O Deus que a Páscoa revela

Há sinal de maior fraqueza do que a morte? É justamente esse Deus que a Páscoa revela para a humanidade. Um Deus que se esvazia e torna-se fraco.

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8).

 

Vamos comemorar mais uma Páscoa. Juntamente com o Natal, são as datas mais importantes do calendário cristão. Nascimento e morte de Jesus é o que fundamenta nossa fé e, consequentemente, nossa salvação. Sendo momentos tão importantes na história da humanidade e da igreja, deveria mostrar a grandeza de Deus, e assim o faz, mas de maneira diferente, com um paradoxo.

O Deus todo poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, se revela à humanidade na fraqueza. No Natal, Jesus vem como uma criança. Há ser humano mais frágil que uma criança, que precisa de cuidado, de ajuda, de segurança? Na Páscoa, ele se mostra fraco, pois se deixa morrer. Jesus é entregue, açoitado, vilipendiado e morto na cruz. Há sinal de maior fraqueza do que a morte? É justamente esse Deus que a Páscoa revela para a humanidade. Um Deus que se esvazia, torna-se fraco, impotente diante da morte.

 

A fraqueza de Deus

O conceito de um Deus fraco parece, à primeira vista, uma contradição lógica. Como pode a onipotência ser frágil? No entanto, o cerne da teologia cristã, particularmente na teologia da cruz, reside justamente nessa fraqueza deliberada. O apóstolo Paulo deixa bem claro no texto acima: …antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”.

O Prof. Julio Zabatiero em seu livro1 fala de Deus como pai que se mostra no vazio, utilizando o termo “vacuidade”. O Deus que não deixa de ser, mas que assume o não-ser por amor a nós. É no vazio que Deus se revela, mostrando sua grandeza e poder.

A vacuidade divina é a forma ontológica da graça fiel e da fidelidade amorosa de Deus que, diante do pecado humano, se desgosta e, ao invés de destruir a humanidade com seu direito de julgar e condenar, esvazia-se a si mesmo e assume a condição humana, recebendo a execução como crucificado para reconciliar todas as coisas consigo mesmo. (ZABATIERO, 2025, p. 256).

 

O Deus que se faz fraco por nós

A história da religiosidade humana é, em grande parte, a busca por um Deus forte, com exibições pirotécnicas de poder. Assim foram construídos os deuses das mitologias nórdicas, romanas e gregas. No entanto, os evangelhos subvertem essa expectativa ao apresentar a fraqueza como o método de operação de Deus. Para nos alcançar, o Criador não usou a força que esmaga, o poder que domina, mas a fragilidade que abraça, o amor que perdoa, a morte que traz vida.

 

Para nos alcançar, o Criador não usou a força que esmaga, o poder que domina, mas a fragilidade que abraça, o amor que perdoa, a morte que traz vida.

 

O esvaziamento que Paulo se refere na sua carta aos filipenses não é um esvaziamento de Sua divindade, mas uma renúncia ao uso de Seus privilégios divinos. Ao assumir a forma humana, Deus aceita as limitações biológicas e sociais de dependência, pois o Criador do universo torna-se um bebê dependente do colo de uma mulher, de limitação, pois aquele que é a Fonte da Vida experimenta a fadiga e a sede física e da mortalidade, pois experimenta a morte física, submetendo a vida eterna à possibilidade do fim.

