“O verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (João 1.14).
“O presépio é ininteligível sem o Calvário”. Eis uma corajosa afirmação cristológica feita por Karl Barth, em seu ensaio no Natal de 1926. A chave hermenêutica que destrava essa interpretação é fornecida pelo próprio Barth em sua afirmação axiomática:
“Somente quem vê a cruz no Gólgota, consegue ouvir o Evangelho no presépio de Belém”.
Esta frase posiciona a Paixão não como um evento posterior, mas como a lente indispensável através da qual a encarnação deve ser compreendida em sua radicalidade e assertividade. Diante disse pode-se pensar nos pilares teológicos do Natal.
“O presépio é ininteligível sem o Calvário”
- A REALIDADE DA REVELAÇÃO DE DEUS CONTRA TODA ABSTRAÇÃO FILOSÓFICA
A exegese feita por Kar Barth, em um movimento polêmico contra a teologia liberal de seu tempo, ancora o Logos não em um princípio metafísico, mas na concretude irredutível da Palavra-Ato de Deus. A correta definição do “Verbo” de João 1 não é um mero exercício semântico, mas o ponto de partida estratégico para toda a revelação cristã, pois é aqui que se estabelece a soberania da fala divina sobre a especulação humana.
- O Verbo como Mensagem Concreta e Factual: O evangelista João proclama o Verbo não como um conceito, mas como uma “mensagem factual e concreta que é dirigida a todos os seres humanos”. Este não é um Verbo genérico, mas um “Verbo definido, incomparável”, um evento histórico e contínuo, tão certo e evidente para a testemunha bíblica “quanto sua própria existência”. A fala de Deus não é uma ideia a ser contemplada, mas um ato que irrompe na história.
- A Divindade Inerente ao Verbo: Este Verbo concreto não é um intermediário ou uma emanação divina. O Verbo revelado possui “incondicionalmente os próprios atributos, natureza e ser de Deus”, sendo “realmente, não parabolicamente – Seu Verbo”. Pensado e falado no “eterno ‘começo’ de todas as coisas”, o Logos não apenas revela Deus, mas é Deus em Sua autorrevelação. Nele residem a “Vida” como a própria Salvação divina e a “Luz” como a única e suficiente Revelação.
Este Verbo, divino em sua essência e concreto em sua manifestação, se move em direção a um encontro radical com a condição humana, um movimento que constitui o epicentro do escândalo e da glória da Encarnação Divina.
- A ENCARNAÇÃO COMO O EPICENTRO DO PARADOXO
A afirmação “E o Verbo se fez carne” constitui, o núcleo irredutível e definitivamente assertivo do Evangelho do Natal. Esta frase não descreve uma transição pacífica, mas encapsula o paradoxo que define a relação entre Deus e a humanidade em Cristo. É aqui que a majestade divina encontra a fragilidade humana em seu estado mais autêntico, problemático e caído.
- O Significado Radical de Sarx: A teologia reformada é enfática ao definir “carne” (sarx). Não se trata da natureza humana em seu estado ideal, mas “concretamente esta natureza humana na qual me encontro, a natureza de ‘Adão’, a natureza que o homem possui sob o sinal da Queda, no reino das trevas”. O Verbo não se torna um “super-homem” ou um ideal platônico; em um ato de graça incompreensível, Ele “associa-se ao baixo e desprezível”, entrando “em toda a seriedade da perversão da semelhança humana”. Deus encontra a humanidade não onde ela deveria estar, mas onde ela de fato está: em sua condição de oposição a Ele.
- Uma Coexistência Incompreensível: A Encarnação não é uma “transformação” do Verbo, mas uma “coexistência incompreensível”. Aqui, o Verbo não deixa de ser Deus para se tornar homem, nem se funde com a carne para criar um terceiro ser; antes, em um ato soberano e inescrutável, Ele é Deus precisamente na e como carne caída, sem síntese e sem resolução. É nesse ponto que a teologia estabelece uma regra gramatical e bíblica: “O ‘Verbo’ é o sujeito, a ‘carne’ é o complemento, e assim permanece”. Cristo é “verdadeiro Deus e verdadeiro homem”. É sempre o Verbo divino que fala e age, mesmo na forma de servo.
