O Pecado da Corrupção

No lamaçal da autoflagelação da ética, os limites da decência são ultrapassados. Chegamos a indagar: quem vigiará os vigilantes?

Pecar é transgredir de forma livre e deliberada as leis de Deus. Rebelião.  Atrevido desejo humano de contestar a vontade divina. A alma quebrando a amizade com Deus. São variados os tipos. O Brasil acrescentou mais um pecado: a corrupção.

O IPC (Índice de Percepção da Corrupção), da ONG Transparência Internacional, revelou num ranking que nosso país ficou em 107º lugar entre 182 nações e territórios, somando 35 pontos na escala de zero a cem. A pontuação nos coloca abaixo da média global e das Américas, com 42 pontos. Causas: macrocorrupção, impunidade generalizada até para corruptos confessos e condutas desmoralizantes do Judiciário. Podemos sintetizar: pecaminoso mergulho num mar de lama, generalizado, endêmico, sistêmico e podre.

 

As circunstâncias

A Bíblia demonstra as circunstâncias de forma muito clara. Raiz de todos os males (1 Tm 6.10), o amor ao dinheiro é o vil metal que engole consciências. “Não cobiçarás”, diz um dos mandamentos. Esquecer do bem comum desagrada ao Senhor e prejudica vidas. “Os mais rebeldes são todos corruptores”, assegura Jr 6.28. A corrupção, método e forma, mina a confiança pública e distorce a justiça. Expõe a ausência de princípios éticos e morais sobre os quais não se pode traficar. Dissabores do Senhor, desde os primórdios dos tempos: “viu Deus a terra e eis que estava corrompida, porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho” (Gn 6.12). Hoje, é o suborno, a extorsão, o desfalque, a apropriação indébita, o fisiologismo, o nepotismo, a evasão fiscal, a lavagem de dinheiro, a depravação moral.

São as razões por que nosso país está no lamentável destaque. O terceiro presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, disse que quando os homens são éticos, as leis se tornam desnecessárias. Mas, quando corruptos, “são inúteis”. É o retrato brasileiro, pois a corrupção está na sociedade e na política. Ativa e passiva, método e forma, corruptor e corrompido, camuflagem em benefício próprio, sem tomar conhecimento de que existe uma constituição cósmica, superior, como explicita a Carta aos Gálatas, nossa Carta Magna. É a “caixinha”. A propina. O jeitinho. O tráfico de influência. O peculato. O desfalque. A expansão demoníaca travestida.

No lamaçal da autoflagelação da ética, os limites da decência são ultrapassados. Chegamos a indagar: quem vigiará os vigilantes? As depravações procuram se proteger por ornamentos retóricos, artifícios semânticos, ginásticas hermenêuticas… tudo para burlar o dever moral da convivência harmoniosa da sociedade. Na antiga Grécia, foi uma das preocupações do filósofo Aristóteles, ao escrever “Da geração e da corrupção”, quando afirmou: “um ser que não cumpre sua finalidade ou a deturpa, é corrupto”. Na “Ética a Nicômaco, dedicada a seu filho, acentuou que a virtude se equilibra entre vícios. Muito direto, o rei da Macedônia, Alexandre Magno, afirmou: “diante de um burro carregado de ouro, nenhum muro de cidade resiste”. Por aqui, é costume dizer que tudo teria um preço. O cheiro da rapadura é muito atraente. Sócrates foi acusado de corrupção moral por não reverenciar os deuses do Olimpo e envenenar a mente da juventude. Condenado à morte, preferiu tomar cicuta a negar suas convicções. Platão escreveu livro sobre o julgamento. Ele mesmo nada deixou escrito.

 

Vade Retro!

Corrupção, do latim corruptio, significa etimologicamente romper completamente ou destruir. Abrange cumplicidade, atingindo governos e instituições. Santo Agostinho preferiu, para defini-la, usar cor (coração) e ruptus (rompido). Podemos buscar uma análise teológica quando cantamos que “a ameaça do gênio (forças) do mal pode a nau tragar”. Sossegai: Cristo vem nos salvar”. O número 1 do mal também joga perigosas sementes, caçando frutos para a árvore da morte. Mesmo assim, não falta quem goste muito de segui-lo.

 

O número 1 do mal também joga perigosas sementes, caçando frutos para a árvore da morte.

 

O nosso ranking é completamente diferente. A conquista cristã é digna dos galardões celestes. Paulo escreveu: a quem honra, honra (Rm 13.7). Nosso pódio vitorioso está bem localizado na inexpugnável dimensão eterna da esperança.

A corrupção quer manchar a nossa alma de mofo para não permitir que ela pulse. Na luta sem fim contra o mal, a batalha é travada nos nossos corações, sensíveis para receber a força do Espírito Santo. No bom combate, a bem-aventurança é colocar a Palavra de Deus em prática, na pregação virtuosa de princípios sadios. A Antiga Aliança é, a um só tempo, nova e eterna. Nossa arca é especial: renovação com rejuvenescimento interno a quem souber fazer escolhas. Para nos proteger, temos o escudo da fé.

O ranking da corrupção envergonha. Mas não nos envergonhamos (Rm 1.16) do Evangelho.

 

Ilustração do topo: Pixabay
Foto de Percival de Souza

Percival de Souza

Jornalista e membro da 1ª IPI de São Paulo, SP.

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