Por que temos presbíteros?

O resgate do ministério presbiteral: de curadores de um museu sagrado a estrategistas do Reino

 

“Eu o deixei na ilha de Creta para que você pusesse em ordem o que ainda faltava fazer e para nomear em cada cidade os presbíteros das igrejas”.

(Tito 1.5)

 

Antes de falarmos sobre o ministério do presbítero e da presbítera na igreja, faz-se necessário falarmos, ainda que rapidamente, do sistema presbiteriano de governo.

Com a Reforma Protestante do século XVI, os reformadores João Calvino e Guilherme Farel, em Genebra, tiveram que enfrentar, logo de saída, o problema da organização da igreja. Eles estavam saindo da igreja católica medieval, poderosa, que torturava e queimava os “hereges” (na verdade, aqueles que tinham a coragem de questionar o seu poder “divino”).

A organização da igreja católica consistia e ainda hoje é assim: o Papa, também chamado de “Bispo de Roma”, os cardeais, os bispos locais e os padres. Para eles esse modelo havia sido dado diretamente por Jesus a Pedro. O Papa assumia todo poder diante da igreja, e não podia ser questionado.

 

Como Calvino organizou a igreja

Calvino se preocupava muito com a questão da organização eclesiástica. Ele reconhecia a impossibilidade da Igreja de se manter por muito tempo se não houvesse uma forma de organizar as pessoas. No caso da igreja em Genebra, ela foi organizada debaixo de uma rígida disciplina, nascendo assim o sistema presbiteriano de governo. Calvino apresentou à cidade as Ordenanças Eclesiásticas, que reorganizavam a vida da Igreja e da cidade, estruturando quatro ministérios:

  1. Pastores: responsáveis pela pregação e administração dos sacramentos;
  2. Doutores (ou professores): responsáveis pela formação teológica;
  3. Presbíteros: responsáveis pela supervisão moral do povo;
  4. Diáconos: responsáveis pela assistência aos pobres e pela gestão hospitalar.

 

Essa estrutura, posteriormente adotada por outras igrejas reformadas, tornou-se a base do presbiterianismo. Mas a igreja de São Pedro em Genebra não recebeu o nome de Presbiteriana. Isso veio a acontecer apenas na Reforma Protestante na Escócia com John Knox, discípulo de Calvino.

O sistema presbiteriano de governo é representativo onde o povo governa, mas o faz de maneira indireta, por meio de representantes eleitos em assembleias convocadas para esse fim.

 

Prós e contras do sistema presbiteriano

O sistema presbiteriano, como qualquer outro, tem prós e contras, afinal é uma instituição formada por seres humanos.

Prós:

  • Elege pessoas que terão a responsabilidade de governar, de acordo com as aspirações da igreja.
  • Evita divisões nas decisões, porque é o conselho quem decide, foi eleito para isso.

Contras:

  • Quando os eleitos agem de acordo com suas próprias ideias e desejos, sem procurar ouvir a igreja que os elegeu.
  • Quando os eleitos se tornam negligentes no cargo.

 

Como é na IPI do Brasil?

Na Igreja Presbiteriana Independente do Brasil há os presbíteros docentes (pastores e pastoras) e os presbíteros regentes (membros do conselho). Não existe hierarquia, um não é mais importante que o outro – incluindo, os diáconos e diaconisas, que mesmo com funções diferentes também são oficiais da igreja. Na IPIB temos Presbíteros e Presbíteras.

 

Não existe hierarquia, um não é mais importante que o outro.

 

Em que consiste o chamado para o presbiterato?

O presbiterato não é apenas um cargo administrativo ou de honra; é um chamado bíblico para equipar o povo de Deus para sua missão no mundo. Para isso, precisam ter algumas atitudes:

  1. Do “manter” ao “enviar”: É uma mudança de paradigma. Tradicionalmente, muitos presbíteros focam sua energia na gestão patrimonial e disciplina interna, mas a liderança missional exige uma mudança de foco, de uma liderança de manutenção – normalmente focada na frequência e nas contas a pagar – para uma liderança missional, que não se esquece de dentro, mas também olha para fora, olhando para a vizinhança e como estamos servindo a comunidade. Nesse sentido, os presbíteros contribuem com o crescimento do evangelho quando deixam de ser “curadores de um museu sagrado” para se tornarem estrategistas de campo.
  2. O Presbítero deve exercer um papel de capacitador. Esta talvez seja a principal contribuição da liderança presbiteral: treinar ou capacitar vidas para servir a Deus e ao próximo. Em Efésios 4.11-12, o apóstolo Paulo afirma que os líderes existem para “o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério”, ou seja, receberam os dons para usar na comunidade, capacitando e treinando o povo de Deus.
  3. Outro aspecto numa liderança missional é a presença. A liderança missional é baseada no modelo de Jesus. Presbíteros e presbíteras não lideram apenas de salas de reunião; eles lideram pelo exemplo de inserção na comunidade. O líder missional é conhecido no bairro, no conselho tutelar, na associação de moradores, na padaria ou na mercearia.
  4. Outra característica é a hospitalidade. Transformar a própria casa em um posto avançado do Reino. A hospitalidade é uma qualificação bíblica para o presbiterato (1 Timóteo 3.2) e é a ferramenta missional mais poderosa da igreja primitiva. O cuidado pastoral dos presbíteros/as deve incluir a saúde emocional e espiritual dos membros para que estes suportem o “custo” da missão.
  5. Presbíteros e presbíteras devem observar onde Deus já está trabalhando na comunidade local e alinhar os recursos da igreja a essa movimentação. Isso pode envolver parcerias estratégicas, como colaborar com ONGs, escolas ou outras igrejas para resolver problemas sociais locais ou mesmo desenvolver ações diaconais através da coordenação do MASD – Ministério de Ação Social e Diaconia da igreja local.
  6. Presbíteros e presbíteras precisam seguir os passos de Jesus que veio para servir (Marcos 10.45). Não se preocupar com a quantidade de membros, mas com a quantidade de discípulos e discípulas de Jesus que a igreja tem.

 

Uma liderança missional, precisa ter consciência de que a igreja foi criada por Jesus para cumprir a missão de Deus. Nesse sentido, não é a igreja que tem uma missão, mas a missão que tem a igreja. A missão de Deus é salvar vidas, foi para isso que Jesus encarnou, morreu e ressuscitou. Se essa é a missão, tudo que a igreja faz deve ser para cumprir essa missão.

 

Uma igreja para a glória de Deus

Presbíteros e presbíteras contribuem para uma liderança missional quando entendem que a igreja não existe para si mesma, mas para a glória de Deus manifestada no serviço ao próximo. Lembrar sempre a igreja do seu envio, como disse Jesus aos discípulos “Que a paz esteja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (João 20.21).

 

Para pensar

“Se sua igreja local desaparecesse amanhã, o bairro sentiria falta dela ou apenas os membros notariam o fechamento das portas?” A resposta a essa pergunta define o sucesso da liderança missional.

 

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Prof. Rev. Marcos Nunes da Silva

Diretor Acadêmico da FATIPI

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