E quem pastoreia os pastores?

Muitos pastores não estão cansados do ministério. Só não aguentam mais sustentar tudo sozinhos. Conheça a Secretaria Nacional de Cuidado Pastoral

 

A entrevista a seguir apresenta a atuação da Secretaria Nacional de Cuidado Pastoral da IPI do Brasil, liderada pela Rev.ª Jaqueline Paes, com foco na saúde emocional, espiritual e ministerial de pastores e pastoras. O conteúdo destaca os desafios enfrentados pelos líderes cristãos, como esgotamento, solidão e pressão ministerial. Ela defende a criação de uma cultura de cuidado e apoio mútuo, inclusive, compartilhando sua própria história de luto e sofrimento nas “noites escuras da alma”.

A secretária também apresenta projetos de mentoria, apoio terapêutico e acompanhamento de famílias pastorais para 2026.

A entrevista enfatiza que o modelo bíblico do “Bom Pastor”, apresentado por Jesus, deve inspirar líderes e igrejas a promoverem relacionamentos saudáveis, acolhimento e serviço sacrificial. Por fim, reforça que cuidar de quem cuida é essencial para a saúde da igreja e para a longevidade do ministério pastoral.

Confira!

 

 

Entrevistada: Reva. Jaqueline Regina Paes

Secretaria: Nacional de Cuidado Pastoral

 

SOBRE A SECRETARIA

Por favor, explique ao leitor(a) qual os objetivos da sua secretaria nacional?

As atribuições da Secretaria de Cuidado Pastoral dizem respeito ao cuidado da saúde ministerial dos pastores e pastoras da IPI do Brasil. Neste sentido, cabe à Secretaria Pastoral atender e/ou encaminhar pastores e pastoras em necessidades especiais para tratamento, conforme a situação.

Dentro desta premissa do cuidado ministerial, a Secretaria Pastoral também é a responsável por desenvolver, em conjunto com a Gestão Ministerial e Secretaria de Educação, o Programa de Educação Continuada de Ministros. A educação continuada de pastores é essencial para o aprimoramento ministerial, capacitando líderes a enfrentar os desafios da igreja moderna e a se adaptarem às mudanças sociais e culturais. Ela vai além do seminário inicial, permitindo a revisão de conceitos, o desenvolvimento de novas habilidades e a manutenção de uma liderança saudável e atualizada.

A educação continuada também é vista como uma forma de viver o conceito de aprendizado ao longo da vida no contexto ministerial, mantendo o líder comprometido com a verdade bíblica e apto para ensinar. Neste este ano, a Educação Continuada está sendo executada juntamente com o Fórum de Liderança Transformadora, com foco no discipulado e formação de liderança.

A Secretaria também acompanha os trabalhos do Núcleo de Apoio ao Ministério Feminino, o Núcleo de Apoio a Famílias de Pastores e Pastoras e o Núcleo de Apoio Terapêutico.

 

Quais os maiores desafios para o alcance desses objetivos?

Ainda paira no imaginário de pastores e pastoras um temor em receber cuidado -seja físico, emocional ou espiritual – e isso, muitas vezes, nasce de uma mistura de pressões ministeriais, expectativas culturais e vulnerabilidades pessoais. Tal receio pode levar a esgotamento, isolamento e até ao abandono do ministério. Buscar ajuda ainda pode significar, para alguns, demonstração de fraqueza, o que gera o medo de parecer falta de vocação, ou até mesmo possibilidade de perder o “ministério” ou o espaço para exercer o ministério.

O ministério pastoral é um chamado santo — mas também profundamente exigente. Ao longo do tempo, muitos carregam sozinhos o peso das decisões, das dores da igreja e das próprias lutas silenciosas. Cuidar de outros nunca pode significar abandonar o cuidado de si. Cuidar da saúde dos pastores é vital porque enfrentamos alta carga emocional, riscos de burnout e depressão devido às pressões do ministério. A Bíblia mostra que líderes também têm fragilidades e precisam de apoio. O cuidado pastoral não é apenas do pastor para a igreja; pastores precisam ser pastoreados e receber cuidado (físico, emocional e espiritual) de suas famílias, da igreja e de mentores.

