Ora, direis, que novidade é essa? Para nós, nenhuma, pois, reformados, sabemos, como Lutero já explicou, que sola scriptura, somente a escritura, é a nossa regra de fé. Agora, o papa Leão 14, explicitou para a Igreja Católica que Maria, a donzela, não é “corredentora” e nem “medianeira”, embora virgem e mãe do Redentor. É o que afirmamos em nosso Credo Apostólico. Não há dúvida, portanto.
Tive a curiosidade de andar, em São Paulo, pela rua dos Protestantes. Trata-se de uma sinalização e reconhecimento de grande marca história, que por sua localização desperta curiosidades, porque fica no coração de um quadrilátero conhecido como “boca do lixo”, uma área da cidade socialmente degradada. Consumidores de drogas ocupam um largo espaço, chaga que se estende para outras ruas, como a Helvétia, onde a Igreja Presbiteriana Unida sofreu graves problemas para acessar o templo, como também aconteceu com a Igreja Batista, na praça Princesa Isabel. Há ruas com esse mesmo nome, Protestantes, em Imperatriz (Maranhão) e Salvador (Bahia) Um registro e homenagem sobre o que aconteceu no século 16.
O papa decidiu “corrigir” o que disse
A decisão papal afetou alguns setores da Igreja Católica, por causa da forma da adoração, não apenas devoção, dirigida a Maria. Leão 14 decidiu corrigi-la, parecendo até se tornar reformador interno, fazendo algumas das coisas que Lutero sentiu necessidade de fazer: o protesto, daí o “protestante”, elaborado em cuidadosas 95 teses. A palavra deriva de protestori, declarar publicamente. A errata em documento papal teve o objetivo de não se confundir com a co-redemptrix, redentor de natureza divina, a cooperação de modo singular. Participou da obra redentora, como mãe. O equívoco, agora oficialmente corrigido, vem de longo período de tradições, como já expresso pelo Concílio Vaticano II, Lumen Gentium (Luz dos Povos), realizado nos anos sessenta, quando se referiu a Jesus, biblicamente a “luz do mundo”. Não se tratava, portanto, como um dogma, como entendido pela própria Igreja Católica. O prefixo “co”, ligado no caso à redenção, vem do latim “cum”, que não significa “igualdade”, como afirmamos pelo Credo dos Apóstolos – symboliem apostolorum, o símbolo dos apóstolos.
O que as Escrituras dizem
Pelas Escrituras, não há questionamentos. Exemplos: Lc 1:26-38, Jo 19:25-27, I Tm 2:5 – “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus”. Tudo é fantástico: a gravidez de Maria, a morte e a ressureição, o retorno para julgar vícios e virtudes, vivos e mortos, durante a peregrinação da vida humana. “E o deitou numa manjedoura”, sublime narrativa, impregnada de delicadeza, carinho e proteção (Lc 2:7), fortíssima como está no original grego: aneklinen auton en te phatne. Jesus não foi concebido por um homem, mas sim pelo Espírito Santo. O que se passou no ventre de Maria? Não sabemos. Não foi, porém, uma partenogênese, a reprodução por óvulos não fecundados.
A Bíblia não detalha isso, porque milagre não tem humana explicação científica. Não foi um fato comum. O Verbo se fez carne. O Espírito Santo, no ventre da virgem, substituiu o elemento masculino na geração de um filho, que se uniu à Pessoa preexistente do Logos, já presente em Maria. O Verbo se transforma em carne, Deus conosco, teantrópico – do grego “theos” e “antropos”, ser divino encarnado em um ser humano. Ação conjunta com o Espírito Santo. Expressão exata do ser, imutável na forma de Deus: “subsistindo em forma de Deus, antes a si mesmo se esvaziou” (Fp 2:6-7), “como expressão exata de seu Ser” (Hb 1:3). Com o Pai, estão as três Pessoas numa única substância. Milagre consumado por uma mãe virgem, única mulher de ventre purificado na História.
A corrigenda de Leão 14 causou impacto. Não deveria ter sido assim. Chegaram a dizer que os protestantes estariam “comemorando” o fato. Não aconteceu nada disso, A Igreja não é para alguns. Sendo a Casa do Pai, acolhe todos os filhos. Por meio dela, deve haver circulação de afeto. Uma família, humana, pulsa em ritmo de amor para atingir o patamar divino. Como uma família, temos um Pai, Eterno (“Pai Nosso que estás nos Céus”…), onde – sem ressalvas – há espaço para todos.
Não se nega os valores da bem-aventurada, que achou graça diante de Deus (“alegra-te muito favorecida!”), o magnífico cântico Magnificat, poética obra prima poética, narrada em Lc 1:46-47 – magnificat anima mea Dominum, a minha alma engrandece o Senhor. A universalidade da salvação. Palavras e ação do Redentor. Tudo está restaurado em Jesus. Não pode haver conflagração, nem rusgas por tradição. Jesus é o epicentro, a base fundamental da fé na ponte construída entre nós e o eterno.
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