Estagnação na queda do cristianismo nos EUA indica nova fase religiosa

Pesquisa do Pew Research Center aponta estabilização no número de cristãos e crescimento contido dos "sem religião"

Pesquisa do Pew Research Center aponta estabilização no número de cristãos e crescimento contido dos “sem religião”

Após décadas de declínio contínuo, o cristianismo nos Estados Unidos apresenta sinais de estabilização, conforme revela o estudo “Religious Landscape Study 2023-24” do Pew Research Center, publicado em fevereiro de 2025. 

Segundo a pesquisa, 62% dos adultos norte-americanos se identificam como cristãos, uma leve queda em relação aos 71% de 2014 e 78% de 2007. 

Paralelamente, a proporção de pessoas sem afiliação religiosa — os chamados “nones” — atingiu 29%, mantendo-se estável após anos de crescimento acelerado.

Panorama religioso atual

O estudo, que entrevistou mais de 36 mil adultos entre julho de 2023 e março de 2024, destaca que a composição religiosa nos EUA está passando por uma fase de relativa estabilidade. 

Os protestantes representam 40% da população adulta, os católicos 19% e outras tradições cristãs 3%. Entre os não afiliados, 5% se declaram ateus, 6% agnósticos e 19% afirmam não ter nenhuma religião específica.

A pesquisa também aponta que outras religiões, como o judaísmo, islamismo, budismo e hinduísmo, cada uma representa cerca de 1% da população adulta, totalizando 7% para todas as religiões não cristãs.

Tendências geracionais e mudanças de afiliação

Um dos fatores mais significativos para a transformação do cenário religioso norte-americano é a diferença entre gerações. Jovens adultos são consideravelmente menos religiosos do que as gerações anteriores, e não há evidências de que se tornem mais religiosos com o passar do tempo. 

Além disso, a “aderência” à religião herdada na infância está diminuindo: menos jovens adultos mantêm a religiosidade da infância, enquanto aqueles criados sem religião tendem a permanecer não religiosos na vida adulta.

O estudo revela que 35% dos adultos norte-americanos mudaram de afiliação religiosa desde a infância, resultando em perdas líquidas para as tradições cristãs e ganhos para os não afiliados.

Transformações nas denominações cristãs

Dentro do cristianismo, todas as principais vertentes protestantes registraram declínios desde 2007. Os protestantes evangélicos agora representam 23% da população adulta, uma queda em relação aos 26% anteriores. Os protestantes históricos (“mainline”) diminuíram de 18% para 11%, e os membros de igrejas protestantes negras passaram de 7% para 5%.

Apesar dessas quedas, os protestantes não denominacionais cresceram, representando agora 7% da população adulta, sendo a única família protestante a aumentar sua participação desde 2007. 

Crenças espirituais persistem

Apesar do declínio na afiliação religiosa formal, a espiritualidade continua presente na sociedade dos EUA. 

A pesquisa indica que 86% dos adultos acreditam na existência de uma alma ou espírito além do corpo físico, 83% acreditam em Deus ou em um espírito universal, e 79% acreditam em algo espiritual além do mundo natural. Além disso, 70% acreditam no céu, no inferno ou em ambos. 

Implicações futuras

Especialistas sugerem que, embora a atual estabilização possa indicar uma pausa na secularização, fatores como o envelhecimento das gerações mais religiosas e a crescente proporção de jovens não religiosos podem levar a novas quedas na afiliação cristã no futuro. 

A pesquisa projeta que, se as tendências atuais continuarem, os cristãos poderão representar menos da metade da população americana até 2070.

No Brasil, o cenário religioso apresenta características distintas, mas também carrega traços similares ao contexto norte-americano. O cristianismo ainda é predominante, com cerca de 84% da população se declarando cristã, segundo o último Censo do IBGE (2022). 

No entanto, há uma mudança significativa em curso: o catolicismo vem encolhendo rapidamente, enquanto os evangélicos continuam crescendo — especialmente entre os mais jovens e nas periferias urbanas. 

Por outro lado, o número de pessoas sem religião também aumenta, representando atualmente mais de 8% da população, o que indica uma abertura maior para o pluralismo e a secularização, especialmente nas grandes cidades e entre os mais escolarizados.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde os protestantes de linha principal estão em queda acentuada, o Brasil ainda vê um fortalecimento de denominações pentecostais e neopentecostais, que investem pesadamente em mídia, redes sociais e presença pública. 

A migração religiosa interna — de católicos para evangélicos, ou de igrejas históricas para movimentos independentes — é um fenômeno contínuo, assim como o crescimento de comunidades não denominacionais. 

No entanto, as igrejas históricas, como as presbiterianas, enfrentam o desafio de dialogar com as novas gerações sem perder sua identidade teológica e missão pastoral. 

Diante desse panorama, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, as igrejas cristãs são desafiadas a repensar suas estratégias de presença pública, discipulado e engajamento cultural. 

A aparente estabilização da queda no número de cristãos nos EUA pode representar uma oportunidade para revitalização, enquanto no Brasil o crescimento evangélico precisa ser acompanhado por uma reflexão crítica sobre a profundidade da fé e o compromisso com a justiça e o serviço ao próximo. 

Em ambos os contextos, o momento é propício para que comunidades de fé aprofundem seu testemunho, renovem sua vocação e redescubram sua relevância em um mundo em constante transformação.

Rev. Eugênio Sória Anunciação

diretor executivo da Agência de Comunicação Vida e Caminho, da IPI do Brasil

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