 

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O ministério pastoral é um chamado santo — mas também profundamente exigente. Ao longo do tempo, muitos carregam sozinhos o peso das decisões, das dores da igreja e das próprias lutas silenciosas.
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A falta desse cuidado pode levar a problemas sérios, como esgotamento (burnout) e doenças físicas. Um pastor/pastora saudável lidera melhor, mantém limites saudáveis e garante a longevidade no serviço. O cuidado físico e mental previne o esgotamento extremo que afeta muitos líderes. Isso não nos livra do adoecimento, mas nos ajuda a enfrentar quando bater à nossa porta.

Muitos pastores não estão cansados do ministério. Às vezes, eles só estão cansados de sustentar tudo sozinho. Moisés precisou de Arão e Hur para segurarem seus braços (ou mãos) erguidos durante a batalha contra os amalequitas, relatada em Êxodo 17. Como os braços de Moisés estavam pesados e cansados, eles sentaram-no em uma pedra e sustentaram suas mãos firmes até o pôr do sol, garantindo a vitória de Israel. Vemos aí um exemplo dessa cultura do cuidado.

Por outro lado, sabemos que a frustração pastoral, quando não tratada, pode levar líderes a desenvolverem comportamentos tóxicos, resultando em pastores que culpam, ferem e abusam emocionalmente da igreja, transformando o ambiente de cura em um lugar de dor. Quando pastores feridos ferem, ocorre um fenômeno complexo onde líderes eclesiásticos, que deveriam ser agentes de cura, acabam transmitindo suas próprias dores e frustrações (inconscientemente ou não) para o rebanho. Esse comportamento é frequentemente fruto de um esgotamento emocional, solidão ou feridas causadas pelo próprio exercício ministerial, levando a atitudes violentas, egoístas ou negligentes com as ovelhas.

Não podemos deixar que nossas feridas nos distanciem do chamado. A cura desse cenário passa pela cura do próprio líder. A cura do ambiente e do pastor é essencial para a saúde da igreja. Líderes precisam de espaços seguros para curar suas próprias feridas, sem a obrigação de manter uma fachada de invulnerabilidade.

 

Como você pretende alcançar esses objetivos?

Desenvolver uma cultura do cuidado. E isso não se relaciona apenas com os pastores e pastoras, mas com os conselhos, Presbitérios e Sínodos.

Fortalecer igrejas passa, necessariamente, por fortalecer seus pastores. Presbitérios e sínodos têm um papel estratégico na sustentação da vida ministerial, promovendo unidade, cuidado e desenvolvimento contínuo das lideranças.

A Secretaria de Cuidado Pastoral quer disponibilizar ferramentas a serviço dessa missão, oferecendo estrutura, acompanhamento e caminhos práticos para o cuidado pastoral em escala mais ampla. Não se trata apenas de responder a crises, mas de construir uma cultura de cuidado, prevenção e formação permanente. Ao abraçar esse recurso, presbitérios e sínodos ampliam sua capacidade de servir às igrejas locais, fortalecendo o corpo como um todo. Nessa mesma linha, o Conselho pode e deve exercer seu papel de forma ainda mais completa, promovendo cuidado, acompanhamento e desenvolvimento do ministério pastoral. Ao abrir espaço para esse acompanhamento, o Conselho demonstra sabedoria, zelo e compromisso com o futuro da comunidade. Cuidar de quem cuida é um ato de governo espiritual.

 

O que há de planejado para 2026?

Pensando em cuidado, com foco em prevenção, iniciamos um grupo de mentoria com pastores com pouco tempo de ordenação (até 5 anos de ordenação). A mentoria para pastores recém-ordenados é fundamental porque a ordenação reconhece o chamado, mas não elimina a necessidade de aprendizado prático, amadurecimento emocional e suporte pastoral. Ela ajuda a transitar da teoria teológica para a prática ministerial, prevenindo a solidão e o esgotamento. Nosso objetivo é ajudar o novo pastor/a a não caminhar sozinho, oferecendo suporte para que sua jornada seja saudável e sustentável.

 

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Iniciamos um grupo de mentoria com pastores com pouco tempo de ordenação (até 5 anos de ordenação).
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Também faz parte do nosso planejamento para este ano a formação de um grupo de mentoria com pastores próximos à jubilação (aposentadoria). Entendemos ser fundamental porque este período marca uma transição complexa que envolve questões emocionais, funcionais e espirituais. O objetivo não é apenas gerenciar o fim de um “contrato de trabalho”, mas preparar o líder para uma nova fase de vida, garantindo saúde emocional e continuidade de propósito. Em resumo, a mentoria buscará transformar a “aposentadoria” (ideia de recolhimento) em “jubilação” (alegria pelo dever cumprido e novas oportunidades).

