Teologia da Aliança: fundamentos e princípios

Muitos pensam que a Teologia Reformada se resume à doutrina da predestinação. No entanto, há algo ainda mais central, que serve como espinha dorsal...

Muitos pensam que a Teologia Reformada se resume à doutrina da predestinação. No entanto, há algo ainda mais central, que serve como espinha dorsal para outros temas teológicos: a Teologia da Aliança (ou Pacto). Os reformadores e seus sucessores identificaram nas Escrituras três pactos fundamentais, que serão apresentados a seguir.  

O Pacto de Obras 

Deus estabeleceu uma aliança com Adão, representando toda a humanidade. Adão recebeu três mandatos: um espiritual (não comer do fruto proibido), um social (constituir família) e um cultural(cuidar da criação).

Essa aliança é chamada de Pacto de Obras, pois a vida eterna estava condicionada à obediência de Adão. No entanto, ao desobedecer o mandamento espiritual, ele quebrou a aliança, afetando também os mandatos social e cultural. Seu pecado trouxe maldição para toda a humanidade e para a criação.  

Ainda assim, Deus, em sua graça, prometeu a redenção por meio de um “segundo Adão”, Jesus, conforme anunciado em Gênesis 3.15. Assim, Deus estabeleceu o Pacto de Graça.  

O Pacto de Graça

A graça não é uma novidade do Novo Testamento. Desde Gênesis, ela se manifesta progressivamente ao longo das alianças que Deus estabelece com a humanidade. Cada uma dessas alianças representa um estágio do Pacto de Graça, revelando mais sobre o Salvador prometido:  

  • Adão: Deus promete um Salvador (Gn 3.15), demonstrando sua graça mesmo após a queda.  
  • Noé: Apesar da rebelião humana, Deus preserva Noé e sua família.  
  • Abraão: Deus escolhe Abraão para ser o pai de uma grande nação.  
  • Moisés: Deus liberta Israel da escravidão e estabelece uma aliança no Sinai.  
  • Davi: Deus promete que o Messias viria da linhagem de Davi.  

 

Cada aliança complementa a anterior e aponta para a Nova Aliança em Cristo, que traz a plenitude das promessas divinas.  

A Teologia Reformada ensina que o Antigo e o Novo Testamento fazem parte do mesmo Pacto de Graça. Isso se evidencia pelo fato de que:  

  1. A salvação sempre foi pela graça mediante a fé (Rm 4).  
  2. O evangelho é sempre o mesmo desde Gênesis 3.15.  
  3. Há um único povo de Deus (judeus e gentios crentes).  
  4. Cristo sempre foi o Cordeiro Redentor.  

 

A Nova Aliança não altera a essência do Pacto de Graça, mas amplia seu cumprimento em Cristo. Ela é”nova” porque:  

  • Possui uma mediação superior (pelo próprio Deus Filho).  
  • É mais abrangente (inclui todos os povos e aplica o batismo a homens e mulheres).  
  • É amplificada pela ação do Espírito Santo (sobre todos).  
  • Traz um conhecimento mais claro de Deus.  

 

Embora haja mudanças na administração do pacto (exemplo: a circuncisão foi substituída pelo batismo e a Páscoa pela Ceia do Senhor), sua essência permanece a mesma. Assim, o Pacto de Graça é administrado em duas dispensações:  

  1. Antigo Testamento – sob a forma da Lei, com Moisés.  
  2. Novo Testamento – sob a forma do Evangelho, em Cristo.  

 

O Pacto de Redenção

O Pacto da Graça, manifestado em Cristo, foi estabelecido na eternidade. Antes da criação, Deus já havia decretado que Cristo consumaria a salvação dos eleitos, assumindo o Pacto de Obras em seu lugar para que fossem alcançados pela graça. Assim, embora a redenção seja recebida gratuitamente pelos salvos, teve um alto custo para Cristo — sua própria vida.

  

Dispensacionalismo, Teologia da Aliança e a Escatologia 

Em oposição à Teologia da Aliança, há outra maneira de interpretar a Bíblia: o Dispensacionalismo. Essa visão teológica, comum em muitas igrejas pentecostais, divide a história bíblica em sete dispensações, cada uma representando um período distinto no relacionamento entre Deus e a humanidade.  

No Dispensacionalismo, não há continuidade entre os pactos, e Deus estabelece novos meios de relacionamento com os seres humanos em cada dispensação, inclusive diferentes formas de administração da salvação.  

Tendo apresentado o Dispensacionalismo na edição passada e a Teologia da Aliança nesta, queremos destacar que, para um presbiteriano independente, adotar a visão escatológica dispensacionalista pode gerar sérias incompatibilidades com outras doutrinas fundamentais da fé reformada. Aqui estão alguns exemplos:  

  • No Dispensacionalismo, o batismo e a Ceia do Senhor não são administrados aos filhos de crentes, pois não há correspondência entre circuncisão e batismo, nem entre Páscoa e Ceia.  
  • Se Antigo e Novo Testamento não compartilham a mesma essência, os textos do Antigo Testamento perdem seu valor normativo para a vida do crente hoje.  
  • A Igreja do Novo Testamento não é vista como a continuidade do povo de Deus revelado no Antigo Testamento, mas como um “plano B” temporário, uma espécie de parêntese na história da redenção, pois as promessas do Antigo Testamento seriam exclusivamente para os judeus.  

 

Essas diferenças mostram que o Dispensacionalismo não é apenas uma visão escatológica, mas uma abordagem que impacta diversas áreas da teologia cristã, tornando-se, portanto, incompatível com a fé reformada.

Rev. Rodrigo Falseti

Pastor auxiliar da 1ª IPI de Bauru, SP e do professor do Centro de Estudos John Knox da 1ª IPI de Bauru

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