A dificuldade de entrar
Há experiências na vida em que o mais difícil não é permanecer, mas entrar. O primeiro dia em uma escola, a chegada a uma nova comunidade ou o início de um novo tempo na vida carregam sempre uma sensação de estranhamento. Existe sempre o receio silencioso de não pertencer completamente. Algo semelhante acontece na vida espiritual. Muitos vivem com a impressão de que chegaram tarde demais, que perderam o momento ou que suas falhas os deixaram do lado de fora da comunhão de Deus. A Escritura, porém, revela algo surpreendente: Deus não apenas salva seu povo — Ele forma seu povo pela memória da salvação. A Páscoa foi uma dessas grandes lições pedagógicas.
A memória que forma o povo
Em Números, capítulo 9, encontramos a regulamentação da Páscoa no deserto. Israel deveria celebrar a festa no tempo determinado e segundo os detalhes estabelecidos por Deus. A repetição anual não era mero formalismo religioso. Era uma pedagogia espiritual. Cada família deveria recontar a história da libertação do Egito para que as novas gerações aprendessem que sua existência dependia da graça de Deus.
O reformador João Calvino percebeu bem esse aspecto formativo da fé. Ao falar sobre os sinais da aliança, ele escreveu: “Os sacramentos são como espelhos nos quais contemplamos as riquezas da graça que Deus nos concede.”
Deus conhece nossa fragilidade e, por isso, usa sinais visíveis para gravar suas promessas em nossa memória. A Páscoa ensinava Israel a nunca esquecer quem os libertou.
Quando alguém fica de fora e não quer aprender?
O capítulo, porém, apresenta uma situação delicada. Alguns homens estavam cerimonialmente impuros por terem tocado um cadáver e, por isso, não poderiam participar da celebração naquele momento como foi instruído e ensinado anteriormente em Êxodo 12. A pergunta deles é profundamente humana: “Por que seríamos privados de apresentar a oferta do Senhor?”. Eles não estavam indiferentes. Pelo contrário, queriam participar da comunhão do povo de Deus. O Senhor então responde de forma surpreendente. Ele não ignora sua própria lei, nem relativiza a santidade do culto. Em vez disso, estabelece uma solução pastoral: aqueles que não puderam celebrar a Páscoa no tempo regular poderia fazê-lo um mês depois.
Como observa Iain M. Duguid1, o texto revela duas verdades que caminham juntas: Deus é um Deus que exige obediência precisa, mas também é “o Deus das segundas chances”. A solução divina não foi fingir que não havia problema, mas criar um caminho para restaurar a participação daqueles que ficaram de fora. Além disso, o texto afirma que o estrangeiro também poderia participar da Páscoa (Nm 9.14). A libertação celebrada por Israel já apontava para algo maior do que a própria nação. Desde o deserto, Deus já ensinava que sua graça alcançaria mais gente do que imaginávamos.
Deus é um Deus que exige obediência precisa, mas também é “o Deus das segundas chances”.
A Páscoa que ninguém percebeu
Séculos depois, em Jerusalém, outra Páscoa estava acontecendo.
Os cordeiros sendo preparados.
As famílias se reuniam.
Os rituais seguiam seu curso.
Mas fora da cidade, em um monte chamado caveira, o verdadeiro Cordeiro havia sido morto. Foi então que dois homens saíram das sombras: José de Arimatéia e Nicodemos.
“Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, ainda que ocultamente pelo receio que tinha dos judeus, rogou a Pilatos que lhe permitisse tirar o corpo de Jesus. Pilatos lho permitiu. Então foi e retirou o corpo de Jesus. E também Nicodemos, aquele que anteriormente viera ter com Jesus à noite, foi levando cerca de cem libras de um composto de mirra e aloés. Tomaram, pois, o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com os aromas, como é de costume entre os judeus na preparação para o sepulcro. No lugar onde Jesus fora crucificado havia um jardim, e neste um sepulcro novo, no qual ninguém ainda fora posto. Ali, pois, por causa da preparação dos judeus e por estar perto o túmulo, depositaram o corpo de Jesus.” (João 19.38–42)
Homens respeitados.
Mestres em Israel. Conhecedores da Lei.
Eles foram até a cruz.
Pisaram na terra misturada com sangue.
Tocaram o corpo morto de Jesus.
Retiraram os cravos das mãos e dos pés.
As mãos que haviam tocado leprosos estavam frias.
Os pés que caminharam sobre as águas estavam perfurados.
A boca que anunciara palavras de vida estava em silêncio.
Eles envolveram o corpo em linho e aromas e o levaram para um túmulo novo em um jardim.
Mas havia um detalhe que todo judeu sabia.
Ao tocar um cadáver, eles se tornaram impuros para a Páscoa.
Aparentemente, haviam perdido a festa.
Mas a verdade era outra.
Enquanto Jerusalém celebrava a Páscoa com cordeiros simbólicos, dois homens silenciosamente cuidavam do verdadeiro Cordeiro de Deus. Eles não perderam a Páscoa. Eles tocaram a própria Páscoa.
A pedagogia que culmina na cruz
O Novo Testamento declara com clareza que Cristo é a nossa Páscoa. O apóstolo Paulo afirma que “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado; por isso celebremos a festa” (1Co 5.7–8). Aquilo que começou como memória da libertação no Egito tornou-se, na igreja, a lembrança permanente de que a redenção definitiva aconteceu na cruz.
O que era celebrado todos os anos encontrou seu cumprimento definitivo na cruz.
Antes, era um cordeiro por família.
Agora, é um Cordeiro para o mundo.
Antes, o sangue era colocado nos umbrais das portas.
Agora, o sangue de Cristo cobre aqueles que nele confiam.
A pedagogia da Páscoa encontra aqui seu clímax: durante séculos Deus ensinou seu povo a reconhecer o significado do sacrifício que viria.
A boa notícia permanece a mesma: ninguém precisa ficar de fora da redenção de Deus. Nem o impuro. Nem o estrangeiro. Nem aquele que chegou tarde.
Nem aquele que teme não pertencer. Porque em Cristo, o Cordeiro definitivo, a porta permanece aberta. A Páscoa é a aula de Deus para o mundo — e o sangue de Cristo é o convite para entrar.
Nota:
1. O Dr. Iain M. Duguid (nascido em 15 de outubro de 1960) é um renomado teólogo, autor e professor escocês, amplamente reconhecido por suas contribuições ao estudo do Antigo Testamento e pela sua abordagem de pregação centrada em Cristo. Atualmente, ele atua como Professor de Antigo Testamento no Westminster Theological Seminary na Filadélfia.
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Série “O Mosaico da Páscoa”
Este artigo faz parte da série “O Mosaico da Páscoa” do portal O Estandarte. A série reúne artigos de diversos líderes da IPI do Brasil, trazendo luz a diferentes aspectos da Páscoa para a Igreja hoje. Queremos criar uma jornada ampla de compreensão e aplicação do Evangelho para que, então, possamos celebrar, não apenas um ou dois aspectos da mensagem pascal, mas toda a revelação de Cristo para o povo de Deus nos tempos atuais.







