Nesta semana, viralizou nas redes sociais a fala da Pra. Helena Raquel. Ela é pastora da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADPIV) no Rio de Janeiro, e proferiu seu discurso no 41º Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora, realizado em Camboriú (SC). O evento reuniu milhares de cristãos presencialmente e alcançou milhões por meio de transmissões on-line, sendo considerado um dos encontros missionários mais influentes do meio evangélico brasileiro.
A Pra. Helena Raquel afirma que crimes como a pedofilia não devem ser protegidos por interpretações bíblicas equivocadas ou pelo corporativismo religioso, defendendo o afastamento imediato de agressores. Helena aborda temas sociais sensíveis e entende que líderes religiosos não devem se calar diante de crimes. Não devemos proteger os “ungidos” agressores.
Quando Deus passou a mão na cabeça de um “ungido” com comportamento inadequado?
Diante disso, precisamos falar sobre violência contra mulher e crianças nas igrejas. Não podemos nos calar diante de abusos sexuais e psicológicos.
Fica a pergunta: Quando Deus passou a mão na cabeça de um “ungido” com comportamento inadequado?
A Bíblia mostra que o Senhor trata o comportamento inadequado de líderes e pessoas “ungidas” (escolhidas) com seriedade, muitas vezes aplicando disciplina severa para corrigir ou remover aqueles que desonram Sua autoridade, demonstrando que a unção não dá licença para pecar.
Exemplos bíblicos de disciplina:
- Rei Saul: Por desobediência e comportamento arrogante, Deus rejeitou Saul como rei, retirou Seu Espírito dele e permitiu que ele sofresse as consequências de suas escolhas, perdendo o trono. Leia 1 Samuel (capítulos 13, 15 e 16).
- Davi: Mesmo sendo um “homem segundo o coração de Deus”, quando Davi pecou gravemente (adultério e assassinato), Deus enviou o profeta Natã para confrontá-lo, resultando em severas consequências familiares e pessoais, embora Davi tenha se arrependido. Leia 2 Sm 12.9-12.
- Moisés: Por desobedecer a uma ordem específica de Deus e agir com ira (ferir a rocha em vez de falar), Moisés foi impedido de entrar na Terra Prometida. Leia Nm 20.7-12 e Dt 32.51-52.
- Eli e seus filhos: Devido à negligência de Eli em corrigir seus filhos, que agiam de forma perversa, Deus trouxe julgamento sobre a família, resultando em morte e perda do sacerdócio. Leia 1 Sm 2.27-36.
A violência sexual, física e psicológica não é algo que só acontece na sociedade de hoje; ela vem acontecendo ao longo da história. O caso de Tamar ilustra uma cadeia de eventos que leva a um ato devastador: o seu estupro. 2 Samuel, capítulo 13, registra a história de Tamar.
Por ser de linhagem real, além de ser belíssima, Tamar era cheia de cuidados. Por incrível que pareça, o perigo que rondava sua vida não estava do lado de fora dos portões do palácio, mas lá dentro – no próprio “lar, doce lar”.
Seu irmão Amnom olha essa bela jovem, deseja essa jovem, e, dominado por uma paixão doentia, finge estar doente e pede ao rei, seu pai Davi, que dê uma ordem à irmã para que vá aos seus aposentos, prepare um prato e o sirva. O rei consente e o desfecho trágico é o abuso que Tamar sofre do próprio irmão. Os sonhos de uma jovem são destruídos pelo desejo e força de seu irmão.
Apesar de triste, o drama de Tamar nos leva a reflexão e, também, a considerar, de maneira séria, nosso tempo e o meio em que vivemos. Tamar não se cala! Ela denuncia sua dor! Ela põe cinzas na cabeça, rasga sua túnica talar de donzela e sai pelas ruas clamando por socorro, ajuda e justiça!
Olhamos para história de mulheres, adolescentes e crianças que têm seus sonhos e corpos destruídos por tragédias ao cair nas garras de pessoas como Amnom! Muitas são violentadas pela segunda vez por pessoas como Absalão que, mesmo a par de tudo e vendo o sofrimento da irmã, tenta abafar o caso dizendo “cala-te; é teu irmão”. Em nome de não causar “escândalo” ou “tirar a paz da igreja”, as mulheres são orientadas a se calar diante do abuso sofrido. A igreja não deve silenciar ou incentivar a manutenção de relacionamentos abusivos em nome de “manter a família” ou “evitar escândalo”.
A Bíblia não diz se a jovem Tamar encontrou um homem de bem e respeitoso que lhe deu amor, carinho e segurança. A Bíblia não conta como foi o fim da vida de Tamar; pelo contrário, a história dela se encerra na tragédia.
O que podemos aprender com Tamar?
Amnom abusou de seu poder e autoridade para conseguir o que queria, apesar do dano causado a Tamar. O silêncio das pessoas envolvidas nessa história é vergonhoso. Os cristãos não devem permanecer em silêncio em nossa sociedade se estiverem cientes de que alguém está cometendo abuso, independentemente do custo pessoal para eles.
