Do Rio Paraná ao Rio da Prata

IPI do Brasil participa do Encontro Sinodal da Igreja Valdense, no Uruguai

 

“E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17.21)

 

Em um mundo marcado por divisões, a comunhão entre igrejas cristãs reformadas surge como testemunho vivo da unidade em Cristo, ecoando o apelo do apóstolo Paulo em Romanos 15:13: “Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz na fé, para que transbordem de esperança pelo poder do Espírito Santo”.

Na rica tradição presbiteriana brasileira, esse chamado ressoa desde os pioneiros, como o Rev. Eduardo Carlos Pereira, que no início do século XX vislumbrou a missão transcultural no continente latino-americano. Hoje, a IPIB continua esse legado por meio de relações fraternas com denominações irmãs, fortalecendo laços que transcendem fronteiras geográficas e culturais.

A Igreja Evangélica Valdense do Rio da Prata, com sua rica herança de fidelidade desde as migrações italianas do século XIX, exemplifica essa perseverança reformada em meio a desafios como a escassez de vocações pastorais e da presença jovem. Estar representada em sua Assembleia Sinodal é uma oportunidade providencial para a IPIB que pode, assim, compartilhar experiências, orar juntos e discernir caminhos para a evangelização e o cuidado no continente latino-americano.

Tais encontros nos lembram de que o corpo de Cristo é uno, e suas águas fluem como os rios que unem nossas terras — do Rio Paraná ao Rio da Prata.

 

Tais encontros nos lembram de que o corpo de Cristo é uno, e suas águas fluem como os rios que unem nossas terras — do Rio Paraná ao Rio da Prata.

Pastores em risco de extinção

Escrevo do Uruguai, onde estou representando a IPIB na Assembleia Sinodal da Igreja Evangélica Valdense do Rio da Prata, realizada no Acampamento Parque 17 de Fevereiro, em Los Pinos, Colônia, dos dias 29 a 31 de janeiro. Aqui, os irmãos e irmãs meditam no seguinte tema, inspirado em Romanos 15.13: Caminhar com Esperança, com Alegria e Paz na Fé.

Desde a chegada, fui muito bem acolhido, sendo esta uma pequena amostra das relações fraternas profundas entre a IPIB e esta denominação. Fui recebido pelo irmão, Rodolfo Barolin, que me ajudou no deslocamento até a cidade de Colônia Valdense, e pelo pastor, Rev. Darío Barolin. Apesar de terem o mesmo sobrenome, não são parentes diretos, algo comum entre os valdenses, cuja história remonta às levas de imigrantes italianos que vieram ao Rio da Prata em busca de melhores condições de vida no século XIX.

Participação do Rev. Paulo Jr. no Encontro Sinodal da Igreja Valdense

Na abertura da Assembleia Sinodal foram eleitos os integrantes da mesa moderadora responsável pela condução dos trabalhos. Na ocasião, houve a apresentação do relatório da comissão encarregada de examinar os atos pastorais e os atos presbiteriais, sinalizando os avanços e desafios ao longo de 2025.

Na manhã seguinte, compartilhei o café da manhã com o Brian, pastor leigo valdense, conversando sobre evangelização, missão e as necessidades concretas da igreja. Já na Assembleia Sinodal, pude saudar a Igreja Valdense em nome do presidente da Assembleia Geral da IPIB, Rev. Sergio Gini, recordando as décadas de amizade fraterna entre nossas denominações. Na ocasião, presenteamos a igreja com a Bíblia comemorativa dos 120 anos da Educação Teológica da IPIB. Em resposta, o Rev. Sérgio Bertinat, pastor ancião valdense, destacou a longa trajetória em comum e enviou, com muita alegria, abraços e saudações a toda a nossa denominação.

Numa das noites, um pastor leu uma devocional que escreve diariamente para as igrejas — um exemplo singelo de como Deus fala por meio das pessoas. Em outra noite, a Assembleia acolheu o irmão, Rev. Antônio Santana, pastor caribenho oriundo da Igreja Batista, que serve há dois anos entre os valdenses. O gesto de recebê‑lo como pastor, e à sua família, ilustra como o corpo de Cristo ultrapassa fronteiras, especialmente no contexto latino‑americano.