- A Equação Irresolúvel: Esta união divino-humana é “uma equação de desiguais que não pode ser resolvida”. Sem um “ato de Deus” que a revele como Evangelho, ela oferece apenas “ocasião para escândalo”. Este não é um mero obstáculo histórico, mas uma realidade teológica permanente. O Verbo-feito-carne permanece uma ofensa a qualquer sistema — filosófico, religioso ou político — que busque um Deus conformado aos padrões humanos de poder, pureza ou retidão. Para a razão autônoma, Ele é apenas “o amigo de publicanos e pecadores” e, por fim, um “blasfemador” digno da cruz, que é a expressão máxima deste escândalo.
O Verbo-feito-carne permanece uma ofensa a qualquer sistema — filosófico, religioso ou político
A radicalidade da Encarnação na carne (sarx) força, portanto, uma redefinição igualmente radical da glória (doxa) divina. Se Deus se revela na fraqueza e na condição caída, Sua glória não pode, por definição, ser encontrada no poder ou no espetáculo. A humildade da carne se torna, paradoxalmente, o único local possível para o testemunho da glória.
- A GLÓRIA (DOXA) REVELADA NA HUMILDADE
No contexto de uma saudável exegese bíblica, a “glória” (doxa) de Deus sofre uma inversão radical. Dada a natureza da Encarnação na sarx, a glória divina não pode ser uma demonstração de poder visível, mas deve ser compreendida como a própria revelação de Deus na fraqueza, manifestada não apesar da humildade, mas precisamente através dela.
- O Testemunho Seletivo do “Nós”: Com incrível habilidade Karl Barth, nos blinda com uma distinção inigualável desses dois usos de “nós” em João 1:14. O primeiro “nós”, entre quem o Verbo “habitou”, é universal e inclui “Herodes e Caifás, Pilatos e Judas Iscariotes”. Eles viram o homem Jesus, mas a carne lhes foi apenas ocasião para escândalo. O segundo “nós” — “vimos a sua glória” — é seletivo. Representando o evangelista, João Batista e a Igreja, este grupo é constituído por um “ato de Deus” que torna seu “ver” “diligente e proveitoso”. A glória não é uma qualidade empiricamente observável, mas uma realidade percebida apenas pela fé criada pela própria revelação.
- A doxa (glória) é o brilho da autorrevelação de Deus, a luz que se manifesta precisamente na obscuridade da sarx (carne). A humildade não esconde a glória; ela é a forma da glória.
- Plenitude de “Graça e Verdade”: A frase “cheio de graça e verdade” expõe o conteúdo dessa glória. A “Graça” corresponde à Salvação (“Vida”), e a “Verdade” corresponde à Revelação (“Luz”). A glória contemplada no Verbo encarnado é, portanto, a plenitude do ser de Deus em seu ato salvífico e revelador, tornado presente e visível na pessoa de Jesus Cristo.
VIVENDO O NATAL
A afirmação de que “somente quem vê a cruz no Gólgota, consegue ouvir o Evangelho no presépio de Belém” emerge como a chave indispensável para celebrarmos o Natal de modo cristológico. A glória vista na carne é a realidade indivisível do Deus que agiu e age.
Assim sendo, o Natal é celebração e convite contínuo a viver no mistério de um Deus que encontra a humanidade em seu próprio terreno de escuridão e fraqueza, fazendo da manjedoura de Belém o palco da mais decisiva revelação e do indescritível convite à vida. NATAL É CELEBRAÇÃO E CHAMADO!
Ilustração: Pixabay.








Respostas de 2
Texto Maravilhoso! Do presépio ao calvário, sem desvios!
Que profundidade há nesta reflexão. Glória a Deus!