Os cristãos não devem permanecer em silêncio, se estão cientes de que alguém está cometendo abuso, independentemente do custo pessoal para eles.
O papel de Tamar no agregado familiar tornava-a vulnerável: ela não podia se recusar a servir ou cozinhar para aquele homem. Os jovens – especialmente as meninas – são muito vulneráveis à violência sexual. Precisamos garantir que eles sejam ensinados sobre os riscos desde a tenra idade e que haja proteção eficaz para eles dentro de nossas próprias famílias e comunidades.
A violência sexual, física e psicológica pode ocorrer em qualquer lugar, mesmo em lares e igrejas cristãs (Davi era um homem de Deus e, no entanto, houve violência sexual em seu lar). É importante conscientizarmos mais as pessoas de que as sobreviventes NÃO são culpadas da violência.
Estratégias para a conscientização na Igreja
Para que a Igreja possa efetivamente conscientizar e combater a violência contra a mulher, é necessário adotar estratégias práticas e intencionais. Aqui estão algumas sugestões:
- Educação e sensibilização
Promover palestras, workshops e grupos de estudo que abordam o tema da violência contra a mulher à luz das Escrituras. Utilizar materiais didáticos que incluam testemunhos, dados estatísticos e orientações práticas sobre como identificar e agir em casos de violência.
- Apoio pastoral e aconselhamento
Oferecer apoio pastoral e aconselhamento às vítimas de violência. Os líderes da Igreja devem estar preparados para ouvir, apoiar e orientar as mulheres que sofrem abusos, encaminhando-as para os recursos necessários, como apoio jurídico e psicológico.
- Rede de apoio
Criar uma rede de apoio dentro da igreja local, composta por profissionais de diversas áreas, como advogados, psicólogos e assistentes sociais, que possam oferecer ajuda prática e emocional às vítimas de violência. Buscar informações na cidade de abrigos e locais de proteção e seguridade para mulheres. Algumas vezes, colocar nossas casas como lugar de proteção também se faz necessário (talvez esse seja um dos maiores desafios para nós).
- Campanhas de conscientização
Promover campanhas de conscientização dentro e fora da Igreja, utilizando diversos meios de comunicação, como redes sociais, boletins informativos e eventos comunitários, para educar a comunidade sobre a importância de combater a violência contra a mulher.
- Encorajar a fazer a denúncia
Incentivar as vítimas a denunciarem os abusos e buscar ajuda. A Igreja deve ser um lugar seguro onde as mulheres se sintam encorajadas e apoiadas a tomar medidas para protegerem a si mesmas e a seus filhos. Muitas vezes, requer que as acompanhemos nesse momento difícil diante da denúncia. A presença e o cuidado pastoral requerem caminhar junto.
A Bíblia condena a violência e a agressão contra a mulher, considerando-a pecado e ofensa a Deus. O ensino bíblico orienta os maridos a amarem suas esposas, tratando-as com honra e respeito, e não com amargura ou abuso (Colossenses 3.19). O abuso – físico ou verbal – é inconsistente com os princípios cristãos de amor e cuidado.
- Condenação do Abuso: A violência é vista como uma característica de iniquidade e não condiz com a fé, sendo frequentemente associada à maldade e à prevaricação.
- Responsabilidade no Lar: Maridos são exortados a amar as esposas, não as tratando com aspereza, e a liderança bíblica é centrada no serviço e cuidado, não na dominação.
- Oração e Conduta: A Bíblia indica, em 1 Pedro 3.7, que o tratamento rude ou violento de um marido para com a esposa pode interromper sua vida de oração.
- Denúncia e Segurança: Especialistas e líderes cristãos devem orientar que mulheres vítimas de violência não devem silenciar ou aceitar a agressão como um “sacrifício” espiritual. A segurança da vítima é prioridade, sendo encorajada a busca por proteção e denúncia.
- Papel da Igreja: Igrejas devem conscientizar e atuar na prevenção, oferecendo suporte e refúgio às vítimas, em vez de exigir a manutenção de lares abusivos.
A Bíblia não justifica a violência contra a mulher. Pelo contrário, ela apela para o amor, respeito e a proteção da dignidade humana. A mensagem bíblica, quando bem interpretada, aponta para a libertação e segurança da mulher.
Que possamos, como seguidores de Cristo, ser agentes de transformação em nossas comunidades, promovendo a justiça e protegendo os vulneráveis. Que nossas Igrejas sejam refúgios de amor e segurança, onde todas as pessoas, especialmente as mulheres, possam encontrar acolhimento, apoio e esperança. Que nunca esqueçamos o chamado de Deus para amar e cuidar uns dos outros, combatendo todas as formas de violência e construindo um mundo onde a paz e a justiça prevaleçam.







