A viagem à Ucrânia ocorreu no último dezembro, já sob o peso do inverno europeu, quando o frio dominava o país. As temperaturas giravam em torno de menos 5 graus Celsius, com vento cortante e madrugadas longas. O frio ali não é detalhe. Ele limita o corpo, testa a resistência emocional e influencia diretamente a dinâmica da guerra. No Leste Europeu, o inverno não acompanha o conflito. Ele participa dele.
Foram quinze dias de deslocamentos tensos. A circulação aconteceu majoritariamente por trem, já que o espaço aéreo civil permanece fechado desde o início da guerra. Quando o céu se fecha, a vida desce para os trilhos. O trem noturno carrega silêncio, sacolas apertadas, crianças envoltas em camadas de roupa e adultos com o olhar fixo no vazio. O barulho metálico constante, o chacoalhar dos vagões e os alertas de ataques aéreos no celular fragmentam qualquer tentativa de descanso. Dormir vira confiança. Acordar vira vigilância.

Como correspondente internacional da Casa Branca e do Pentágono, especializado em defesa, é impossível ignorar o impacto de uma guerra travada sob frio extremo. Equipamentos falham, a logística se arrasta, e o corpo humano passa a ser o elo mais frágil da estratégia. O soldado luta contra o inimigo, mas também contra o gelo, o cansaço e o desgaste psicológico. O inverno, no fronte, cobra mais do que munição.
Qual deveria ser o papel da igreja na Ucrânia
É justamente nesse cenário que o papel da igreja deveria ser ainda mais central. Historicamente, em tempos de guerra, a igreja ocupa o espaço de acolhimento, escuta e reconstrução emocional. É onde combatentes retornam para lidar com culpa, trauma e conflitos espirituais. É onde famílias enlutadas encontram consolo.
O que encontrei na Ucrânia foi o oposto.
Em Kiev e em outras regiões, a constatação foi dura: templos cristãos fechados, poucos abertos e os que permanecem funcionando sob controle direto do Estado. Igrejas operam condicionadas a permissões, custos e contrapartidas. O sagrado passa a existir sob lógica administrativa. No caso das comunidades evangélicas, a presença organizada e visível no espaço público é praticamente inexistente.
No caso das comunidades evangélicas, a presença organizada e visível no espaço público é praticamente inexistente.
Esse quadro causa ainda mais perplexidade quando se observam os dados religiosos do país.
A Ucrânia é majoritariamente cristã. Pesquisas recentes indicam que mais de 60% da população se identifica como cristã ortodoxa, com presença relevante de igrejas greco-católicas e outros cristãos não afiliados a uma denominação específica. Não se trata, portanto, de um povo distante da fé. Trata-se de uma fé institucionalmente sufocada.
O impacto disso aparece de forma clara no retorno dos combatentes. Soldados voltam do fronte emocionalmente abalados, carregando traumas profundos e sentimentos de culpa por terem participado de confrontos letais. Famílias lidam com o luto em silêncio. A igreja, que poderia funcionar como hospital de almas, simplesmente não consegue atender essa demanda. Não por falta de fé, mas por falta de liberdade.
O que deveria ser um braço humanitário de apoio à sociedade transforma-se em refém econômica de um Estado que se apresenta como

democrático, mas atua com mecanismos clássicos de controle. A fé não é perseguida de forma aberta. Ela é condicionada. Regulada. Tarifada.
Esse modelo não é novo na história. Quando o Estado passa a submeter a religião por meio de taxas, registros e concessões, o resultado sempre foi o empobrecimento espiritual da sociedade. Na Revolução Francesa, por exemplo, o poder político confiscou bens da Igreja, reorganizou sua estrutura por lei e transformou o clero em funcionário estatal. Sempre que o sagrado se torna ativo administrativo, a fé perde sua liberdade profética.
A surpresa se amplia quando se observa o contraste com a narrativa dominante no Ocidente. A Rússia é frequentemente apresentada como vilã absoluta, enquanto a Ucrânia ocupa o papel de símbolo democrático. No entanto, a realidade observada em campo desafia essa simplificação. Em território russo, é possível constatar igrejas presbiterianas funcionando de forma organizada, sem o mesmo grau de interferência direta do Estado em sua vida interna. Isso não absolve governos. Mas desmonta discursos fáceis.
A grande surpresa desta jornada não veio da Rússia. Veio da Ucrânia.
Essa realidade se conecta a outro elemento central: a corrupção sistêmica. Não como escândalo pontual, mas como ambiente estrutural. Em sistemas assim, tudo se torna negociável, inclusive o sagrado. A guerra prolongada cria exceções, suspende controles e alimenta estruturas que lucram com o caos. Nesse contexto, a guerra deixa de ser apenas defesa territorial e passa a sustentar engrenagens internas.
A guerra prolongada cria exceções, suspende controles e alimenta estruturas que lucram com o caos.
Este texto se dirige a todas as denominações cristãs. A liberdade de culto não é pauta confessional. É princípio espiritual e civilizacional. Quando a igreja se cala ou é silenciada, não é apenas uma porta que se fecha. É a esperança coletiva de reconstrução que começa a desaparecer.