E ainda a criação de um grupo de apoio e amizade entre filhos de pastores, principalmente na fase da adolescência. Entendemos que isso é de grande importância porque eles enfrentam pressões únicas e desafios específicos que podem afetar sua saúde emocional, espiritual e seu relacionamento com a igreja. O projeto ainda está em fase de estruturação, mas queremos criar um espaço seguro para que esses jovens e adolescentes processem as pressões, desenvolvam sua própria fé e superem as expectativas irreais colocadas sobre eles.

 

A IPIB é uma denominação nacional. Considerando as dimensões continentais do nosso país, como envolver e engajar mais igrejas locais no trabalho de sua secretaria?

Acredito que o trabalho em equipe sempre é o melhor caminho. Os Presbitérios nomeiam, a cada reunião, um pastor para ser o Secretário Presbiterial junto aos pastores. E esses pastores podem ser nosso braço estendido para ampliar a Rede Cuidado. Despertar a igreja para reconhecer limites e cuidar de seus pastores. É um movimento de responsabilidade, visão e compromisso com a saúde da igreja no presente e no futuro. Cuidar da igreja também é cuidar de quem a conduz.

 

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Cuidar da igreja também é cuidar de quem a conduz.
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Por outro lado, queremos alcançar pastores que sofrem sozinhos, se sentindo sobrecarregados e, muitas vezes, sem saber onde buscar essa ajuda. Eu acredito muito que conversar com pessoas que enfrentam as mesmas lutas (apesar de suas diferenças em diversas formas) nos fortalece e nos ajuda e retomar a jornada com alegria. Orar com nossos colegas de ministério e desfrutar de “conversas do caminho”… tudo isso nos ajuda muito.

 

SOBRE A VISÃO CRISTÃ DO CUIDADO PASTORAL

Como Jesus – o Bom Pastor – desenhou os princípios para um verdadeiro cuidado pastoral?

Jesus Cristo, ao se identificar como o “Bom Pastor” (João 10), definiu os princípios fundamentais para o verdadeiro cuidado pastoral, contrastando sua liderança com a de um “mercenário” que não se importa com as ovelhas. O cuidado pastoral bíblico, modelado por Ele, é baseado em sacrifício, conhecimento íntimo, guia proativa e amor incondicional.

  • Sacrifício próprio (“O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” – Jo 10.11): sobre isso, compreendo que não precisamos “morrer” pela Igreja. Jesus já fez isso por ela! Jesus não pede que morramos, mas nos leva a compreender que o verdadeiro pastoreio não busca vantagens pessoais, mas o bem-estar do rebanho, colocando-se em risco para protegê-lo.
  • Conhecimento íntimo e pessoal (“Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem” – Jo 10.14): Jesus não lidera à distância. Ele conhece cada ovelha pelo nome, suas fraquezas, dores e necessidades. Precisamos investir nos relacionamentos.
  • Liderança proativa e exemplo (“Vai à frente delas” – Jo 10.4): o pastor não “toca” o rebanho com medo, mas caminha à frente, guiando pelo exemplo e conquistando a confiança. Cuidar da própria saúde também nos torna exemplo para que as ovelhas cuidem de si.
  • Relacionamento baseado na Voz (Ovelhas seguem a voz do pastor – Jo 10.4): o cuidado pastoral passa por ensinar o rebanho a reconhecer a voz de Deus (a Palavra) e não as vozes estranhas do mundo ou falsos mestres. Por isso a necessidade de zelo com estudos, leituras e aprofundamento bíblico e teológico da nossa parte. Precisamos estar alimentados para alimentar!
  • Busca pelas perdidas (“Buscarei as minhas ovelhas” – Ez 34.12; Jo 10): o Bom Pastor não se contenta com o rebanho seguro; ele vai atrás daquela ovelha que se perdeu ou se machucou, oferecendo cura e refúgio. Ser discípulo implica em fazer discípulos. Investir nossa vida e ministério em evangelização e discipulado fará toda a diferença. Sempre penso no nascimento dos meus filhos! Quanta alegria desde a notícia da gravidez até o nascimento para finalmente tê-los em meus braços. O discipulado gera essa mesma emoção! Ver filhos da fé nascendo. E o desenvolvimento deles não termina ali, mas continua com o pastoreio e ensino até que cheguem à maturidade e gerem outros filhos também.
  • Responsabilidade com o Dono do rebanho (“Pastoreie as minhas ovelhas” – Jo 21.17):o verdadeiro pastor reconhece que as ovelhas não são suas, mas de Jesus. Por isso, prestam contas ao Supremo Pastor. Essa deve ser a essência do ministério! O rebanho é DELE! A ordem de Jesus a Pedro em João 21.17 (“pastoreie as minhas ovelhas”) estabelece a base fundamental do ministério pastoral: o rebanho não pertence a nós, mas a Cristo. Essa responsabilidade é um chamado à mordomia e ao amor sacrificial, não à dominação ou ao status. A responsabilidade com o Dono do rebanho é cuidar das pessoas com o mesmo amor e dedicação que Cristo demonstrou, sabendo que um dia prestaremos contas ao verdadeiro Pastor. Isso significa cuidar de nossa saúde física, emocional, espiritual; não ser negligente com nossa vida devocional; zelar com os estudos e preparação de sermão.

