Faz tempo – muito tempo – transcorridos os 17 séculos do Concílio, que ergueu alicerces oficiais do cristianismo (oficiais porque a Boa Nova era anunciada, mas muito perseguida). Embora os seguidores fossem identificados como cristãos, assim chamados pela primeira vez em Antioquia da Síria (At 11.26), sofriam terríveis perseguições no Império Romano.
Aos poucos, o cristianismo foi ganhando força, e no vasto império romano surgiram gradativamente adeptos em variadas regiões, levando o imperador Constantino a pensar politicamente no assunto, temeroso de que a novidade de vida provocasse divisões, considerando urgente definir um ponto de vista conciliador, que estava provocando discussões, num pensamento único.
O principal tema
Diante de um vulcão político em erupção, Constantino não foi exatamente o homem que conseguiu liberar o cristianismo como opção religiosa, mas sim por solução prática, tanto que doze anos antes de Niceia, já havia autorizado a manifestação de fé, pondo fim às perseguições. Convocou a realização de um grande Concílio, que reuniu cerca de trezentos bispos, vindos de todas as partes, na busca da fórmula de superar as divergências, ameaçadoras da unidade da fé, chegando a um consenso. O principal tema em discussão (hoje, para nós, inacreditável) girava em torno da divindade de Jesus. Muitos consideravam nosso Salvador apenas como Filho, sem ligação divina com o Pai, Eterno, soberanamente acima dele. Outra ala preferia ver o Senhor como nós fazemos atualmente: Redentor nosso, consubstanciado na figura do Pai, integração trinitária do nosso Mestre, gerado e não criado.
Muitos consideravam nosso Salvador apenas como Filho, sem ligação divina com o Pai, Eterno.
Constantino, naqueles tempos em que o poder imperial era vinculado ao poder religioso, seria – como foi – o árbitro de um delicado processo. A Niceia, escolhida para palco dos debates, ficava na Turquia. Hoje, tem o nome de Iznik, a cerca de 140 quilômetros de Istambul. Ali, predomina a Igreja Ortodoxa, que tem como autoridade máxima um Patriarca, Bartolomeu.
Os 1.700 anos de Niceia são significativos, pois envolvem, inclusive, o aprovado código niceno e o vigente Credo Apostólico. A marca histórica (o Concílio foi realizado no ano de 325 d.C.) levou o papa Leão XIV a fazer sua primeira viagem internacional indo à Turquia, onde se encontrou com o patriarca, em busca de uma convivência ecumênica.
O debate
O tema em discussão tinha dois grandes artífices. Um a favor de Jesus, como entendemos, e outro contra. O presbítero Atanásio pensava como nós. Ário, diácono de Alexandria (Egito), contrariamente. Foi um duelo de grandes oradores. Ário, autor da chamada doutrina ariana, era excelente em dialética. Atanásio, um robusto expositor de bases bíblicas. Ao final de longos e acalorados debates, era duvidoso saber quem havia vencido. Constantino interveio, na condição de juiz supremo, dando razão a Atanásio. Um marco da história cristã.
O turbulento cenário nasceu em torno de uma questão dogmática, logo após a declaração imperial de liberdade na prática de cultos. As dissidências passaram a ser vistas como ameaça à manutenção da união do império. Efervescentes polêmicas tinham como expoentes Ário, defendendo que filho é subordinado ao pai, argumentando que Jesus seria, então, um “Deus inferior”, hipótese frontalmente rejeitada por Atanásio: Jesus é da mesma substância do Pai.
O Credo Apostólico é a síntese do Código Niceno
A vitória de Atanásio, em debates de alto nível teológico, motivou o até hoje existente Credo Apostólico, utilizado por católicos e protestantes. É a forma sintetizada do Código niceno, aprimorado mais tarde (381 d.C.) num encontro em Constantinopla. Deus é um só. Trindade Excelsa. Pai, Filho, Espírito Santo. Assim celebramos o batismo. Não há o que questionar pela indiscutível iluminação bíblica.
Louvável a preocupação papal na união em torno de um só credo. Ao mesmo tempo, isso me traz uma profunda tristeza: no livro de Atos (4.32), lemos que na primitiva comunidade cristã, na multidão do que creram “era um só coração e a alma (…), tudo, porém, lhes era comum”. Edificante saber como já foram as coisas, vendo nos nossos tempos que existem divisões por causa de doutrinas e até normas de organização administrativa. Rupturas hoje mais do que tristes, pois vão contra uma imperiosa vontade de Jesus que, por causa disso, fez uma oração sacerdotal nal qual, levantando os olhos ao céu, pediu: “Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós” (Jo 17.11).
Envergonhado
O pedido do Mestre me deixa envergonhado: ser vários, nunca quis dizer apenas um. Jesus deixa muito claro que não quer saber de ramificações. Não foi isso o que Ele ensinou. Pelo contrário: fez uma oração especial para nós!
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Nota do editor:
O Concílio I de Niceia é o primeiro Concílio Ecumênico (que significa universal), já que dele participaram bispos de todas as regiões onde em que havia cristãos. Aconteceu do 20 de maio ao dia 25 de julho de 325 d.C. Ele foi convocado pelo imperador romano Constantino.







