A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo é um evento tão extraordinário que não cabe em um só domingo. A igreja precisa de mais tempo para meditar e se alegrar na realidade da vitória do Senhor sobre a morte. O calendário cristão, portanto, estende o tempo pascal por “uma semana de semanas”, quarenta e nove dias, sendo que o quinquagésimo (“pentecoste”, no grego) encerra o ciclo da Páscoa no ano litúrgico.
O Pentecostes cristão
No livro de Atos dos Apóstolos, lemos que Jesus, antes de subir ao céu, instruiu os seus discípulos por 40 dias “falando das coisas relacionadas com o Reino de Deus” (At 1.3). Ele ordenou que não se afastassem de Jerusalém, mas que aguardassem ali o cumprimento da promessa do Pai (At 1.4; Lc 24.49). No dia em que ascendeu ao céu, Jesus afirmou que eles receberiam poder do alto, ao descer sobre eles o Espírito Santo e se torna riam suas testemunhas por todo o mundo (At 1.8).
Os discípulos permaneceram então nas proximidades de Jerusalém. Lá estavam no dia de Pentecostes. Nesse dia o Pai cumpriu sua promessa enviando sobre os discípulos de Jesus o seu Espírito Santo (At 2).
No texto de Atos, a descida do Espírito Santo é um relato de teofania. Deus se manifesta de maneira extraordinária: “vento impetuoso”, “línguas, como de fogo” e os que ficaram cheios do Espírito começaram a falar em outras línguas, sendo que cada um que os ouvia podia compreender em sua própria língua materna (At 2.2-4, 6).
O Espírito veio sobre todos os discípulos de Jesus cumprindo a profecia de Joel (Jl 2.28-29; At 2.17-18).
Esse episódio marca o início da igreja cristã.
Espírito, Igreja e comunhão
Se na festa judaica de Pentecostes o que se celebrava era a dádiva da Lei, na festa cristã o que se celebra é a dádiva do Espírito.
Se na festa judaica o que se celebrava era o aniversário da aliança no Sinai, na festa cristã o que se celebra é o aniversário da igreja.
O Espírito Santo está intimamente ligado à igreja. Não à toa que, no Credo Apostólico, Espírito e Igreja aparecem um ao lado do outro: “Creio no Espírito Santo; na santa igreja católica…”.
O Espírito dá origem à igreja. A igreja é o Corpo de Cristo vivificado pelo Espírito. Pentecostes é a festa da igreja.
O aniversário da igreja local, o aniversário da igreja nacional (31 de julho), o aniversário da Reforma Protestante (31 de outubro) sempre são motivos para muita festa. O Dia de Pentecostes, porém, chama a atenção para a nossa identidade mais profunda. Antes de sermos membros de uma comunidade em um bairro, município, estado e país; antes de sermos membros de uma denominação; antes de sermos presbiterianos, reformados, protestantes; antes de tudo, somos cristãos, membros da Igreja de Cristo. Minha igreja local, minha denominação, minha tradição eclesiástica são importantes à medida em que me conectam à única Igreja de Cristo, gerada pelo Espírito Santo no dia de Pentecostes.
O domingo de Pentecostes é dia de celebrar a unidade da igreja, de lembrar que somos todos membros do único Corpo de Cristo.
O domingo de Pentecostes é dia de celebrar a unidade da igreja, de lembrar que somos todos membros do único Corpo de Cristo.
A igreja é a comunhão dos santos, pelo poder do Espírito. Mais uma vez, o Credo Apostólico: “Creio no Espírito Santo; na santa igreja católica; na comunhão dos santos…”. Pentecostes reúne a todos, promove a comunhão do povo de Deus. Pentecostes é milagre da comunicação, desfaz a confusão e a dispersão de Babel, promove o entendimento entre todos.
Pessoas de todas as partes, povos, nações, raças, etnias estão presentes no dia de Pentecostes, estão juntas e se entendem (At 2.9-11). As línguas são diferentes, mas a comunicação se estabelece harmoniosa pelo poder do Espírito. Ele é o Espírito da comunhão, da comunicação, da unidade, do amor. No Espírito de Jesus, somos uma só igreja, formamos uma só família na fé.