 

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O Bom Pastor não se contenta com o rebanho seguro; ele vai atrás daquela ovelha que se perdeu ou se machucou.
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O quanto as igrejas atuais e os pastores têm uma visão parecida com Jesus a respeito do cuidado pastoral?

Observando o ambiente eclesiástico e clerical ampliado (não somente a IPI do Brasil), penso que a proximidade entre o cuidado pastoral atual e o modelo de Jesus, o “Bom Pastor”, é um tema que precisa ser discutido. Temos um cenário onde há tanto igrejas e líderes que buscam a essência bíblica quanto aqueles que se distanciam dela. Enquanto a missão de Cristo baseia-se em sacrifício, acolhimento e serviço, o contexto atual muitas vezes mistura dedicação com desafios de ordem institucional e secular.

Semelhanças (O Cuidado como Jesus)

  • Serviço e Compromisso: Muitos pastores e igrejas focam na vocação, sacrificando tempo, lazer e priorizando o discipulado e o cuidado de vidas (visitas, aconselhamento).
  • Acolhimento da Diferença: Semelhante a Jesus, que recebia os marginalizados, muitas comunidades focam no diálogo e na recepção de pessoas sinceras, independentemente da sua condição, buscando a transformação pelo amor.
  • Cuidado Integral: O entendimento moderno de cuidado pastoral, alinhado à Bíblia, busca atender às necessidades emocionais, espirituais e físicas dos fiéis, cuidando de cada membro (ovelha).

 

Diferenças (Desafios e Contraste)

  • Foco em Autoridade versus Serviço: Enquanto Jesus priorizou o serviço, alguns modelos atuais são criticados por buscarem poder, prestígio e reconhecimento em vez de sacrifício.
  • Comercialização da Fé: Há críticas de que alguns líderes priorizam interesses financeiros (“pastores que se apascentam a si mesmos”) em contraste com o modelo de João 10, onde o pastor dá a vida pelas ovelhas.
  • Secularização e Estrutura: A institucionalização da igreja às vezes leva a uma “igreja em saída” focada em estruturas e ritos, perdendo o contato pessoal direto que Jesus tinha.

 

A Bíblia (por exemplo, em Ezequiel 34) alerta contra pastores que “não cuidam do rebanho” e “comem a gordura” das ovelhas. Contudo, a necessidade de pastores que busquem a essência do “Bom Pastor” deve ser nosso objetivo, sendo o verdadeiro cuidado pastoral aquele que espelha o sacrifício e a dedicação de Jesus.

 

Diante de tantas pressões internas e externas (igreja, sociedade), como um(a) pastor(a) pode se cuidar a fim de evitar riscos para sua saúde emocional e espiritual?

Como pastoras e pastores, somos cotidianamente confrontados com nossa própria dor e angústia e a dor e angústias de irmãos e irmãs de nossa comunidade de fé, que nos procuram para aconselhamento e oração. Talvez, por sermos como “para-raios”, muitas vezes não damos voz e vez para nossos sentimentos.

