Pastorear, cuidar e curar

Obra trata do pastoreio como a cura do ser em todas as suas dimensões

A Associação de Seminários Teológicos Evangélicos do Brasil (ASTE), há mais de cinquenta anos vem servindo o meio evangélico brasileiro fomentando discussões teológicas, simpósios e publicações que motivam e favorecem a discussão do pensamento teológico protestante no meio acadêmico, eclesial e especialmente pastoral entre as igrejas evangélicas brasileiras.

Uma das obras de destaque, publicada pela ASTE, é o texto do pastor Ronaldo Sathler-Rosa, professor, por muitos anos, de teologia prática, na Universi- dade Metodista de São Paulo. Uma obra anterior deste autor publicada pela ASTE é o livro “Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança: uma hermenêutica teológico-pastoral”, que veio a público no ano de 2004.

A obra do mesmo autor, alvo destas considerações, é o texto, “Cuidado Pastoral em Perspectiva Histórica e Existencial: uma Revisão Crítica”. Ambas as obras são fruto de longo ministério pastoral e docente do referido autor. Esta obra reforça o saber bíblico, teológico e pastoral a respeito do exercício do cuidado (cura) no seio das comunidades cristãs. Nas palavras do autor, “O argumento principal deste livro é que o exercício do cuidado pastoral e seu quadro teórico se constroem pela convergência de situações que emergem da existência e seu contexto cultural com a mensagem de Jesus de Nazaré” (p.12).

O primeiro capítulo versa sobre a consideração adequada que a vida em si precisa receber da parte daquele que professa a fé em Cristo e se dispõe a cuidar de vidas. Vemos a partir das narrativas dos Evangelhos as pessoas indo até Jesus em busca de respostas para suas lutas e dilemas cotidianos. Em contrapartida, vemos Jesus indo ao encontro dessas demandas e oferecendo-lhes o apoio, o cuidado e a atenção pastoral de que necessitavam.

O segundo capítulo elabora as funções tradicionais do cuidado pastoral, a saber, curar, sustentar e guiar. Partindo das premissas do pastor presbiteriano Seward Hiltner, Sathler-Rosa defenderá a ideia de que essas funções, acima apontadas, possuem o objetivo de “preservar, na perspectiva da dinâmica cristã, o constante compromisso com o bem-estar da pessoa em todos os aspectos de sua vida” (p.52).

O terceiro capítulo está voltado para uma compreensão do desenvolvimento histórico das ações relacionadas ao ministério pastoral. Um ponto impor- tante discutido neste capítulo refere-se à noção pastoral inicial de cuidado (cura) da alma, que se desenvolve para o cuidado e a cura do ser em todas as suas dimensões. Outro ponto refere-se ao resgate de elementos bíblicos como parâmetros para a atuação pastoral no cuidado (cura) das vidas. O autor recupera também o testemunho da atuação das comunidades primitivas no cuidado (cura) pastoral. Acrescenta o desafio vivenciado pelas comunidades de fé que, exercendo a respon- sabilidade de cuidado, possuíam o desafio de enfrentar as perseguições e ainda manter tal cuidado (cura) sobre a vida das pessoas. O autor também apresenta as limitações pastorais vivenciadas num período histórico em que a igreja passou a preocupar-se mais com os “dogmas eclesiásticos” do que com o cuidado (cura) das pessoas, apresentando também as diversas reações ocasionadas por esse pro- cesso reducionista de cuidado pastoral.

O último capítulo é marcado pela perspectiva da esperança como ele- mento superador das limitações da temporalidade. Resgata, o autor, a perspectiva de que o “pastoreio cristão imerge na concretude das aspirações humanas e nos dramas individuais e sociais” (p.115). Em outras palavras, o pastoreio leva em consideração as lutas e enfrentamentos reais das pessoas, para, a partir de cada circunstância, e à luz do testemunho cristão nas Escrituras, oferecer apoio e cuidado (cura) que a pessoa efetivamente necessita. A elaboração do autor apresenta uma gama de enfretamentos tanto para quem carece de cuidado, quanto para o cuidador, a saber: as dificuldades geradas pelo desespero; a indiferença; a vergonha e a humilhação. Estes são alguns dos desafios enfrentados porque necessita de cuidado (cura), como para aquele que exerce o cuidado (cura) sobre uma pessoa.

Por fim, destaca-se a proposição de um cuidado (cura) que considera a temporalidade da realidade humana, tanto quando estabelece o parâmetro teológico-pastoral à luz da esperança. Destaco as seguintes palavras do autor:

“A esperança é primordialmente relacionada à nossa projeção, consciente ou inconsciente, de expectativas e investimentos, no presente, na consciente dimensão do futuro. A ênfase exclusiva na experiência da existência humana no passado e no presente não permite uma plena percepção da dinâmica da esperança, ou no seu antônimo, o desespero. O futuro é a dimensão de finitude que é menos determinada e, simultaneamente, a dimensão de tempo que potencializa o crescimento em maturidade e o de- senvolvimento do ser e o constante evolver-se na direção do plenamente humano” (p.128).

Há outros elementos importantes na abordagem do pastor e professor, Sathler-Rosa. Contudo, não há espaço aqui para tratar de todos os merecidos destaques. Fica aqui, então a recomendação de leitura desta preciosa obra para a teo- logia pastoral no meio protestante brasileiro.

Boa leitura!

 

> Rev. Cleber Diniz Torres é pastor na IPI em São Miguel Arcanjo, SP, professor e capelão da FATIPI.

 

Livro: Cuidado Pastoral em Perspectiva Histórica e Existencial: Uma Revisão Crítica.
Autora: Ronaldo Sathler-Rosa.
Editora: ASTE, 2013.

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