A Igreja Valdense está organizada em dois presbitérios na Argentina e quatro presbitérios no Uruguai. Um dos clamores que mais ecoam é a necessidade de mais obreiros: em algumas regiões, como o presbitério do sul da Argentina, não há pastores ordenados (presbíteros docentes), mas apenas pastores leigos, e em muitos lugares o ministério pastoral está envelhecido e sobrecarregado. Isso nos faz agradecer pelas vocações que Deus suscita entre nós e, ao mesmo tempo, nos chama à intercessão solidária.

Na segunda metade da reunião, os membros Assembleia Sinodal foram distribuídos em quatro comissões: (1) Diaconia; (2) Mordomia e Finanças; (3) Vida e Fé; e (4) Desenvolvimento Institucional. Tais comissões foram constituídas para elaborar as ações sinodais para o novo ano eclesiástico, as quais seriam discutidas e votadas em plenário.

Ao longo dos dias, houve espaço para conversas com diversos líderes da igreja. Em uma reunião de uma hora com a Mesa Valdense – equivalente à Diretoria da A.G. da IPIB – conversamos sobre “evangelização”, “vocação pastoral”, a “situação dos irmãos e irmãs de fé na Venezuela” e o “momento das Igrejas Reformadas na América do Sul”. Em suma, as portas estão abertas para cooperação em diversas áreas como diaconia, missões urbanas e vocação pastoral – espaços em que podemos servir e aprender.

Comunhão: necessidade missional e marca cristã

Para além de uma agenda oficial, a viagem ao Uruguai foi um encontro afetivo e espiritual com irmãos e irmãs que carregam uma história de fidelidade a Deus, e carecem de presença fraterna. Ao sentar‑me com famílias valdenses, ouvir seus relatos, cantar e orar com elas, fomos Igreja, conforme o exemplo da igreja primitiva. A fé, quando encarnada, se torna fonte de consolo e coragem para as comunidades.

 

A fé, quando encarnada, se torna fonte de consolo e coragem para as comunidades.

 

Volto à nossa terra amada certo de que a comunhão, sobretudo no âmbito protestante histórico, é uma necessidade missional e uma marca da identidade cristã. Volto certo de que a IPIB pode contribuir com os Valdenses e pode aprender com eles.

O Rio da Prata, que banha as terras valdenses, é abastecido, entre outros, pelo afluente, Rio Paraná, que por sua vez é abastecido, entre outros, pelos afluentes, Rio Paranapanema e Rio Tietê. Estes são rios que acompanham terras onde a IPI do Brasil tem presença histórica significativa. Fazemos parte deste fluxo da graça de Deus que atravessa fronteiras, culturas e denominações. Lembro-me, assim, da passagem de Ezequiel 47, em que o rio de Deus fluía do altar e levava cura e vida por onde passava. Que esta seja uma realidade para a IPI do Brasil!

 

Fazemos parte deste fluxo da graça de Deus que atravessa fronteiras, culturas e denominações.

 

Se as comunidades cristãs do primeiro século se comunicavam por cartas através das estradas romanas, hoje somos chamados a usar as vias modernas – visitas, intercâmbios, comunicação digital, projetos comuns – para nutrir amor e consciência cristã mútua entre as igrejas.

  • Oremos pela Igreja Evangélica Valdense do Rio da Prata.
  • Oremos por toda a família reformada espalhada pelo mundo.
  • Caminhemos com esperança, alegria e paz, conforme nos ensina o apóstolo Paulo.

E que o Deus da vida nos abençoe hoje e sempre.​

Em Cristo Jesus,

Foto de Rev. Paulo Câmara Marques Pereira Júnior

Rev. Paulo Câmara Marques Pereira Júnior

Pastor da 1ª IPI de Curitiba, PR, e assessor de Relações Internacionais da IPI do Brasil

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