Muitas vezes somos atingidos por surpresas dolorosas, expectativas frustradas ou orações não respondidas como desejávamos, e, então, nossa alma se inquieta e sofre. Quando você experimentar a “noite escura da alma” ou o tempo de “silêncio de Deus”, mesmo cheio de fé e com o espírito firme em Deus, meu convite é para que você possa reconhecer suas próprias limitações e vulnerabilidade. Deus ouve nossas angústias e permite que nos reconheçamos simplesmente como humanos e, por isso, assim como nossas ovelhas nos procuram para aconselhamento, temos o direito a buscar ajuda junto a alguém preparado para nos ouvir: o psicoterapeuta.

 

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Muitas vezes somos atingidos por surpresas dolorosas, expectativas frustradas ou orações não respondidas como desejávamos, e, então, nossa alma se inquieta e sofre.
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Quero contar um pouco da minha história.

29 de maio de 2021. Meu filho caçula, Andrei, apresenta o que inicialmente seriam sintomas gripais. Em tempos de COVID-19, tais sintomas traziam preocupação. E foi assim que ele testou positivo para COVID e, a partir desse dia, mesmo tomando os cuidados necessários, meu esposo, Joaquim ou Joca, também testou positivo dois dias depois; e cinco dias depois foi a minha vez. O Andrei passou pela COVID como uma gripe muito forte e, aparentemente, o Joaquim também. Ainda me lembro as datas porque a experiência foi extremamente marcante. O Andrei testou positivo num sábado e o Joca na segunda-feira, 31 de maio de 2021. Meus sintomas começaram na terça-feira, dia 01 de junho, à noite.

Até então, Joca estava aparentemente bem, mas, na quinta-feira, ele começa a ter uma piora no quadro. Entre idas e vindas do pronto atendimento, ele foi internado na madrugada de sábado para domingo, 06 de junho de 2021. Esta seria a última vez que nós o veríamos, porque em uma semana o seu quadro piorou. Infelizmente, ele veio a falecer.

Com essa notícia, vivemos uma “noite escura da alma”, de muito choro, que levou quase três meses para que pudéssemos ver o amanhecer em nossa vida.

Joca faleceu no dia 11 de junho de 2021 (7 dias após seu aniversário de 46 anos) e foi sepultado no Dia dos Namorados. Eu não pude estar presente, pois meu quadro também estava se agravando e, três dias após esse tsunami, eu também fui internada em decorrência de complicações da COVID.

Mas nesse vendaval que arrasou nossa vida familiar, vimos a ação poderosa do Deus. Durante a internação do Joca, houve uma mobilização de irmãs e irmãos da IPI de todo o Brasil pela vida dele em oração e depois pela minha. Durante a semana que fiquei internada, eu só conseguia pedir que a misericórdia do Senhor não me levasse para que pudesse ajudar meus filhos a passarem pela dor do luto.

Enquanto estava hospitalizada, irmãs da Segunda IPI de Limeira, igreja que o Joca pastoreava e um casal querido da IPI Ebenézer, igreja que eu estava pastoreando, passaram a cuidar dos meus filhos. Eles levavam refeições diárias para eles e se cercavam de saber como eles estavam.

Foram dias extremamente difíceis, onde os meninos enfrentaram a dor da perda do pai e a expectativa do desfecho da minha internação.

Pela misericórdia e Graça de Deus, após cinco dias, tive alta hospitalar. Mas ainda não era o fim da nossa angústia. Muito fraca e debilitada (tenho sequelas até hoje, pois 20% dos meus pulmões ficaram comprometidos), no domingo, dia 20 de maio, o Alexandre, meu filho mais velho, testou positivo para COVID também. E continuamos com a “noite escura da alma”, pois o medo continuava a nos cercar. Graças a Deus, o Alê também passou pela COVID como se fosse uma gripe muito forte.

Apenas cerca de um mês entre o primeiro teste positivo e a recuperação do Alê é que pudemos nos abraçar e chorar a dor da morte e iniciar o processo de luto – até então, estávamos tentando sobreviver a essa doença.

Com a morte do Joca, assim como um tsunami que passa levando tudo o que encontra pela frente, causando devastação e dor, vivenciamos momentos de muito choro, dor física e emocional indescritíveis. Foi preciso iniciarmos uma nova jornada como família, refazendo nossa rota, revendo nossa vida em todos os sentidos (emocional, estrutural, espiritual, financeira).

O que mais experimentamos foi reaprender a vivência do “SÓ DEUS É O BASTANTE”, que Teresa d’Ávila define lindamente: “Nada te turbe, nada te amedronte. Tudo passa, a paciência tudo alcança. A quem tem Deus nada falta. Só Deus é o bastante”. Conheci esta oração em forma cantada, na voz do meu amigo e irmão Rev. Casso Vieira. E a frase que me sustentou foi “SÓ DEUS É O BASTANTE”.

