Uma das questões mais explosivas envolvendo as nossas igrejas na atualidade localiza-se no culto e na liturgia. Alguns exemplos dessa questão: o chamado “louvorzão”; os instrumentos musicais; a utilização das palmas; a duração do culto; o púlpito e a pregação; o emprego de liturgias elaboradas ou improvisadas; etc.
Para tratar desse assunto, antes de tudo, é preciso que fique bem claro que não existe culto sem liturgia. A liturgia é o serviço religioso ou o ato de culto. Nesse sentido, todo e qualquer culto tem uma liturgia. Há liturgias de todo o tipo, mas sempre existe uma liturgia.
Ora, a Reforma do século XVI foi basicamente uma reforma litúrgica. Pode-se falar de uma liturgia Católica Romana anterior à Reforma e de outra liturgia desenvolvida pelos grandes líderes da Reforma.
Como em tudo o mais que fizeram, ao tratarem da questão litúrgica os reformadores promoveram uma volta à Bíblia. Para Calvino principalmente, todas as mudanças introduzidas no culto tinham de ter uma boa base bíblica.
Nesse sentido, ele valorizou muito o texto de Atos 2. 42,46-47: “E todos continuavam firmes, seguindo os ensinamentos dos apóstolos, vivendo em amor cristão, partindo o pão juntos e fazendo orações. Todos os dias, unidos, se reuniam no pátio do templo. E nas suas casas partiam o pão e participavam das refeições com alegria e humildade. Louvavam a Deus por tudo e eram estimados por todos. E cada dia o Senhor juntava ao grupo as pessoas que iam sendo salvas”.
Percebe-se claramente, nesse texto, que o culto envolvia a doutrina dos apóstolos (ou seja, o ensino), a celebração da Eucaristia (o partir do pão) e as orações. Na verdade, os dois núcleos da liturgia reformada eram a leitura e a proclamação da palavra e a celebração da Ceia do Senhor (Eucaristia),
A partir daí o culto reformado tem algumas características básicas, dentre as quais destacamos:
1) Integridade, ou seja, uma volta às origens bíblicas. Calvino afirmava: “Não somos livres para escolher à vontade tudo o que não está ordenado nas Escrituras”;
2) Inteligibilidade, isto é, a celebração litúrgica da época não era compreensível, pois era feita em latim. A Reforma promoveu a tradução da Bíblia e sua utilização na pregação no idioma do povo
3) Simplicidade – As cerimônias religiosas da época eram pomposas, com um ritual complicado. A Reforma promoveu a simplicidade, para que todos pudessem entender (inteligibilidade);
4) Sacerdócio universal – A celebração litúrgica antes da Reforma era feita pelo sacerdote; o povo assistia o que era realizado por ele. A Reforma promoveu a participação do povo no culto, valorizando, especialmente, o cântico congregacional.
5) Edificação – A celebração litúrgica da época anterior à Reforma era um fim em si mesmo, não estando vinculada à vida. A Reforma estabeleceu que o culto tem de estar vinculado à vida em sociedade, promovendo transformações éticas e morais, estando ligado à prática da justiça.
O louvor no contexto da tradição reformada
A tradição reformada valorizou o louvor, pois foi ela que fez o povo cantar nos cultos.
Mas o louvor reformado estava subordinado à integridade bíblica; por isso Calvino valorizou o cântico dos Salmos.
O louvor reformado atribui grande valor à inteligibilidade; por isso havia preocupação com os instrumentos e com a melodia, que deviam permitir que se compreendesse o que estava sendo cantado.
O louvor reformado destaca a simplicidade; por isso a música não deve obscurecer o sentido da mensagem.
O louvor reformado representa o exercício do sacerdócio universal; por isso nunca deve ser espetáculo para brilho de astros e estrelas.
O louvor reformado contribui para a edificação; por isso só tem sentido se provoca transformações na vida das pessoas.
Conclusões
Em relação ao culto reformado:
1) Não podemos abrir mão da importância da leitura e ensino das Escrituras, bem como da celebração dos sacramentos, por causa de uma valorização exagerada do louvor.
2) Não podemos cantar qualquer coisa, pois temos de valorizar a integridade bíblica de tudo aquilo que cantamos.
3) Não podemos permitir que a música encubra a inteligibilidade daquilo que cantamos.
4) Não podemos transformar os cultos em espetáculos de artistas da música.
5) Não podemos nos limitar a cantar, sem termos compromissos de vida com o evangelho do reino.
6) Temos de louvar: a) valorizando a leitura e ensino das Escrituras; b) segundo a mensagem bíblica; c) para transmitir a mensagem; d) com a participação de todos; e) com a nossa própria vida.
Diante de tudo isso, devemos proceder a um exame série e criterioso das liturgias que empregamos. Será que nossas liturgias são, de fato, reformadas? Essa pergunta equivale a indagar: será que nossos cultos são bíblicos? Será que não estamos carecendo de uma Reforma no Culto, como ocorreu no século XVI?







