeceu. 

 

Você pensava em procurar tratamento, preocupava-se com o futuro? 

Não me preocupava com o futuro. Com o surgimento das novas tecnologias, a era digital, internet, eu não consegui acompanhar este processo, estava há muito tempo longe da escola. Continuei vendendo na Britânica, mas não tanto como antes. Numa viagem ap Mato Grosso tive contato com o crack. Rapidamente viciei-me. Foi a bancarrota total. Desumanizei-me, o crack acabou de me destruir.

 

Como ficou seu casamento?
Minha esposa não aguentava mais a situação e quis voltar para a casa dos pais. Fiz muitas promessas para que ela não fosse embora, mas ela estava se tornando codependente e isso a adoecia demais. Suportava tudo sozinha, sua família não sabia o que acontecia, ela tinha vergonha de contar. Eles só sabiam que eu dava muito trabalho. Por conta dessa situação, ela nunca quis ter filhos. No entanto, em um período em que consegui comportar-me melhor, eu disse que meu sonho era ser pai. Ela teve esperança de que eu abandonaria o vício se tivéssemos um filho. Quando nosso filho nasceu e ela disse: “Agora é a chance de você mudar de vida”. Fiquei empolgado, mas não consegui aguentar. Então, a Márcia começou a agir diferente, tornou-se mais severa com relação ao meu comportamento. Num momento de total loucura, saí de casa prometendo que nunca mais pisaria ali. E cumpri a promessa. 

 

Como ficou sua vida depois disso?
Dormi na casa de irmãos, abrigos, sempre colocando a culpa no outro, me vitimizando; fui perdendo família, amigos. As pessoas tentavam me ajudar, mas sabiam que, se me acolhessem, eu daria problema. Sem ter para onde ir, fui para a rua. Fiquei em total situação de vulnerabilidade, as pessoas se afastavam de mim. Eu quis morrer e tentei a morte várias vezes. Hoje entendo que Deus tinha um plano para mim.

 

Como o você conheceu o Evangelho?

Um dia, uma das irmãs da minha esposa pegou um folheto que havia encontrado numa padaria. Era do projeto Despertar da Família da IPI da Freguesia do Ó. Minha cunhada montou uma estratégia: convidou-me para almoçar na casa dela num sábado e disse que a Márcia levaria meu filho para que eu o visse. Aceitei o convite. Depois do almoço, ela entregou-me o folheto, abriu o computador e mostrou-me a casa de recuperação do Despertar. Eu sabia que não tinha outra alternativa a não ser a internação. Não conhecia nada do Evangelho, nada de Jesus. E não estava disposto a aceitá-lo, mas precisava de ajuda. Passei pela triagem e fui para a chácara. 

 

Como foi o tratamento?

O Despertar da Família e a Igreja foram cruciais para mim e minha família. Eles cuidaram e deram apoio para Márcia, que ia toda sexta-feira para entender o contexto e a situação de um viciado. Ia com o Pedro, com um ano e meio de idade. Com o tempo, a Márcia foi sendo atraída por Jesus, e rendeu-se ao Senhor. Eu, por outro lado, saí da chácara, mas não queria nada com Jesus. Então, começaram as lutas espirituais, as batalhas entre minhas convicções e as verdades do Evangelho. Foi difícil demais. Eu estava montado num pedestal de soberba, arrogância, egoísmo, sentimentos presentes nas vítimas de drogadição. A Márcia orava por mim. Foi assim durante quatro anos. Eu saía da chácara e voltava a me revolver na lama do pecado. Eu queria a bênção, mas não queria o abençoador. 

 

Quando aconteceu sua conversão?

Quando sofri um acidente que quase me deixou mutilado. Caí em pé de uma altura de sete metros, de cima de uma laje. Tive fratura exposta do calcâneo e ferimentos sérios. Fiquei no hospital por 18 dias, sofrendo dor intensa, tratando-me com morfina. Foi ali que ouvi Jesus me dizer: “Agora você vai me ouvir”. Naquele hospital aconteceu o extraordinário de Deus. Por dias, eu chorava um choro amargo de arrependimento. O Espírito Santo de Deus ia produzindo o arrependimento no meu coração constantemente, dia e noite, sem parar. Recebia a visita da capelania hospitalar, de jovens de igrejas evangélicas, dos irmãos da igreja da Freguesia do Ó, fui me sentindo amado, importante para Deus. Ali, naquele hospital, finalmente me rendi ao Senhor, me entreguei a Jesus. Pedi a Ele mais uma chance para que eu pudesse servi-lo. E, com a mesma intensidade que me entreguei às drogas, me entreguei ao Senhor. 

 

O que aconteceu depois?

Saí do hospital sem ter para onde ir. Eu teria que ficar oito meses sem pisar no chão, estava com os pés cheios de ferro. Pensei: “O que será de minha vida?”. A Márcia trabalhava fora, não podia cuidar de mim. E tinha o Pedro, que demandava atenção quando não estava na escola. Deus abriu as portas e o coração do meu sogro e da minha sogra. Num ato de extrema misericórdia e amor, eles se ofereceram para cuidar de mim. Deus trabalhou no meu coração através do amor dado pelos meus sogros. Comecei a ter sede e fome da Palavra e a me envolver nas atividades da igreja. Ia aos cultos, aos estudos bíblicos. Fiz a classe de catecúmenos e fui batizado no dia 21 de dezembro de 2014. Nunca mais fui a mesma pessoa. 

 

Quando se tornou pastor da IPI?
Depois da conversão, voltei a estudar, fiz Faculdade de Teologia na FATIPI, hoje sou pastor auxiliar na IPI da Freguesia do Ó. Também trabalho na Fundação Presbiteriana de São Paulo como educador em um projeto do Despertar da Família que nasceu na 1ª IPI de São Paulo e acolhe dependentes químicos e suas famílias do centro de São Paulo. Além disso atuo como capelão hospitalar. Eu estou vivendo o melhor momento da minha vida. É um privilégio ver meu filho, hoje com 16 anos, crescer em estatura e graça. Se antes todo mundo apontava para mim e dizia: “Este não tem mais jeito”, hoje as pessoas se aproximam de mim, falam comigo, pedem oração e ajuda. Eu me comprometi com a obra do Senhor porque foi a minha cura. Tenho consciência de que devo estar em comunhão com Deus o tempo todo para não cair nem perder a força de ajudar outras pessoas. Entendo que tudo aconteceu para que a glória de Deus se manifestasse em minha vida. Minha dependência hoje é totalmente do Senhor.

 

Entrevista completa no Youtube.

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