 

A fraqueza como linguagem de amor

Por que Deus escolheria a fraqueza? A resposta é ética e relacional. O poder absoluto impõe medo e distância; a fraqueza gera identificação e proximidade. Deus escolheu o caminho do amor, e não do poder, para se relacionar conosco. Um Deus que se faz fraco retira de nós o medo do julgamento punitivo e o substitui pela confiança. Ele se torna o “Sumo Sacerdote que se compadece de nós” (Hebreus 4.15), porque Ele “sabe como é padecer” (Isaías 53.3). A fraqueza de Deus é, portanto, a garantia de do seu amor e de nossa acolhida. Zabatiero escreveu:

A comunicabilidade de Deus demanda, portanto, sua vacuidade; e a vacuidade de Deus, por sua vez, define a sua vidalidade – para comunicar vida Deus precisa se esvaziar, seja no sentido mitigado do ‘sopro da vida’ (em Gn 2), seja no sentido pleno do esvaziamento messiânico. (2025, p.255)

 

O escândalo da cruz: onde o poder se oculta

A teologia clássica de Martinho Lutero distingue a “Teologia da Glória” da “Teologia da Cruz”. Enquanto a primeira busca Deus em coisas grandiosas, a segunda o encontra onde Ele parece mais ausente: na dor, na humilhação e no silêncio do Calvário. Na cruz, Deus revela Sua maior força através da maior fraqueza. Como expressou o apóstolo Paulo: “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1.25). Ao não revidar a violência, Deus interrompe o ciclo do ódio. Sua fraqueza em não descer da cruz é, na verdade, a força de cumprir um propósito redentor que o poder político ou militar jamais alcançaria.

O fato de Deus se fazer fraco por nós ressignifica a nossa própria vulnerabilidade. Se Deus habitou a fraqueza, então ser fraco não é mais um sinal de afastamento divino, mas um espaço de encontro. Não precisamos fingir perfeição para sermos aceitos. A Páscoa nos mostra um Deus que se esvaziou e se entregou por nós. Um Deus que nos amou de tal maneira que foi até as últimas consequências para nos libertar do pecado e nos dar a vida em abundância e vida eterna.

 

O fato de Deus se fazer fraco por nós ressignifica a nossa própria vulnerabilidade. Se Deus habitou a fraqueza, então ser fraco não é mais um sinal de afastamento divino, mas um espaço de encontro.

 

A vacuidade de Deus, utilizando o termo de Zabatiero, nos mostra o caminho da humildade, pois só podemos segui-lo quando nos negamos (Mateus 16.24); só podemos perdoar, quando não reivindicamos; só podemos amar quando nos esvaziamos dos nossos orgulhos. Quando reconhecemos nossa insuficiência, abrimos espaço para a graça.

 

Conclusão

O Deus que se faz fraco por nós não é um Deus impotente, mas um Deus cujo amor é tão grande que se permite ser ferido para curar as feridas de seus filhos e filhas. Ele troca o trono pela manjedoura e o cetro pelos pregos, provando que o poder supremo não reside na capacidade de dominar, mas na liberdade de se entregar.

Vivemos em um mundo que idolatra o poder, o status e a força bruta. O sucesso é medido pela capacidade de dominar. A Proposta dos Evangelhos é contrária. A Bíblia apresenta um caminho inverso. O Deus das Escrituras não nos salva por um ato de coerção, mas por um ato de submissão. Esse é o Deus que a Páscoa nos revela, esse é o Deus que eu creio e sirvo, pois como diz Pedro 1.18-19 – “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo”.

 

Nota:
1. ZABATIERO, Júlio. Deus-pai e sua fidelidade nos escritos paulinos. Campinas, SP: Editora Saber Criativo, 2025.

 

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Série “O Mosaico da Páscoa”

Este artigo faz parte da série “O Mosaico da Páscoa” do portal O Estandarte. A série reúne artigos de diversos líderes da IPI do Brasil, trazendo luz a diferentes aspectos da Páscoa para a Igreja hoje. Queremos criar uma jornada ampla de compreensão e aplicação do Evangelho para que, então, possamos celebrar, não apenas um ou dois aspectos da mensagem pascal, mas toda a revelação de Cristo para o povo de Deus nos tempos atuais.

 

Imagem do topo: Pixabay
Foto de Prof. Rev. Marcos Nunes da Silva

Prof. Rev. Marcos Nunes da Silva

Professor e Diretor da FATIPI. Pastor colaborador da IPI de Vila Carrão.

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