A celebração de Pentecostes é oportuna para lembrar que devemos empenhar esforços no sentido de “preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.3). Paulo fala em somente “um corpo”, “um Espírito”, “uma esperança”, “um Senhor”, “uma fé”, “um batismo”, “um Deus e Pai de todos” (Ef 4.4-6). Os dons, os serviços e as realizações no Corpo de Cristo são muitos, mas todos concedidos pelo único e mesmo Espírito Santo que assim promove a edificação do corpo (1Co 12.4 11). O Espírito gera a unidade na diversidade.
Na semana que antecede o dia de Pentecostes, cristãos ao redor do mundo realizam a “Semana de Oração pela Unidade Cristã”.
O culto de Pentecostes encerra essa semana e é uma preciosa oportunidade para interceder pela unidade dos cristãos. Ao fazermos isso, nos unimos à oração do próprio Senhor Jesus, que desejou essa unidade:
“Eu lhes transmiti a glória que me deste, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.22 23).
A ORIGEM DO PENTECOSTES
A origem da celebração de Pentecostes é antiga, remonta à realidade agrícola de Israel. A princípio, era chamada de Festa da Colheita ou de Festa das Semanas (Ex 23.14-17; Ex 34.22; Lv 23.15-21).
Ao lado da Páscoa e da celebração dos Tabernáculos, era uma das festas mais importantes para os israelitas. Estava associada à colheita do trigo e à dedicação das primícias dos frutos da terra ao Senhor. Era uma festa alegre e de gratidão a Deus. Provavelmente já no período da dominação grega sobre a Palestina, a festa passou a ser chamada pelo seu nome grego: Pentecostes (por ser realizada cinquenta dias depois da Páscoa).
Também tardiamente no judaísmo ocorreu uma transformação no significado da festa. Os judeus passaram a enfatizar a aliança de Deus com o seu povo no deserto, após a libertação do cativeiro do Egito. Assim, Pentecostes tornou-se uma celebração da aliança e da Lei (que sempre foram muito importantes para os judeus).
Nos dias de Jesus, a festa de Pentecostes recordava a data em que o Senhor entregou as tábuas da Lei a Moisés no Sinai, fazendo aliança com o seu povo. Era para isto que os judeus peregrinavam a Jerusalém por ocasião dessa festa: para celebrar o aniversário da dádiva da Lei de Deus.
O CULTO DE PENTECOSTES
O domingo de Pentecostes não é um dia fixo no ano. [Em 2026, ele cai no dia 24 de maio]. Com entusiasmo, devemos organizar a celebração do “aniversário da Igreja de Cristo”, preparando a liturgia com antecedência e com zelo.
Os textos bíblicos sugeridos pelo lecionário para o Pentecostes neste ano [2023] são: At 2.1-21 ou Nm 11.24-30; Sl 104.24-34, 35b; 1Co 12.3b-13 ou At 2.1 21; Jo 20.19-23 ou Jo 7.37-39. Seria bom não omitir os textos de Atos dos Apóstolos e do Evangelho nesse culto.
Nosso hinário “Cantai Todos os Povos” possui vários hinos com os temas de Pentecostes e do Espírito Santo. Ver os hinos 378 ao 389. Existem hinos sobre esses temas também espalhados pelo hinário, como o 294, o 312 e o 408 (entre outros). Igualmente, o tema da unidade pode oferecer boa sugestão para a escolha de músicas. Por exemplo, os números 176, 260, 301 e 312.
O “Manual do Culto” da IPI do Brasil possui duas ordens litúrgicas para o dia de Pentecostes. Uma delas enfatiza o tema da unidade.
Leitura e pregação da Palavra de Deus, ministração dos sacramentos, recepção de novos membros na comunidade, ordenação e investidura de oficiais são particularmente indicados para esse culto, tendo em vista sua relação com o ministério do Espírito Santo.
O dia de Pentecostes suscita também o uso criativo da rica linguagem simbólica, amparada nas Escrituras e na tradição da Igreja. A cor vermelha, o “fogo”, o “vento”, a “água” e a “pomba” são símbolos do Espírito e podem ser utilizados para enriquecer a experiência litúrgica.
Em dias de tanta divisão, discórdia, polarização na sociedade, no Espírito unidos, celebremos com alegria a vida, os dons, a comunhão e a missão da Igreja de Cristo.
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Nota do editor:
Artigo publicado originalmente em O Estandarte, maio de 2023 (Ano 131, n° 05, p. 20 e 21) com o título “No Espírito Unidos”.







