Um Natal que Herodes não ouve

Em meio à noite mais longa do hemisfério norte, se levanta a verdadeira luz

O primeiro Natal não foi um evento pensado para impressionar os fortes, mas para consolar e comissionar os fracos. Na Palestina ocupada, em meio a impostos pesados e governantes violentos, Deus se fez discreto, acolhido numa estrebaria longe dos centros de poder. Naquele ano, o Natal foi celebrado em sussurros. O nascimento de Jesus foi uma boa notícia despercebida pelos palácios, mas que encontrou abrigo nos corações simples.​

Celebrar o Natal em sussurros é deixar que a encarnação fale mais pela ternura do que pelo barulho, mais pela proximidade com os pequeninos do que pelo brilho dos palácios. É reconhecer que, enquanto Herodes ainda grita e ameaça, o Verbo escolhe manifestar-se na vulnerabilidade do recém-nascido, acendendo uma luz que nenhuma noite consegue apagar.​

 

 

Celebrar o Natal em sussurros é deixar que a encarnação fale mais pela ternura do que pelo barulho, mais pela proximidade com os pequeninos do que pelo brilho dos palácios.

 

 

Alvorada da encarnação

A data de 25 de dezembro foi adotada pela Igreja ao longo dos séculos como sinal de que, em meio ao solstício de inverno e à noite mais longa do hemisfério norte, a verdadeira luz se levanta no mundo. Mesmo que hoje, no nosso hemisfério sul, seja tempo de verão e de dias longos, o sinal permanece: em Cristo, Deus faz nascer um novo tempo, um verão da graça, no coração de um povo cansado de invernos espirituais. Em sussurros, o Natal anuncia que nenhuma escuridão consegue conter a alvorada da encarnação.​

A encarnação, assim, é o modo escolhido por Deus para se aproximar da humanidade sem esmagá‑la: não um rei adulto impondo-se pela força, mas um Menino que é acolhido. Em Belém, a Palavra eterna fala baixinho, no choro frágil do bebê da manjedoura, revelando que Deus escolhe o caminho da mansidão à violência dos Herodes de cada época. Celebrar em sussurros significa ajustar o tom do coração ao tom de Deus, que se revela no cuidado e na proximidade.

Os magos saem às escondidas, José e Maria fogem como refugiados ao Egito, e um massacre de inocentes tenta calar a esperança logo ao nascer. O Natal não ignora as dores da história; ele as assume e as atravessa, afirmando que o poder homicida de Herodes é real, mas não é a última palavra sobre o mundo. Em sussurros, o Natal proclama: “Herodes ainda governa por um tempo, mas a luz já chegou, e o reinado humano é finito”.​

 

Como celebrar o Natal em sussurros

Como celebrar, então, com um sussurro? Antes de tudo, com uma adoração mais profunda do que barulhenta: menos consumo, mais contemplação; menos correria, mais tempo aos pés da manjedoura, em oração silenciosa. Pode ser uma vigília simples, uma leitura orante dos evangelhos, um momento de louvor suave, em que a comunidade se reúne não para “fazer um grande evento”, mas para deixar que o Menino Jesus reine sobre seus afetos, suas agendas e seus medos.​

Celebrar em sussurros é deixar que o carinho de Jesus pelos pequeninos dê forma às nossas práticas. Ele se identifica com os famintos, sedentos, estrangeiros, doentes e encarcerados, afirmando que tudo o que se faz a estes se faz ao próprio Cristo. Um Natal sussurrado inclui ações discretas de misericórdia: visitas silenciosas a um leito de hospital, cestas básicas entregues sem fotos, abraços e escuta aos que choram em segredo.​

 

Quem são os pequeninos

Os pequeninos não são apenas as crianças, embora estas tenham um lugar especial no coração de Jesus.  São também os idosos esquecidos, os desempregados sem perspectiva, os migrantes e refugiados, as pessoas em situação de rua, as famílias enlutadas e os que lutam silenciosamente contra a depressão e o medo. Aproximar-se deles com respeito, presença e partilha é fazer da noite de Natal um lugar onde a luz da encarnação toca as feridas concretas da cidade.​

Imagine os pastores nos campos de Belém, acordados por anjos em meio à rotina esquecida, correndo à manjedoura sem pompa ou protocolos. Seu deslumbre nos ensina que o chamado de Deus irrompe nos lugares marginais, transformando guardadores de ovelhas em primeiros testemunhas do Rei. Hoje, em nossas noites brasileiras, sejamos esses pastores: olhos abertos para os anjos que glorificam em meio à fadiga cotidiana humana, anunciando que Jesus nasceu.

 

Hoje, em nossas noites brasileiras, sejamos esses pastores: olhos abertos para os anjos que glorificam em meio à fadiga cotidiana humana, anunciando que Jesus nasceu.

 

Celebrar em sussurros significa deixar-se conduzir pelo ensino do Jesus encarnado. Que cada culto, cada ceia, cada gesto pastoral seja uma oferta a Deus, e um pequeno abrigo oferecido aos irmãos e irmãs mais frágeis. Mesmo que Herodes continue gritando pelos corredores da história, o povo de Deus aprenderá a esperar, a servir e a amar na mesma tonalidade com que o Verbo se fez carne entre nós.​​

Feliz Natal!

 

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Nota:

Inspirado em texto do Rev. Dr. Mark Glanville (Vancouver, Canadá).

Referência bíblia: Mateus 2.1–23; Mateus 25.31–46; Lucas 2.1-20; João 1.1–14.

 

Ilustração: Pixabay.

 

Foto de Rev. Paulo Câmara Marques Pereira Júnior

Rev. Paulo Câmara Marques Pereira Júnior

Pastor da 1ª IPI de Curitiba, PR, e assessor de Relações Internacionais da IPI do Brasil

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Respostas de 5

  1. Linda mensagem sobre o verdadeiro espirito do Natal. Gostei bastante do uso significativo do substantivo “sussuros” diante de tanta confusão e barulho externo e interno desta época do ano.
    Deus nos fala muito durante os momentos de silêncio e contemplação.
    Que Deus abençoe seu Natal Rev Paulo e de toda tua família e igreja
    Abraços meu e da Neli
    Feliz Natal dos sussuros e um 2026 de contemplação, ação e 🕊️ Paz!

  2. Texto elucidativo sobre nosso papel enquanto cristãos.
    É sobre exercer os mandamentos com amor e voluntariado, o que muitas vezes, a burocracia e o excesso de normas acaba por reprimir, tolhendo iniciativas sob pretextos frágeis.

  3. Maravilhoso ESCRITO que sussura em nossas mentes e corações a presença de um menino que nos foi dado. Linda mensagem de Natal!

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