Esse foi um ressignificar para nossa vida – fé, relacionamento familiar, vida financeira, saúde física, emocional, espiritual. Só Deus basta!

Assim como em Salmos 23, ansiamos pelo dia que Deus nos levaria junto às águas de descanso e refrigerasse nossa ama, porque ainda estávamos no vale da sombra da morte.

O Caminho não é como em filmes – um caminho mágico, com alguém a todo momento “estalando” os dedos para acabar com uma ameaça. O Caminho é real, é a nossa vida. Até chegar às águas de descanso, houve muita poeira, pedra, subidas e descidas, suor, escorregões, medo. De nada disso o pastor nos livrou, mas ele sempre esteve conosco conduzindo, levando-nos para o lugar de refrigério da alma.

O que nos ajudou a superar a dor nesse processo, foram as orações e apoio de irmãos e irmãs que nos cercaram de carinho com coisas práticas como refeições, limpeza de casa, lavando nossa roupa, cuidando de nós!

Foram pastores amigos – muitos tem me acompanhado até hoje, mas em especial, o Rev. Luciano Proença Lopes e sua esposa Daniela, que no choro e silêncio acolhem a nossa dor e oram comigo e com meus filhos.

Quero dizer que fiquei meses sem conseguir orar, porque só chorava, mas eles oravam comigo, por mim e meus filhos. Nesse tempo, a igreja orou e me sustentou em oração! Tirei um período de licença para que pudesse me recuperar física e emocionalmente. Desenvolvi depressão. Por isso, também voltei a fazer terapia, porque precisamos de ajuda para elaborar a dor. Sou psicóloga e atuo com atendimento a pacientes enlutados. A terapia me ajudou a elaborar meu luto para que eu pudesse ajudar outros com a sua dor também, bem como a superar a depressão.

Já estamos bem? Pela Graça de Deus, estamos sim. Ressignificamos e seguimos. Choramos juntos. Choramos sozinhos. E conversamos a respeito do que sentimos. Em 2026 se completa cinco anos desde que enfrentamos o tsunami. Podemos afirmar que “até aqui o Senhor tem nos sustentado”!

Ninguém está livre de sofrimento e angústia, dor, mas podemos aprender a lidar com ele em nós mesmos. O próprio Jesus abria espaço para diálogos, para que, através dele, houvesse cura e salvação. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã. Mesmo que essa manhã demore dias, semanas ou meses. Mas amanhecerá!

 

A igreja local é como se fosse um ecossistema espiritual. Isso significa que não apenas o pastor é o responsável por si; ele precisa caminhar ao lado de outros. Como a igreja pode ajudar o pastor a lidar com seus dilemas e tentações?

Cuidar de pastores envolve valorizar sua humanidade, oferecendo suporte emocional, financeiro e espiritual, além de respeitar seu tempo de descanso e família. Ações práticas incluem oração constante, feedback positivo sobre seu ministério, respeito à sua autoridade bíblica e suporte financeiro adequado.  Penso que podemos oferecer Oração e ser/dar Suporte Espiritual: Ore por ele (sua saúde, família, ministério) e com ele. Pastores enfrentam pressões espirituais intensas e necessitam de oração.

Respeito ao Tempo e Família: Entenda que o pastor é humano, precisa de férias, dias de folga e tempo com o cônjuge e filhos, não sendo um “solucionador” de problemas 24 horas por dia.

Valorização e Apoio Financeiro: Honre o pastor com um salário justo e condizente com a dedicação ao ministério, garantindo que ele e sua família tenham sustento digno. Claro que isso implica em conhecer a realidade de cada igreja e de sua localidade. “Mas tudo que é combinado não sai caro”! Precisamos conversar sobre isso como Conselho.

Feedback Positivo e Encorajamento: Diga ao pastor como Deus tem usado a vida dele para o seu crescimento. Compartilhar testemunhos de impacto gera ânimo. E ore para que isso não sirva de vanglória também!

Submissão e Colaboração: Apoie a visão pastoral! Participe da vida da igreja, engajando-se em ministérios e atividades. Isso ajuda a reduzir o desgaste ministerial.

