O dom de ver o que está lá
Quando jovem, visitei um museu de arte contemporânea. As pinturas abstratas nas paredes pareciam infantis – cores díspares e traços sem forma que nada reproduziam. “Eu poderia fazer isso!” – pensei em voz alta. E, justo naquele momento, a guia, que estava bem do meu lado, respondeu: “Sim, poderia, mas não o fez”.
A guia era uma artista experiente que passou a me ajudar a ver o que estava diante dos meus olhos. Com sabedoria, mostrou o invisível: “A arte expressa a cultura dos tempos. A falta de realismo da arte contemporânea reflete a anomia social nesta transição da modernidade tardia para pós-modernidade”. A guia não mudou a arte, mas transformou os meus olhos, porque eu estava no escuro.
Há muitos povos no escuro. Quantas guerras não estão acontecendo mundo afora? São mais de 56 conflitos armados ativos – da Ucrânia à Palestina, da África Subsaariana ao Sudeste Asiático. Estas são guerras que ceifam milhões de vidas, despedaçam famílias e sepultam esperanças sob escombros do ódio. Nações inteiras gemem sob o peso da morte, presas à lógica fria da Sexta-Feira da Paixão, onde a violência dita o ritmo da história.
Nações inteiras gemem sob o peso da morte, presas à lógica fria da Sexta-Feira da Paixão, onde a violência dita o ritmo da história.
O Domingo de Páscoa, porém, irrompe como luz para todos os povos: ressurreição que transcende fronteiras, etnias e bandeiras, revelando o Cristo vivo que reconcilia consigo mesmo o mundo.
Ainda escuro
João, ao introduzir a história da Páscoa, começa dizendo: “Bem cedo no primeiro dia da semana, ainda escuro” (João 20.1). Ele, que calcula tão bem as palavras, evoca a escuridão como imagem para ilustrar aquele momento. Era escuro lá fora e faltava luz no coração dos discípulos.
Então, o inesperado acontece. A pedra foi removida e o corpo não estava mais lá. Ainda sem o pensar da ressurreição, os discípulos caminhavam perdidos. Notem que ali começa um corre-corre. Os discípulos estavam desorientados e agitados: “Levaram o corpo do nosso Senhor; não sei onde o puseram”. E é justamente isso que as guerras e a opressão maligna tentam fazer: nos desestabilizar, fazendo-nos presos a ciclos de dor e desespero sem a luz da ressurreição. Os discípulos pareciam conhecer apenas uma possibilidade: a lógica da morte sem esperança – o mundo regido por leis mecânicas, onde as coisas são como sempre foram. E o sumiço de Jesus nada mais é que um roubo comum, uma tragédia repetida mil vezes na história.
O poeta inglês do século XVI, John Heywood, já alertava: “Não há ninguém tão cego quanto aqueles que não querem ver”. A notícia do túmulo vazio foi recebida, inicialmente, como uma má noticia, porque os discípulos ainda não contemplavam o milagre pascal. Mas Deus, o nosso Senhor, não se cala! Ele é insistente em anunciar as boas-novas à toda nação. E sua luz pascal foi acesa como esperança que transcende fronteiras, línguas e culturas, chamando todos os povos a saírem das trevas. A luz de Deus é dom para as nações – de Jerusalém aos confins da terra. Deste modo, Maria Madalena, que naquela altura estava ficando boa em contar a história do roubo do corpo de Cristo, teve seus olhos abertos. (Você notou como a repetição de uma má história pode se tornar a história de sua vida, ou a história de povos inteiros?)
Deus, o nosso Senhor, não se cala! Ele é insistente em anunciar as boas-novas à toda nação.
Pois bem, João revela que a discípula do vilarejo de Magdalena ouviu a voz de Jesus. O Jardineiro – que não por acaso trabalhava ao domingo – a chamou pelo nome. Maria não estava mais no escuro. A luz despontou. Tudo somava de maneira diferente. Deus abrira um novo e vivo caminho, e a tarefa da “arauta” do Cristo Ressurreto – que é também a nossa tarefa – passou a ser aprender esta nova história (e como é difícil aprender algo novo quando estamos tão habituados com o antigo!).
A nova história da Páscoa
A nova história da Páscoa é o fundamento da esperança cristã para o mundo. Nações inteiras vivem nas sombras da violência e do desespero. Assim, como cristãos, brasileiros, reformados, e presbiterianos independentes, somos chamados, homens e mulheres, a sermos como Maria Madalena: crentes que anunciam que Cristo Jesus vivo está.
Maria Madalena não precisava mais encontrar o cadáver, nem se transformar em um. Jesus Cristo veio a ela, e transformou seu mundo de Sexta-Feira da Paixão – “tudo depende de mim” – em um mundo de Páscoa – “Deus está agindo no mundo”. Ela se tornou a mensageira das boas-novas, pois Jesus é verdadeiramente o Emanuel.
Essa verdade deve inspirar nossas igrejas e incendiar-nos para a missão. Não está mais escuro. A pedra foi removida! O túmulo está vazio! Cristo ressuscitou! Graças a Deus.
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Assessoria de Relações Intereclesiásticas e Internacionais da IPIB
Contato: global.partnership@ipib.org
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Série “O Mosaico da Páscoa”
Este artigo faz parte da série “O Mosaico da Páscoa” do portal O Estandarte. A série reúne artigos de diversos líderes da IPI do Brasil, trazendo luz a diferentes aspectos da Páscoa para a Igreja hoje. Queremos criar uma jornada ampla de compreensão e aplicação do Evangelho para que, então, possamos celebrar, não apenas um ou dois aspectos da mensagem pascal, mas toda a revelação de Cristo para o povo de Deus nos tempos atuais.