Cuidado com a Esposa/Esposo e Filhos: A família pastoral muitas vezes vive sob holofotes; tratá-los com carinho e sem exigências excessivas é fundamental. Eles também são do rebanho!

Evite a “Síndrome do Super-Homem”: Não exija que o pastor/pastora seja perfeito ou resolva todos os problemas pessoais dos membros. Reconheça suas limitações humanas.

O Conselho deve aprender a “escuta qualificada” e acolher o pastor e pastora que abrem seus corações.

Quanto aos pastores, podem buscar ajuda para lidarem com o desgaste emocional, mental e espiritual do ministério através de diversas formas, sendo fundamental reconhecer a necessidade de suporte profissional e comunitário.

1. Ajuda Profissional e Terapêutica

Psicoterapia: Procurar um psicólogo ou terapeuta é essencial para processar emoções, lidar com o estresse e superar a “síndrome do pedestal” (a falsa necessidade de ser forte o tempo todo). Hoje temos o Programa de Saúde Mental para Pastores e Pastoras e Missionários e Missionárias da IPI que oportuniza o acesso a Psicoterapia Breve.

Médicos: Tratar a saúde física é tão importante quanto a emocional, não devendo haver preconceito em procurar médicos.

2. Aconselhamento e Mentoria

Mentoria Pastoral: Procurar pastores mais experientes ou mentores para conversar sobre as lutas do ministério.

3. Redes de Apoio e Espiritualidade

Amizades Sinceras: Evitar o isolamento cultivando amizades verdadeiras, dentro e fora da igreja, com quem possa compartilhar lutas sem medo de julgamento.

Apoio da Família: Conversar com a esposa e filhos, permitindo que eles também sejam uma rede de suporte.

Oração e Descanso: Dedicar tempo para oração pessoal (não apenas profissional) e estabelecer dias de descanso para renovação física e espiritual.

4. Recursos da Igreja Local

Liderança da Igreja: Comunicar sinceramente aos presbíteros, diáconos ou ao conselho da igreja sobre a necessidade de férias ou tempo para cuidar da saúde

O cuidado mútuo, onde a igreja se preocupa com o bem-estar do pastor, resulta em um ministério mais saudável, produtivo e duradouro.

 

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Cuidar de pastores envolve valorizar sua humanidade, oferecendo suporte emocional, financeiro e espiritual, além de respeitar seu tempo de descanso e família.
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Como os irmãos e irmãs da IPI podem fazer contato com a Secretaria de Cuidado Pastoral e como eles podem se envolver as atividades da secretaria?

Podem entrar em contato comigo através do WhatsApp: (19) 99776-9893 e pelo email sec.pastoral@ipib.org

Em relação ao Programa de Saúde Mental, o contato é pelo e-mail: apoiopastoral@ipib.org

Temos o Grupo de WhastApp com os Secretários Presbiteriais para que haja a comunicação entre os Presbitérios, bem como acesso pelas Redes Sociais da IPIB.

Envolva-se primeiramente orando por nós! Desde que assumimos a Secretaria de Cuidado Pastoral, temos sonhado e colocado diante do Senhor o desejo sincero de ser um canal de benção e cuidado na vida de pastores e pastoras. Então, ore para que Deus nos capacite e conduza. Envolva-se na sua igreja local. Seja amigo. Faço amigos de caminhada. Seja como Moisés, que precisou de Arão e Hur para sustentar seus braços; e seja como Arão e Hur e sustente os braços de outros!

 

 

Sobre a Secretária de Cuidado Pastoral

Reva. Jaqueline Paes, é pastora da IPIB há 26 anos, formada em Teologia pelo Seminário Teológico Rev Antônio de Godoy Sobrinho, em Londrina/PR. Também é formada em Psicologia. É especialista em Neuropsicologia; Docência do Ensino Superior; Luto e Comportamento Autolesivo. Mestre em Psicologia. Tem dois filhos: Alexandre e Andrei. Trabalhou com Plantação de Igreja em Rio Branco/AC; atualmente é pastora titular da IPI do Jardim Novo Bandeirantes, em Cambé/PR e Secretária de Cuidado Pastoral da IPIB.

 

 

 

 

 

Nota do editor:

Essa é a quarta da série de entrevistas que “O Estandarte” está fazendo com os secretários nacionais da IPI do Brasil. Acompanhe aqui.

 

 

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Imagem do topo: www.magnific.com 

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